Avanços em pesquisas sobre a psilocibina, substância de cogumelos alucinógenos, trazem nova esperança para o tratamento da depressão e transtornos mentais, gerando discussões sobre seu futuro na medicina pública.
A discussão sobre o uso de cogumelos alucinógenos, especificamente a psilocibina, no tratamento de condições como a depressão, ganha cada vez mais força no cenário científico e médico global.
Resultados de estudos clínicos recentes têm sido surpreendentes, apontando para um potencial significativo que pode redefinir abordagens terapêuticas para a saúde mental.
Essa promessa levanta questões cruciais sobre os próximos passos para que órgãos reguladores possam aprovar seu uso tanto em sistemas de saúde públicos quanto privados, conforme informação divulgada pela BBC, em matéria publicada no G1.
Experiências Pessoais e o Dilema Médico
Larissa Hope, uma atriz que enfrentou pensamentos suicidas e para quem os antidepressivos tradicionais não surtiram efeito, relata uma experiência transformadora com uma pequena dose de psilocibina, administrada sob supervisão clínica.
Ela descreve ter sentido, pela primeira vez na vida, uma sensação de pertencimento e segurança, repetindo: "estou em casa, estou em casa". Quase 20 anos depois, Hope defende que a substância, aliada à terapia, foi fundamental para sua recuperação.
Contudo, nem todas as experiências são positivas. Jules Evans, diretor do Projeto de Experiências Psicodélicas Desafiadoras, teve uma vivência aterrorizante com LSD aos 18 anos, descrevendo-a como um estado "ilusório" de paranoia, que o levou a um diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) anos depois.
Esses relatos contrastantes são centrais para o dilema enfrentado por médicos, políticos e órgãos reguladores: devem ou não ser autorizados tratamentos que envolvam o uso de cogumelos mágicos e outras drogas psicodélicas?
Avanços Científicos e a Promessa da Psilocibina
A questão ganhou destaque em meio a uma série de novos estudos que indicam que as drogas psicodélicas podem ser eficazes no tratamento de depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, TEPT, trauma e dependências, como de álcool e jogos.
Desde 2022, mais de 20 estudos analisaram diferentes medicações psicodélicas para essas condições, com muitos resultados promissores e alguns mistos, mas poucos sem benefícios claros.
A empresa britânica de biotecnologia Compass Pathways, por exemplo, deve publicar em breve os resultados de um dos maiores testes clínicos já realizados sobre o uso de psilocibina, dados que o órgão regulador de medicamentos do Reino Unido aguarda para reavaliar as restrições atuais.
O professor Oliver Howes, presidente do Comitê de Psicofarmacologia do Colégio Real de Psiquiatras do Reino Unido, expressa otimismo. Ele vê os psicodélicos como um tratamento promissor para transtornos psiquiátricos, inclusive para pacientes do NHS, o sistema britânico de saúde pública.
Howes enfatiza a necessidade urgente de "mais e melhores tratamentos para transtornos de saúde mental" e destaca o potencial de ação mais rápida desses tratamentos. Entretanto, ele adverte que "é muito importante conseguir evidências e não supervalorizar os potenciais benefícios".
Ação Mais Rápida e Menos Efeitos Colaterais?
O uso de drogas com fins recreativos e rituais é antigo, mas a proibição nos anos 1960 e 1970 freou as pesquisas científicas. Uma reviravolta ocorreu nos anos 2010 com o trabalho do professor David Nutt e sua equipe do Imperial College de Londres.
Em testes clínicos com pacientes com depressão, a psilocibina mostrou-se, no mínimo, tão eficaz quanto os antidepressivos convencionais, com a vantagem de menos efeitos colaterais e uma rapidez de ação notável.
Nutt explica: "Achamos que, em vez de esperar oito semanas para que os antidepressivos desliguem a parte do cérebro associada à depressão, talvez a psilocibina possa fazer o desligamento em questão de poucos minutos". Embora promissora, essa visão não é universalmente aceita.
A carreira de Nutt é marcada por controvérsias. Em 2009, ele foi demitido do cargo de presidente do órgão consultor de drogas do governo britânico por declarações comparando os danos do ecstasy aos de montar cavalos, consideradas incompatíveis com sua função.
