Idosos com Câncer Avançado: 72% Priorizam Qualidade de Vida, não só prolongar a existência, revela estudo da Carolina do Norte.

A pesquisa, publicada no JAMA Oncology, aponta uma lacuna nos cuidados: para idosos com câncer avançado, a qualidade de vida supera a busca por prolongar a existência, exigindo nova abordagem.

Para muitos, a luta contra o câncer é sinônimo de busca incessante pela cura ou pelo prolongamento da vida a qualquer custo. Contudo, um estudo recente traz uma perspectiva diferente, especialmente quando se trata de idosos com câncer avançado. Ele revela que a prioridade para este grupo pode não ser o que se imagina.

A pesquisa, com a participação de centenas de indivíduos, aponta uma clara preferência pela manutenção do bem-estar e da dignidade, em vez de focar exclusivamente na extensão da existência. Essa constatação desafia as abordagens tradicionais de tratamento e levanta questões importantes sobre a personalização dos cuidados.

Os dados sugerem que o sistema de saúde, muitas vezes, não está alinhado com os desejos dos pacientes mais velhos, que buscam uma qualidade de vida significativa em seus anos finais. As informações foram divulgadas pelo G1, com base em um estudo publicado no renomado periódico JAMA Oncology.

Prioridade de Vida ou Longevidade?

O estudo, que envolveu 706 pessoas, trouxe à luz uma preferência marcante. Quase 72% dos idosos com câncer avançado expressaram que a qualidade de vida é mais importante do que viver mais tempo. Em contraste, apenas 8,4% valorizaram o prolongamento da existência como sua principal prioridade.

Essa disparidade é crucial, pois sublinha que, para a grande maioria, a experiência de vida e o conforto são mais valorizados do que a quantidade de tempo. O médico Daniel R. Richardson, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, autor sênior da pesquisa, destacou a relevância desses achados.

A análise também observou que a ocorrência de eventos adversos relacionados ao tratamento e hospitalizações não apresentou diferenças significativas entre os grupos que priorizavam a qualidade de vida ou a sobrevida. Isso sugere que o foco na qualidade não necessariamente compromete a segurança.

O Desafio da Oncologia Geriátrica

Os autores da pesquisa, em sua publicação no JAMA Oncology, pontuaram que esses dados “sugerem uma possível falta de responsividade do atual sistema de prestação de cuidados oncológicos, que não atende às preferências dos pacientes”. Esta é uma crítica direta à abordagem predominante.

Embora os idosos representem a maioria dos pacientes com câncer, a ênfase dos tratamentos ainda recai majoritariamente na extensão da sobrevida. As intervenções voltadas para melhorar o bem-estar dos doentes, por outro lado, ainda deixam a desejar, conforme apontado pelo estudo.

O foco em um “cuidado centrado na pessoa”, que leva em conta as preferências individuais de cada paciente, permanece como um dos grandes desafios da oncologia geriátrica. É essencial adaptar as estratégias para atender às necessidades reais e aos desejos dos idosos com câncer avançado.

Detalhes do Estudo e Fatores Influenciadores

A pesquisa em questão foi uma análise secundária exploratória do GAP70+, um ensaio clínico randomizado por aglomerados. Este tipo de estudo sorteia grupos inteiros com características semelhantes, em vez de indivíduos isolados, para avaliar intervenções de forma mais abrangente.

Os participantes tinham idade mínima de 70 anos, diagnóstico de tumor sólido avançado incurável ou linfoma, e apresentavam um ou mais comprometimentos em domínios da avaliação geriátrica (AG). No momento da inscrição, todos foram questionados sobre sua concordância com a afirmação: “Manter minha qualidade de vida é mais importante para mim do que viver mais tempo”.

Curiosamente, o estudo não encontrou variações de preferência com base em idade, sexo, renda ou estado civil. No entanto, houve diferenças notáveis: indivíduos com ensino superior ou pós-graduação mostraram maior propensão a priorizar a qualidade de vida, comparados àqueles com diploma de Ensino Médio.

Adicionalmente, pacientes sem comprometimento cognitivo também se inclinaram a dar primazia à qualidade de vida. Não houve distinção entre os grupos com base no tipo ou estágio do câncer, nem em relação à maioria dos domínios de comprometimento da avaliação geriátrica, exceto pela cognição.

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