Raquel Nörnberg relata detalhes da madrugada trágica que resultou na morte de Marcos Nörnberg, seu marido, dentro de casa, levantando dúvidas sobre a operação policial.
A morte do agricultor Marcos Nörnberg, ocorrida durante uma ação da Brigada Militar (BM) em Pelotas, no Rio Grande do Sul, ganha novos contornos com o depoimento de sua viúva, Raquel Nörnberg. Ela foi ouvida pela polícia nesta terça-feira (20), trazendo uma versão que contradiz o relato inicial da corporação e aprofunda o mistério em torno do trágico incidente.
O caso, que já causou grande comoção na comunidade local, agora se vê envolto em um cenário de questionamentos diretos à condução da operação policial. A fala de Raquel é crucial para as investigações em andamento, prometendo revelar mais sobre os momentos que antecederam a morte de seu marido.
As informações divulgadas pelo g1 apontam para um cenário complexo, com a Brigada Militar admitindo um “grande equívoco” na ação, enquanto a família busca justiça e clareza sobre o que realmente aconteceu naquela madrugada.
A Versão da Viúva: “Ele foi alvejado dentro da nossa casa”
Raquel Nörnberg, esposa do produtor rural Marcos Nörnberg, estava em casa na madrugada de 15 de janeiro quando a tragédia se desenrolou. Segundo seu relato, o casal dormia quando percebeu uma movimentação estranha no pátio da propriedade, localizada na Estrada da Cascata, em Pelotas.
Marcos teria saído para verificar o que ocorria e, logo em seguida, Raquel ouviu gritos e, então, disparos de arma de fogo. O homem foi atingido fatalmente e morreu no local, dentro de sua própria residência, conforme o depoimento.
A versão da viúva diverge significativamente da apresentada inicialmente pela Brigada Militar. “Em nenhum momento ele saiu de dentro da nossa casa. Ele foi alvejado dentro da nossa casa“, afirmou Raquel, contestando a alegação da BM de que Marcos teria atirado contra os agentes durante a operação policial.
A Resposta da Brigada Militar e o “Grande Equívoco”
Após a repercussão do caso, o comandante-geral da Brigada Militar (BM), Cláudio Feoli, admitiu publicamente que houve um “grande equívoco” na operação que culminou na morte do agricultor em Pelotas. Essa declaração acendeu ainda mais os debates sobre a conduta dos policiais envolvidos.
Como consequência imediata, os 18 policiais militares envolvidos na ação foram afastados de suas funções. A Corregedoria-Geral da Corporação agiu rapidamente, instaurando um Inquérito Policial Militar (IPM) para aprofundar a apuração dos fatos e esclarecer as circunstâncias da morte de Marcos Nörnberg.
Paralelamente à investigação interna da BM, a Polícia Civil também abriu um inquérito próprio para investigar o caso. As armas utilizadas pelos policiais durante a operação foram apreendidas, e serão submetidas a perícia.
A Dinâmica da Operação Segundo a BM
A Brigada Militar esclareceu que a intervenção policial na área rural de Pelotas foi planejada a partir de informações recebidas da Polícia Militar do Paraná. A ação estava ligada a um roubo a residência ocorrido em 13 de janeiro, onde um caseiro foi mantido refém por 36 horas e três veículos, além de um reboque, foram roubados.
Em 14 de janeiro, a polícia do Paraná prendeu dois suspeitos do roubo na cidade de Guaíra. Os indivíduos, de 20 e 21 anos, moradores de Pelotas e com antecedentes por tráfico de drogas, roubo e adulteração de veículo, estavam em posse dos veículos roubados e indicaram um endereço em Pelotas.
Com base nessas informações, a Brigada Militar planejou a operação, acreditando que no local haveria outros envolvidos no crime, além de armas e veículos roubados. A corporação afirma que, durante a averiguação ao endereço, os policiais se depararam com um homem portando uma arma de fogo, o qual não teria obedecido às ordens e efetuado disparos contra a guarnição, iniciando um confronto que resultou na morte de Marcos Nörnberg.
No local, após o incidente, foi apreendida uma arma de fogo, descrita como uma carabina semiautomática, além de aproximadamente R$ 27 mil em dinheiro e uma pequena quantia em dólar. O local foi imediatamente isolado para os trabalhos da perícia técnica.
Comoção e Investigação em Curso
O enterro de Marcos Nörnberg foi marcado por uma grande comoção da comunidade de Pelotas. O corpo foi sepultado no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula, na manhã de sexta-feira, com o caixão fechado devido à natureza dos ferimentos.
A família e os amigos aguardam os resultados das investigações, tanto da Corregedoria da Brigada Militar quanto da Polícia Civil, para que todas as circunstâncias da morte do agricultor sejam totalmente esclarecidas. A busca por respostas e justiça é a principal demanda diante deste trágico episódio que abalou a região.