Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta encantam em ‘Bicudos dois’, revivendo o ‘telecoteco’ do samba em show memorável no Teatro Ipanema

Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta, em sua mais recente apresentação do show ‘Bicudos dois’, confirmaram-se como uma das duplas mais cativantes da cena musical brasileira. O espetáculo, que já havia sido aclamado em seu lançamento em dezembro de 2025, retornou ao Rio de Janeiro com a mesma energia e maestria vocal.

A performance, que aconteceu no Teatro Ipanema, no dia 31 de março de 2026, foi um verdadeiro deleite para os amantes do samba. A dupla demonstrou um entrosamento impecável, transportando a plateia por um repertório que mescla clássicos e composições contemporâneas com rara sensibilidade.

Este show, que recebeu uma avaliação de quatro estrelas e meia, destaca a habilidade de Del-Penho e Malta em resgatar e reinterpretar o ‘telecoteco’, a levada malemolente do tamborim que se manifesta em suas vozes. As informações são do jornalista Mauro Ferreira, divulgadas pelo g1.

A Essência do Telecoteco e o Diálogo com o Passado

No dicionário do samba, o ‘telecoteco’ é a levada malemolente do tamborim, um balanço e molejo que se estende à voz. Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta incorporam essa essência, evocando duplas históricas como Francisco Alves e Mário Reis, do início dos anos 1930.

Dessa rica herança, os ‘bicudos’ reviveram o clássico ‘É preciso discutir’, um samba de Noel Rosa de 1932, demonstrando a profundidade de sua pesquisa e o carinho pelo cancioneiro nacional. É uma das muitas pérolas pescadas no baú da música brasileira.

Repertório Afinado: Clássicos e Novidades

O roteiro do show e do álbum ‘Bicudos dois’ brilha ao alinhar essas joias raras com músicas recentes que soam como se viessem de um passado glorioso. Exemplos notáveis incluem ‘Santinha’, de Chico Adnet e Mario Adnet (2022), um samba perfeito para salões de gafieira.

Outra adição que se destaca é ‘Prece do jangadeiro’, de Pedro Amorim (2025). Seu canto em feitio de oração parece mergulhar nas profundezas do cancioneiro marítimo do imortal Dorival Caymmi, mostrando a versatilidade e o bom gosto da dupla.

Em cena, dividindo o palco do Teatro Ipanema com cinco músicos extraordinários, Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta tangenciaram a maestria dos arranjos do disco de 2025. Este álbum é uma sequência do aclamado ‘Dois bicudos’, lançado há 22 anos, em 2004.

Harmonia Vocal e Entrosamento em Cena

O charme principal do show reside na harmonização das vozes dos dois ‘bicudos’, evidente desde a abertura com ‘Doralice’, samba de Dorival Caymmi e Antônio Almeida (1945). A bossa do canto remeteu à gravação original do grupo vocal Anjos do Inferno, que inspirou até João Gilberto.

Seja cantando em uníssono, como no ágil samba ‘Seja breve’, de Noel Rosa (1935), revivido com o batuque do chapéu de palha percutido pelo baterista Marcos Thadeu, ou esboçando um duelo em ‘Desafio do malandro’, de Chico Buarque (1985), a dupla mostrou total entrosamento.

Até mesmo o bom humor se fez presente, com os cantores tirando sarro um do outro em papos sobre futebol, introduzindo a marcha ‘Hino do Canto do Rio’, de Lamartine Babo (1950). A performance contou com o toque virtuoso dos músicos Marcos Thadeu, Paulino Dias, Paulo Aragão, Pedro Aragão e Rui Alvim, enriquecendo o suingue de músicas como o samba-choro ‘O que vier eu traço’.

Pérolas Inesperadas e a Celebração do Samba

Nem tudo foi ginga e balanço. A dolência de ‘Reserva de domínio’ (1985) evidenciou a beleza da melodia inspirada do letrista Paulo César Pinheiro, parceiro de Mauro Duarte. A melancolia foi reforçada pelo choro da cuíca de Paulino Dias, adicionando uma camada profunda ao número.

A dor de cotovelo do samba ‘Pergunte aos meus tamancos’, de Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves (1936), foi habilmente filtrada pelo ‘telecoteco’ dos dois ‘bicudos’, mostrando a capacidade da dupla de navegar por diversas emoções do samba.

Extrapolando o repertório do álbum ‘Bicudos dois’, a dupla apresentou sambas como ‘Falso patriota’ (Victor Simon e David Raw, 1953) e ‘Cosme e Damião’ (Wilson Baptista e Jorge de Castro, 1955). Surpreenderam ainda com ‘Foi uma pedra que rolou’ (Pedro Caetano, 1940), regravada no disco original de 2004.

Outra adição especial foi ‘Canção para inglês ver’ (1931), herdada do roteiro de ‘Lamartiníadas’ (2005), show feito por Del-Penho e Malta com Pedro Miranda em torno da obra de Lamartine Babo, autor desse tema lançado há 95 anos. No todo, o show ‘Bicudos dois’ roçou a perfeição do segundo álbum conjunto dessa dupla do telecoteco.

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