Assédio sexual em campo: a resiliência de uma médica
A médica Bianca Francelino, que atuava prestando assistência ao time visitante Nacional-SP, foi vítima de assédio sexual por torcedores durante uma partida da Série A4 do Campeonato Paulista. O incidente ocorreu no sábado, dia 7 de março, véspera do Dia Internacional da Mulher, no estádio de Ribeirão Preto, em um confronto entre Comercial e Nacional-SP.
Apesar da gravidade do ocorrido, a profissional demonstrou grande força, afirmando categoricamente que o episódio “não vai me desanimar”. Este caso levanta novamente a discussão sobre a segurança e o respeito às mulheres em ambientes esportivos, conforme informações divulgadas pelo g1.
O clube Comercial, mandante da partida, prontamente repudiou o assédio e informou que um dos torcedores envolvidos já foi identificado. A Federação Paulista de Futebol (FPF), por sua vez, garantiu que o caso foi encaminhado às autoridades competentes e que os responsáveis enfrentarão punições rigorosas.
O assédio no campo e a reação da família
Durante a partida, enquanto Bianca Francelino estava a trabalho na área do banco de reservas, torcedores proferiram ofensas de cunho sexual, incluindo frases como “Doutora gostosa, vem me examinar”. O namorado da médica, o educador físico Paulo Galvão, e o pai dele, sogro de Bianca, estavam na arquibancada e testemunharam o assédio sexual.
Paulo Galvão, em entrevista à EPTV, relatou que foi tirar satisfação com o torcedor, que já estava “passando do ponto” e cuspindo no campo. Ao confrontar o agressor, Paulo foi ameaçado e ouviu frases como “que é você que você quer?” e “vou te pegar”. Ele tentou pedir respeito pela sua mulher, mas foi ironizado e teve sua origem questionada, mesmo sendo comercialino de Ribeirão.
A Polícia Militar interveio para separar os envolvidos. Contudo, Paulo Galvão expressou sua frustração, pois, inicialmente, a polícia queria retirar ele e seu pai do local, em vez do torcedor que praticava o assédio. Eles precisaram se afastar do alambrado para evitar maiores conflitos, uma situação que gerou indignação pela inversão de papéis.
Ação da Federação Paulista de Futebol e do clube
A Federação Paulista de Futebol (FPF) agiu rapidamente, informando que a árbitra da partida, Ana Caroline D’Eleutério, acionou o protocolo previsto no tratado pela diversidade e contra a intolerância no futebol paulista. A médica Bianca Francelino recebeu todo o apoio necessário após o assédio sexual.
O Comercial, clube anfitrião, emitiu uma nota repudiando o ato e confirmando a identificação de um dos torcedores. A atitude do clube e da federação demonstra um esforço em combater a violência e o assédio nos estádios, buscando garantir um ambiente mais seguro para todos os envolvidos, especialmente as mulheres.
Detalhes da súmula e a intervenção policial
A súmula da partida, documento oficial elaborado pela equipe de arbitragem, registrou o incidente em detalhes. Segundo o relato, o quarto árbitro comunicou a Ana Caroline D’Eleutério sobre o que foi informado pelo técnico do Nacional-SP, Tuca Guimarães.
O técnico relatou que um torcedor teria segurado e apontado a genitália em direção à médica da equipe do Nacional. Esta conduta gerou um início de discussão entre os jogadores reservas e membros da comissão técnica do Nacional com os torcedores do Comercial que estavam próximos ao alambrado, evidenciando o impacto do assédio no ambiente do jogo.
Punições previstas para clube e torcedores
O assédio sexual em estádios pode acarretar sérias consequências para os envolvidos e para o clube. De acordo com Vitor Silva Muniz, presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB de Ribeirão Preto, o Comercial pode ser responsabilizado pelas ações de seus torcedores.
A punição para o clube, conforme o artigo 243 G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, pode variar de R$ 100 a R$ 100 mil em multa. Já o torcedor identificado, além das possíveis implicações criminais, pode ser proibido de frequentar estádios e suas dependências por, no mínimo, 720 dias, ou seja, quase dois anos. O advogado enfatiza que o clube tem a responsabilidade de fiscalizar e proibir a entrada de indivíduos punidos, podendo ser responsabilizado caso essa fiscalização falhe.