A escassez de gasolina e eletricidade leva o país a um abismo imprevisível, com medidas drásticas de economia e um futuro incerto para milhões de cubanos.
Cuba vive um dos seus momentos mais críticos em décadas, com a população enfrentando um severo racionamento de combustível e energia elétrica. A crise, que se agrava desde meados de 2024, atinge agora um patamar alarmante, remetendo a tempos difíceis do passado da ilha caribenha.
O cenário de "combustível zero" se aproxima, forçando os cubanos a adotar soluções criativas e muitas vezes precárias para o dia a dia, desde cozinhar com carvão e lenha até lidar com longos apagões. A situação é complexa, envolvendo fatores internos e externos que intensificam o desafio.
Informações detalhadas sobre essa realidade e as perspectivas futuras foram divulgadas pelo g1, em um panorama que explora as causas e os impactos diretos na vida dos moradores.
A Intensificação da Crise e as Pressões Externas
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, declarou em 5 de fevereiro que o país vai "viver tempos difíceis", ao anunciar um plano extraordinário de economia de energia. Essa declaração reflete a gravidade do cenário, que se aproxima de um abismo imprevisível em 2026, com o racionamento de combustível sendo uma das medidas mais visíveis.
A crise foi intensificada após a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, quando o governo dos Estados Unidos publicou várias medidas para dificultar o acesso de Cuba ao combustível. O presidente norte-americano, Donald Trump, chegou a ameaçar impor tarifas de importação a países que enviassem petróleo à ilha.
Washington tem trabalhado para evitar que Cuba receba petróleo da Venezuela, seu principal aliado por duas décadas, e aumentou a pressão para reduzir os envios do México. Contudo, o México afirmou que continuaria apoiando Cuba por razões humanitárias, enviando carregamentos de alimentos.
Em 12 de fevereiro, Cuba recebeu dois navios com pouco mais de 800 toneladas de suprimentos alimentares do México, com mais 1.500 toneladas prometidas. A Rússia também anunciou que enviará petróleo para Cuba, segundo um jornal russo. O governo brasileiro, por sua vez, avalia enviar ajuda humanitária, como remédios e alimentos.
Para agravar a situação, uma refinaria de petróleo em Havana pegou fogo recentemente, com a causa do incêndio ainda sob investigação. Esses fatores externos se somam a problemas crônicos de geração de eletricidade, como usinas termoelétricas obsoletas e a falta de divisas para importar combustível no mercado internacional.
O governo de Havana atribui grande parte desse cenário ao embargo econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba desde os anos 1960, após a revolução socialista de Fidel Castro e a nacionalização de empresas americanas no país.
O Cotidiano Sob o Racionamento: Resiliência e Desafios
A vida diária em Cuba foi profundamente afetada pelo racionamento de combustível. Elizabeth Contreras, uma moradora, improvisou uma cozinha para cozinhar com carvão e lenha, fornecendo alimentos para três famílias de seu bairro, um testemunho da criatividade e resiliência necessárias.
Contreras recorda que, "de forma parecida com três décadas atrás, sofremos cortes de eletricidade de até 18 horas nas últimas semanas, em mais de uma ocasião". Essa realidade de apagões prolongados é uma constante no dia a dia dos cubanos, afetando desde as tarefas domésticas até o estudo e o trabalho.
O plano de economia anunciado pelo governo inclui o racionamento da venda de combustível, priorizando seu uso para atividades econômicas e serviços essenciais. Além disso, há um incentivo ao trabalho à distância e a implementação de aulas semipresenciais nas universidades, buscando minimizar o consumo de energia e transporte.
Em seu discurso, Díaz-Canel resgatou o conceito de "opção zero", um plano de sobrevivência criado nos anos 1990 para um cenário de "zero petróleo". Imagens captadas por agências de notícias mostraram importantes avenidas de Havana, como a Avenida del Malecón, habitualmente movimentada, com tráfego significativamente reduzido no último domingo, evidenciando o impacto do racionamento de combustível.
Jennifer Pedraza, uma trabalhadora e estudante de 34 anos, se prepara acumulando "lâmpadas, ventiladores e luminárias recarregáveis, além de carregadores portáteis", e também "água, que está faltando". Ela relata ter "deixado de fazer um exame na universidade" recentemente porque estuda longe e "não tinha como chegar".
