Entenda como as severas sanções americanas, o colapso do fornecimento venezuelano e a escassez de petróleo levaram Havana à mesa de diálogo com os EUA.
O cenário político em Cuba está em ebulição, com uma crescente pressão americana sobre Cuba que reacendeu tensões históricas. Desde o primeiro mandato, Donald Trump tem endurecido a postura dos Estados Unidos contra a ilha, revertendo políticas de abertura e impondo sanções severas.
A estratégia americana, intensificada após a queda de Nicolás Maduro na Venezuela, resultou em uma crise energética sem precedentes, marcada por frequentes apagões e escassez. Essa situação forçou o governo cubano a buscar o diálogo, abrindo portas para negociações que antes pareciam improváveis.
O objetivo de Washington, segundo relatos da imprensa, é uma mudança de regime em Havana. Acompanhe nesta matéria os detalhes dessa escalada de tensão, o impacto na vida dos cubanos e os bastidores das conversas, conforme informações divulgadas pelo G1.
Apagões e a Crise Energética em Cuba
A vida em Cuba foi drasticamente afetada pela falta de petróleo, mergulhando o país em uma profunda crise energética. A rede elétrica cubana depende essencialmente de combustível para gerar eletricidade, e a interrupção do fornecimento venezuelano, imposta pelas sanções dos EUA, criou um cenário de emergência.
Especialistas apontam que Cuba necessita de cerca de 110 mil barris de petróleo por dia, mas sua produção interna atinge apenas 40 mil. Conforme a BBC, essa dependência de importações, antes parcialmente suprida pela Venezuela, resultou em apagões generalizados e longas filas nos postos de gasolina.
Em meio a essa situação, o governo cubano anunciou medidas de racionamento de combustíveis, priorizando setores como agricultura e turismo. Esforços para descentralizar a importação de combustíveis e investir em energia solar também foram destacados.
Contudo, essas ações não foram suficientes para conter a crise. A escassez de combustíveis e os cortes de energia persistiram, impactando até mesmo o fornecimento de alimentos. No sábado, 14 de fevereiro, manifestantes foram às ruas para protestar contra a situação, culminando em ataques a prédios governamentais.
A Estratégia de Trump e o Início das Negociações
A pressão americana sobre Cuba tem sido uma constante na política externa de Donald Trump. Desde 2017, ele reverteu a política de abertura de Barack Obama, recolocando Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo e intensificando as sanções.
A queda de Nicolás Maduro na Venezuela, em 3 de janeiro, foi um ponto de virada crucial. Os Estados Unidos passaram a impedir o envio de petróleo e dinheiro de Caracas para a ilha, e, no fim de janeiro, Trump autorizou tarifas contra qualquer país que comercialize petróleo com Cuba.
Essa medida, justificada pela Casa Branca como necessária para a estabilidade no Caribe, foi vista como uma tentativa de sufocar a economia cubana. “Os Estados Unidos têm tolerância zero para as atrocidades do regime comunista cubano e agirão para proteger a política externa, a segurança nacional e os interesses nacionais”, afirma a ordem assinada por Trump.
Ao mesmo tempo, o governo Trump acusou Cuba de se alinhar a nações como Rússia, China, Irã e grupos terroristas, representando uma ameaça à segurança nacional americana. “Cuba é uma nação em crise, e é preciso ter pena do país”, declarou Trump, “Parece algo que simplesmente não vai sobreviver. Acho que Cuba não vai sobreviver.”
Diante do agravamento da situação, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, anunciou em 13 de fevereiro o início de negociações com os Estados Unidos. “Essas negociações visam encontrar soluções, por meio do diálogo, para as diferenças bilaterais entre as duas nações”, declarou.
Exigências Americanas e a Saída de Díaz-Canel
Apesar do início das conversas, persistem divergências significativas entre Washington e Havana. Autoridades americanas indicam que qualquer alívio da pressão americana sobre Cuba está condicionado a concessões políticas e econômicas por parte do governo cubano.
Uma revelação do jornal The New York Times, divulgada na segunda-feira, apontou que os Estados Unidos estão pressionando pela saída de Miguel Díaz-Canel do cargo para que as negociações avancem. Essa proposta não exige mudanças amplas no regime comunista nem ações contra a família Castro.
A ideia é que a substituição de Díaz-Canel possa abrir caminho para reformas econômicas no país, sem a percepção de um ultimato, diferentemente do ocorrido na Venezuela. Os cubanos reconheceram a problematicidade da presidência atual e buscam uma forma de substituí-lo internamente.
Para integrantes do governo Trump, a saída do presidente cubano seria um passo para facilitar acordos e a esperada mudança de regime. No entanto, exilados cubanos e políticos americanos podem pressionar por transformações ainda mais amplas na ilha.
Bastidores: Quem Está Conduzindo as Conversas?
As delicadas negociações entre os dois países estariam sendo coordenadas pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Filho de imigrantes cubanos, Rubio é um defensor da queda do regime comunista e tem grande influência junto a exilados cubanos nos EUA.
Assessores de Rubio estão em contato com autoridades cubanas para discutir os termos de um possível acordo. Em fevereiro, o site norte-americano Axios afirmou que o próprio secretário estaria mantendo conversas secretas com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, conhecido como “Raulito” ou “El Cangrejo”.
Raulito, neto do ex-presidente Raúl Castro e sobrinho-neto de Fidel, não ocupa cargo oficial no governo, mas sua participação nas conversas sugere a contínua influência da família Castro nas decisões políticas de Cuba.
Embora o congressista republicano Mario Díaz-Balart tenha dito ao jornal Miami Herald que os Estados Unidos mantiveram contato com “diversas pessoas do entorno de Raúl Castro”, ele não confirmou nomes específicos nem a natureza oficial das negociações. O governo cubano, por sua vez, mantém sigilo sobre sua delegação.