Decisão do banco central americano era esperada, mas escalada do conflito e impacto na inflação preocupam, enquanto Trump busca influenciar o conselho
O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, anunciou nesta quarta-feira (18) a manutenção da taxa de juros do país na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano. Este patamar, o menor desde setembro de 2022, já era amplamente aguardado pelos analistas do mercado financeiro, marcando a segunda reunião consecutiva sem alterações na política monetária.
A decisão ocorre em um cenário de intensa turbulência global, com a guerra no Oriente Médio desempenhando um papel crucial. O conflito tem gerado uma disparada nos preços do petróleo, levantando sérias preocupações sobre o potencial impacto inflacionário na economia americana.
Além das questões geopolíticas, a política de juros do Fed nos EUA também é influenciada por pressões internas, incluindo as do presidente Donald Trump, que tem defendido cortes nas taxas. Essa complexa dinâmica tem reflexos significativos não apenas na economia americana, mas também no Brasil e nos mercados globais, conforme informações divulgadas pelo g1.
Guerra no Oriente Médio Impulsiona Preços do Petróleo e Preocupa o Fed
O início da guerra, em 28 de fevereiro, provocou uma escalada imediata no preço do petróleo no mercado internacional. A commodity chegou a ser negociada a US$ 120, o valor mais alto desde 2022, e embora tenha recuado, mantém-se em um patamar elevado, na casa dos US$ 100.
Essa alta é diretamente atribuída, em grande parte, ao bloqueio do Estreito de Ormuz, uma rota marítima vital por onde transita cerca de 20% do consumo mundial de petróleo e um quinto do comércio global de gás natural liquefeito (GNL). A região registrou uma drástica redução no tráfego de navios após o Irã anunciar o bloqueio e ataques a petroleiros.
Donald Trump, atento ao impacto no bolso dos eleitores e às eleições legislativas de meio de mandato, tem buscado formas de conter a alta. Ele chegou a pedir apoio de outros países para monitorar a passagem, mas teve a solicitação rejeitada por aliados europeus e asiáticos, conforme o g1.
A reação de Trump à negativa foi contundente, afirmando: “Nós não precisamos deles, mas eles deveriam ter ajudado. Estão cometendo um erro muito tolo.” O presidente americano também declarou que a liberação da rota do petróleo “não demorará muito”, apesar do cenário permanecer incerto.
O petróleo mais caro se traduz em gasolina e diesel mais caros, gerando pressões inflacionárias em diversos produtos nos EUA. A associação automobilística AAA reportou que o preço da gasolina já subiu quase 25% desde o início da guerra, alcançando o maior valor desde outubro de 2023. Essa situação é uma grande preocupação para o Fed, que tem o duplo mandato de controlar a inflação e manter o mercado de trabalho aquecido.
Pressão Política sobre o Fed e a Busca por Aliados no Conselho
A pressão de Donald Trump por cortes nos juros do Fed nos EUA é contínua e intensa. Nesta semana, ele chegou a sugerir que o banco central realizasse uma “reunião especial” para reduzir as taxas “imediatamente”, mesmo com a decisão de manter as taxas inalteradas.
Trump é um crítico declarado do atual presidente do Fed, Jerome Powell, cujo mandato se encerra em maio. Esta deve ser uma das últimas decisões de juros sob sua liderança. Para substituí-lo, o republicano indicou o economista Kevin Warsh, visto como o nome ideal para promover os cortes desejados nas próximas reuniões, aguardando aprovação do Senado.
Além da presidência, Trump tem se dedicado a nomear aliados para a diretoria do Fed. Em setembro, Stephen Miran foi indicado para substituir Adriana Kugler. A Suprema Corte também analisa a tentativa do presidente de demitir Lisa Cook, uma decisão que pode dar a Trump mais duas indicações para o conselho, ampliando sua influência sobre as decisões de juros.
Caso o presidente consiga uma maioria de aliados no conselho de sete membros da instituição, sua interferência se estenderá também à aprovação das nomeações nos 12 bancos regionais. Essa movimentação política visa garantir que a política monetária esteja alinhada com a agenda econômica do governo.
Juros Elevados nos EUA e seus Efeitos no Brasil e Mercados Globais
A manutenção dos juros do Fed nos EUA em patamares elevados tem implicações diretas para a economia brasileira e para os mercados internacionais. Os rendimentos das Treasuries, os títulos públicos americanos, tornam-se mais atraentes para investidores globais.
Considerados os investimentos mais seguros do mundo, as Treasuries com alta rentabilidade tendem a atrair capitais para os Estados Unidos, o que, por sua vez, fortalece o dólar. Esse movimento gera uma redução no volume de investimentos estrangeiros no Brasil, contribuindo para a desvalorização do real em relação à moeda americana.
A desvalorização do real e o dólar em nível elevado exercem pressão sobre a inflação no Brasil, impactando diretamente a política monetária doméstica. Isso pode levar o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil, a manter a Selic, a taxa básica de juros brasileira, em patamares altos por mais tempo, afetando o custo do crédito e o crescimento econômico.