O Desafio da Regulamentação e Acesso Público
No University College de Londres, o neurocientista Ravi Das investiga como os psicodélicos, como a dimetiltriptamina (DMT), podem romper associações de memória e aprendizado em dependentes de álcool. Ele acredita que a psilocibina pode interromper comportamentos relacionados à dependência.
Das argumenta: "Sempre que alguém bebe, meio que como o cão de Pavlov, você aprende a associar coisas no ambiente ao efeito recompensador do álcool", e seu estudo busca "descobrir se certas drogas, como os psicodélicos, podem romper essas associações".
Se os resultados forem positivos, Das espera que as terapias psicodélicas sejam oferecidas pelo NHS, "não apenas para os poucos privilegiados que podem pagar por eles na medicina particular". Ele defende que o governo deveria "estar aberto à revisão da classificação dessas drogas" com base em evidências científicas.
No entanto, uma análise publicada pelo British Medical Journal em novembro de 2024, por Cédric Lemarchand e colegas, questionou a facilidade de determinar o efeito preciso dos psicodélicos. A dificuldade reside em separar os efeitos da droga do componente psicoterápico, complicando avaliações e a elaboração de rótulos.
O estudo também alertou que testes de curto prazo podem não detectar danos a longo prazo, e o potencial de abuso ou mau uso deve ser considerado.
Cautela e o Apelo por Mudanças Regulatórias
Apesar dos benefícios terapêuticos sugeridos, médicos como Howes defendem que os tratamentos com psicodélicos não devem ser prática médica de rotina fora de ambientes de pesquisa, até que estudos mais rigorosos forneçam evidências robustas de segurança e eficácia. A cetamina é uma exceção, já avaliada pelo órgão regulador.
Howes alerta: "No ambiente de um teste clínico, os psicodélicos são avaliados com muito cuidado. Se as pessoas tomarem essas substâncias de forma independente ou em uma clínica irregular, não há garantias e as questões de segurança passam a ser uma preocupação importante."
Dados do Projeto de Experiências Psicodélicas Desafiadoras indicam que 52% dos usuários regulares de psicodélicos tiveram uma "viagem intensa e desafiadora", considerada por 39% como "uma das cinco experiências mais difíceis" de suas vidas. Além disso, 6,7% pensaram em se ferir, e 8,9% relataram terem ficado "debilitados" por mais de um dia.
David Nutt, Oliver Howes e Ravi Das criticam a lentidão do progresso devido às barreiras para obter permissão para testes clínicos supervisionados. Nutt considera uma "falha moral" que "muitas pessoas sofrendo desnecessariamente" e até morrendo devido a "barreiras injustificadas às pesquisas e tratamento".
O governo britânico apoia planos para reduzir as exigências de licenciamento para alguns testes clínicos, mas médicos como Howes afirmam que as mudanças são "terrivelmente lentas". Os defensores dos medicamentos psicodélicos esperam que os estudos da Compass Pathways tragam maior flexibilização nas pesquisas.
Larissa Hope, cuja experiência com a psilocibina a ajudou a entender traumas e pensamentos suicidas, ressalta a importância desses testes. Ela conclui: "Com a psilocibina, meu sistema nervoso começou, pela primeira vez, a reconhecer a sensação de paz."
Caso você ou alguém que você conheça apresente sinais de alerta relacionados ao suicídio, ou tenha perdido uma pessoa querida para o suicídio, confira alguns locais para pedir ajuda:
O Centro de Valorização da Vida (CVV), por meio do telefone 188, oferece atendimento gratuito 24h por dia, com opções de conversa por chat, e-mail e busca por postos de atendimento em todo o Brasil. Para jovens de 13 a 24 anos, a Unicef oferece o chat Pode Falar. Em casos de emergência, ligue para os Bombeiros (193) ou para a Polícia Militar (190). Outra opção é ligar para o SAMU, pelo telefone 192. Na rede pública local, busque ajuda nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24h. Confira também o Mapa da Saúde Mental, que ajuda a encontrar atendimento em saúde mental gratuito em todo o Brasil. Para aqueles que perderam alguém para o suicídio, a Associação Brasileira dos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (Abrases) oferece assistência e grupos de apoio.