A pequena Vila Muirapinima, em Juruti Velho, no Pará, transforma-se anualmente em palco de uma das mais vibrantes manifestações de fé, tradição e devoção da Amazônia. As festividades de São Sebastião, que culminam no dia 20 de janeiro, feriado municipal, mobilizam todo o município, reforçando laços comunitários e espirituais.
A programação religiosa, rica em simbolismo, reúne desde romarias e procissões até o tradicional erguimento e derrubada de mastros, envolvendo moradores e devotos de todas as idades. É um espetáculo de crença e cultura que atravessa gerações.
As celebrações não se restringem a Juruti Velho, estendendo-se ao Distrito da Tabatinga e à área urbana do município, demonstrando a profunda conexão da população com o santo padroeiro, conforme informação divulgada pelo g1.
Círio Fluvial e as Romarias da Fé
A abertura oficial das festividades de São Sebastião em Muirapinima ocorreu no dia 11 de janeiro, com o emocionante Círio Fluvial. Partindo da Igreja da Comunidade Santa Madalena, no Lago Juruti Velho, a procissão aquática seguiu até a vila, onde uma multidão de fiéis aguardava.
De lá, a jornada de fé continuou em procissão terrestre, com os devotos se dirigindo à Paróquia do Sagrado Coração de Jesus. Este momento é um dos mais intensos, unindo moradores e visitantes em uma poderosa expressão de religiosidade e comunhão.
Diariamente, durante toda a programação, os foliões de São Sebastião percorrem as ruas da comunidade. Partindo da Igreja do Sagrado Coração de Jesus no período da tarde, eles visitam as casas dos promesseiros, aqueles que alcançaram graças por intermédio do santo.
A Tradição dos Mastros e os Promesseiros
Nas residências dos promesseiros, os foliões são acolhidos com mastros cuidadosamente ornamentados. Estes mastros são verdadeiras oferendas, repletos de brinquedos, alimentos e utensílios domésticos, que simbolizam a gratidão e a devoção dos fiéis.
Em uma procissão, os mastros são então levados até a praia em frente à Vila Muirapinima, às margens do Lago Juruti Velho. Lá, são erguidos e permanecem de pé até a manhã do dia 21, quando ocorre o tradicional e aguardado ritual da derrubada.
Até 17 de janeiro, 26 mastros já haviam sido erguidos, e a expectativa é que esse número aumente até o encerramento da celebração. O padre Ademir, pároco de Juruti Velho, ressalta que “Cada mastro levantado representa a ação de Deus na vida dessas pessoas. A fé se torna visível”.
Devoção que Passa de Geração em Geração
A tradição de carregar a imagem de São Sebastião pelas ruas da vila é um dos pontos altos da festa. A jovem Lorena Almeida Ramos, de 18 anos, cumpre essa honrosa tarefa desde os 11, dando continuidade a um legado familiar de décadas.
Filha de Amiracilda Almeida Ramos, Lorena expressa sua emoção: “É uma grande alegria carregar o Santo. É o Espírito Santo que transborda dentro de nós. Tudo que eu peço a São Sebastião, ele me concede. É um grande orgulho e um grande privilégio carregar o Santo pelas ruas da comunidade”.
Amiracilda, por sua vez, conta que a devoção foi herdada do pai, já falecido. “Ele era católico e nos ensinou essa tradição. Desde que ele faleceu, eu e minha filha seguimos adiante. A gente faz promessa, alcança a graça e faz questão de manter essa tradição”, revela, destacando a importância da memória dos pioneiros.
Outra figura emblemática é Iracilda Natividade, de 72 anos, moradora de Muirapinima há 47 anos e devota fervorosa. Ela acompanha as festividades desde sua chegada à comunidade, seguindo uma tradição que já era praticada pelo esposo.
“Hoje participam minhas filhas, filhos, sobrinhas e cunhada. Mais tarde, são eles que vão levar a tradição em frente para não deixar acabar”, afirma Iracilda, evidenciando o desejo de perpetuar a fé e a cultura familiar. Sua filha, a professora Ivanilda Natividade, intensificou o envolvimento após o falecimento do pai.
“Antes de morrer, ele pediu que minha irmã anotasse os cantos e todo o ritual de homenagem a São Sebastião. Foi um pedido para que a gente levasse isso adiante. A partir daí, nossa família se uniu ainda mais”, compartilha Ivanilda, reforçando o poder unificador da fé.
O Significado Espiritual da Celebração
Os mastros, como principal símbolo das festividades, representam o cumprimento das promessas e a materialização da fé. As famílias se unem em um esforço coletivo para ornamentá-los e conduzi-los até a praia, em um gesto de gratidão e esperança.
O padre Ademir, em suas palavras, enfatiza a profundidade espiritual do evento: “Acolhemos tudo isso com muito carinho e agradecemos por essa manifestação tão viva no coração da Amazônia”. A celebração transcende o aspecto meramente religioso, tornando-se um pilar da identidade cultural de Juruti.
Após a colocação dos mastros, foliões e devotos se reúnem na Sede Social de São Sebastião para uma breve oração. Em seguida, seguem em procissão até a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, onde a Santa Missa é celebrada, coroando as festividades de São Sebastião com um momento de profunda espiritualidade.