Quando o café vai ficar mais barato? Expectativa de safra recorde em 2026 pode reduzir preços, mas clima adverso preocupa

A expectativa de um alívio no bolso dos consumidores que apreciam um bom café tem sido um tema de crescente interesse. Após anos de alta, impulsionados por problemas climáticos e quedas na produção, o Brasil se prepara para uma colheita robusta que pode, finalmente, trazer uma desaceleração nos preços.

No entanto, especialistas alertam que, apesar da promessa de uma safra maior, o cenário não indica um retorno aos valores praticados há alguns anos. Fatores como a inflação acumulada e a persistência de fenômenos climáticos adversos continuam a moldar o futuro do mercado.

O consumidor brasileiro tem acompanhado com atenção as flutuações. Em 2020, o quilo do café tradicional torrado e moído custava, em média, R$ 16,45, mas hoje o mesmo produto é encontrado por cerca de R$ 63,69 no varejo, um aumento de quase o triplo, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) divulgados pelo g1.

A safra esperada e a desaceleração da inflação

O Brasil deve colher uma safra de café maior neste ano, o que pode contribuir para aliviar a inflação ao consumidor ao longo de 2026. No campo, o preço pago ao produtor pela saca de café já começou a recuar no início do ano passado, sinalizando uma possível tendência de queda nos valores finais.

Parte dessa desaceleração já chegou ao consumidor, segundo Gil Barabach, analista da Safras & Mercado. A inflação do café moído, por exemplo, vem caindo lentamente desde julho de 2025 e, neste ano, já acumula uma queda de 3,6%, de acordo com o IPCA, índice oficial de inflação calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A previsão para a colheita de café no Brasil, que ocorre entre maio e julho, é otimista. Barabach projeta uma colheita de 75,6 milhões de sacas de 60 quilos, expectativa alinhada com a de Fernando Maximiliano, analista da StoneX Brasil. Ambos preveem que essa safra trará um aumento da disponibilidade de café no mercado brasileiro, pressionando os preços do café para baixo.

Essa projeção dos analistas é superior à do governo federal. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma colheita de 66,2 milhões de sacas este ano, um aumento de 17% em relação à temporada anterior. Esse crescimento é atribuído à bienalidade positiva, à entrada de novas áreas de cultivo, ao avanço tecnológico no campo e a condições climáticas mais favoráveis.

Por que os preços não devem voltar ao que eram no passado?

Mesmo com a inflação do café em queda, os preços dificilmente retornarão aos níveis de seis anos atrás, observa Gil Barabach. Ele explica que a volta a patamares mais baixos é um processo gradual, que dependerá da evolução da produção não apenas neste ano, mas também nos anos seguintes. Além disso, não basta só o Brasil produzir bem, a recuperação dos estoques e a melhora no abastecimento precisam ocorrer em outros países produtores para que os preços do café caiam de forma consistente.

Barabach ressalta que, devido à inflação acumulada entre 2020 e 2026, o poder de compra da população diminuiu. Mesmo que o mercado se estabilize, é improvável que o preço volte exatamente ao mesmo patamar de seis anos atrás, já que os custos de produção e a economia como um todo operam em outro nível inflacionário.

O cenário atual é de um mercado que se ajusta a novas realidades econômicas e climáticas. A recuperação plena dos estoques globais é um fator crucial que ainda precisa ser consolidado para que haja um impacto significativo e duradouro nos valores do produto.

O impacto de problemas climáticos nas próximas safras

Apesar da expectativa de uma boa produção em 2026, problemas climáticos previstos para o segundo semestre podem comprometer as colheitas nos anos seguintes, alerta André Braz, economista do FGV Ibre. Ele destaca que o café é uma cultura bianual e que o Brasil tem sido afetado por fenômenos climáticos cada vez mais frequentes.

Braz explica que, até o início dos anos 2000, El Niño e La Niña ocorriam a cada sete ou oito anos, resultando em safras mais regulares. No entanto, de 2001 para cá, esses fenômenos aparecem com mais frequência, e para 2026, a previsão é de um El Niño forte. Um relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), publicado em 31 de março, aponta 80% de probabilidade de desenvolvimento de um El Niño no segundo semestre.

O El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial, costuma provocar mais chuvas no Sul e períodos de seca no Norte e Nordeste do Brasil, além de aumentar a chance de temperaturas mais altas. Esse fenômeno pode atrapalhar a safra de café porque altera o volume e a distribuição das chuvas, prejudicando o desenvolvimento do fruto em áreas onde a regularidade climática é essencial para o plantio, que acontece no segundo semestre.

Devido a essa expectativa de clima adverso, André Braz destaca que não devem haver grandes alívios para o consumidor, mantendo a incerteza sobre quando o café vai ficar mais barato de forma sustentável e significativa.

Tags

Compartilhe esse post