A principal preocupação de Pedraza é seu filho de nove anos. "Na escola, quase nunca há eletricidade", ela conta. "E, quando ele sai, precisa revisar e fazer tarefas no escuro ao chegar em casa, onde também não há energia elétrica." Ela acrescenta que o filho "não pode ver desenhos animados nem filmes, nem usar muito o telefone quando não há luz ou internet. É complicado para uma criança ficar o tempo todo às escuras."
Apesar da gravidade, a situação não é crítica para todos. Vários cidadãos contatados pela BBC News Mundo contam com familiares no exterior que enviam remessas de dinheiro, alimentos e recursos, ou têm emprego por conta própria. No entanto, para aqueles sem essas possibilidades, o salário mensal médio de 6.830 pesos cubanos (cerca de US$ 14 pelo câmbio informal) é insuficiente.
Uma garrafa de óleo custa cerca de US$ 2,50 e uma caixa com 30 ovos, quase US$ 6, segundo Pedraza. Somente esses dois itens já consomem mais da metade da receita oficial, ilustrando a dificuldade de acesso a itens básicos.
Mais Grave que o ‘Período Especial’?
A situação atual em Cuba traz recordações do "Período Especial" dos anos 1990, quando a ilha sofreu uma grave crise após o colapso da União Soviética. Para muitos, como Elizabeth Contreras, a ilha nunca superou completamente aquele período, mas "agora, me parece mais grave".
Naquela época, os cubanos também cozinhavam com carvão, sofriam com problemas de transporte e enfrentavam longos apagões. O professor de estudos cubano-americanos Michael Bustamante, da Universidade de Miami, aponta que, em termos comparativos, o PIB de Cuba hoje é menos frágil que na década de 1990, com uma deterioração de cerca de 11% da pandemia para cá, contra mais de um terço entre 1991 e 1994.
No entanto, Bustamante compreende por que muitos acreditam que a crise atual é mais grave. "A economia cubana nunca se recuperou totalmente do Período Especial. E, embora o colapso atual seja percentualmente menor, para muitos parece ser pior porque se parte de uma situação que, por si só, já é delicada", explica o professor.
Uma diferença crucial observada por Bustamante em sua viagem a Cuba em 2023 é a desigualdade. Nos anos 1990, a crise atingiu a todos por igual. Hoje, com o surgimento de lojas privadas e a possibilidade de remessas, "quem tiver dinheiro pode conseguir coisas". Ele descreve uma "desigualdade galopante, que pouco tem a ver com o vivido nos anos 1990", o que torna a experiência do racionamento de combustível e de outros recursos muito diferente para cada pessoa.
Cenários Futuros e Impasses Políticos
Após a captura de Maduro, Donald Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, de origem cubana, começaram a pressionar o governo da ilha. Não se sabe ao certo se, como no caso da Venezuela, eles buscam forçar uma mudança de comando após mais de 60 anos de um sistema comunista com um único partido.
Antes das pressões pelo petróleo, Trump já havia incluído Cuba novamente na lista de países patrocinadores do terrorismo e revertido muitas das medidas de abertura tomadas por Washington em 2015, no final do governo Barack Obama. Em seu discurso de 5 de fevereiro, Díaz-Canel garantiu que "Cuba está disposta a um diálogo com os Estados Unidos sobre qualquer assunto", mas "sem pressões".
A história registra que as medidas dos Estados Unidos contra a ilha pouco serviram para este tipo de aproximação. "A asfixia econômica dos Estados Unidos em relação a Cuba nunca funcionou", afirma Bustamante, acrescentando que "ela empobreceu a população, que é muito mais prejudicada que o governo. Não serviu para negociar a gestão econômica e política da sociedade cubana".
O professor acredita ser possível a repetição desta história de pressão que não chega a lugar nenhum, mas, para ele, os Estados Unidos têm hoje mais cartas sobre a mesa. "A questão é se Washington forçará uma crise humanitária que provoque uma revolta social e justifique uma intervenção militar ou se o governo cubano cederá ou apostará em aguentar até as eleições de meio de mandato, esperando que Trump perca capital político", analisa Bustamante.
Essas teorias encontram ressonância entre a população cubana. "Há quem comente se aqui pode ocorrer o mesmo que na Venezuela, mas ninguém gosta de ouvir falar em balas e bombas", comenta Contreras. A sensação de que "algo vai acontecer" é compartilhada, mas é difícil prever o que será esse "algo" depois de décadas de impasses políticos entre Washington e Havana.