Ministro Mauro Vieira Classifica Relatório dos EUA sobre Bases Chinesas no Brasil como 'Especulativo' e Nega Operações Militares da China.
Um relatório recente de uma comissão do Congresso dos Estados Unidos gerou grande repercussão ao apontar a existência de uma suposta rede de instalações espaciais chinesas na América Latina, com potencial uso militar, incluindo duas bases no Brasil.
No entanto, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, veio a público para rejeitar categoricamente essas alegações, afirmando que o documento americano se baseia em "especulações" e informações "distorcidas".
Vieira destacou que não há qualquer evidência de operações chinesas com fins militares ou de inteligência em território brasileiro, desmentindo as menções a supostas estações em Tucano, na Bahia, e na Serra do Urubu, na Paraíba, conforme divulgado pelo g1.
A Rejeição às Alegações de "Bases Chinesas no Brasil"
Durante sua participação na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados, em resposta a um requerimento do deputado Gustavo Gayer (PL-GO), Mauro Vieira foi enfático em sua negação.
"Não existe estação, nem antena, nem operação chinesa, nem parceria militar, nem qualquer elemento que justifique as ilações descritas no relatório ou nas denúncias subsequentes", declarou o chanceler.
Ele atribuiu as conclusões do relatório a "especulações derivadas de notícias de internet cujos conteúdos foram descontextualizados e distorcidos, baseadas em um viés geopolítico que enxerga a América Latina como 'quintal' dos Estados Unidos".
O Que Há em Tucano e na Paraíba, Segundo o Itamaraty
Um dos pontos cruciais do relatório dos EUA era a suposta estação terrestre em Tucano, na Bahia. Vieira afirmou categoricamente que essa estação "não existe".
Segundo o ministro, não há nenhuma construção, contrato, infraestrutura ou operação chinesa no local. O que existiria, de fato, seria apenas um projeto da empresa brasileira Alya Nanossatélites para estações de comunicação, que nunca saiu do papel.
A CEO da Alya Nanossatélites, Aila Raquel, já havia negado, no início de março, que sua empresa forneceria dados ao governo chinês, reforçando que seus fins são puramente civis e comerciais, focados em monitoramentos ambientais e gestão territorial.
Em relação ao radiotelescópio do Projeto Bingo, na Serra do Urubu, na Paraíba, Vieira explicou que se trata de uma iniciativa científica internacional.
O projeto é voltado ao estudo de fenômenos como energia escura, com participação de instituições de diversos países. O equipamento, ressaltou o ministro, é fixo e não possui capacidade de rastrear satélites ou realizar atividades de espionagem, desmentindo novamente a tese das bases chinesas no Brasil com fins militares.
Acordos Preliminares e o Contexto Geopolítico
O relatório americano também mencionou acordos firmados entre empresas brasileiras e companhias da China como indícios de cooperação estratégica na área espacial. Mauro Vieira, contudo, esclareceu que esses memorandos eram preliminares e não vinculantes.
Eles "consistiam em instrumentos para explorar possibilidades de cooperação, que caducaram sem gerar parceria ou contrato", declarou o chanceler, reiterando que não há base para as acusações de bases chinesas no Brasil com propósitos militares.
A comissão do Congresso dos EUA, chamada de Comissão Seleta da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos sobre Competição Estratégica entre os Estados Unidos e o Partido Comunista Chinês, foi criada em 2023.
Com maioria republicana, o grupo tem como objetivo desenvolver estratégias para competir econômica e militarmente com Pequim, o que, segundo Vieira, influencia a visão de tratar a América Latina como "quintal dos fundos" de Washington.
O próprio relatório é intitulado "China em nosso quintal dos fundos: volume 2 – Puxando a América Latina para a Órbita da China", expressando a preocupação com a expansão da influência chinesa na região.
A Visão Americana e a Posição Brasileira
O documento americano argumenta que as estruturas de cooperação espacial poderiam ser usadas para monitoramento e apoio a operações militares chinesas, além de representar uma ameaça à segurança estratégica dos EUA.
"Essas instalações não são simplesmente projetos científicos isolados", diz o documento. "Em vez disso, esses locais formam uma rede integrada de dupla utilização, fortalecendo a capacidade da China de monitorar, controlar e potencialmente interromper as operações espaciais e militares do adversário."
Apesar da forte recomendação americana para conter a expansão dessa infraestrutura, o ministro brasileiro rejeitou veementemente as alegações.
Ele reafirmou que o Brasil mantém cooperação internacional na área espacial exclusivamente para fins científicos, desqualificando o relatório como um conjunto de "especulações derivadas de notícias descontextualizadas e distorcidas".