Família Aguiar no RS: O Que a Polícia Não Conseguiu Desvendar Sobre Corpos, Carro e o Plano com Inteligência Artificial no Caso do PM Indiciado

Mesmo com o inquérito concluído, o desaparecimento da família Aguiar no Rio Grande do Sul ainda guarda mistérios cruciais, desafiando as investigações.

O caso do desaparecimento da família Aguiar no Rio Grande do Sul continua a intrigar as autoridades, mesmo após a conclusão do inquérito policial. Três meses depois do sumiço de Silvana, 48 anos, e de seus pais, Isail, 69, e Dalmira Germann de Aguiar, 70, pontos cruciais permanecem sem resposta, lançando sombras sobre a investigação.

O policial militar Cristiano Domingues Francisco foi indiciado por feminicídio, dois homicídios triplamente qualificados, ocultação de cadáver e outros crimes. Contudo, o paradeiro dos corpos e do veículo utilizado no suposto crime ainda é desconhecido, e a causa exata das mortes segue um enigma.

A complexidade do caso, que envolve até o uso de inteligência artificial para despistar as buscas, desafia a Polícia Civil, conforme informações divulgadas pelo g1. O Ministério Público agora analisa o inquérito de 20 mil páginas para decidir se oferece denúncia.

Corpos da família Aguiar permanecem sem localização

Um dos maiores enigmas do desaparecimento da família Aguiar é o paradeiro dos corpos de Silvana, Isail e Dalmira. Apesar de extensas buscas realizadas pela polícia em diversas localidades, inclusive com o auxílio de cães farejadores no Litoral, Serra e Região Metropolitana de Porto Alegre, nenhum vestígio foi encontrado.

O delegado Diego Traesel, diretor da Divisão de Inteligência Policial e Análise Criminal, afirmou que “nenhuma informação foi descartada, todas foram verificadas. Mas, de fato, a gente não conseguiu até então uma localização precisa”. As buscas se concentraram em uma área rural de Gravataí, onde um familiar de Cristiano possui um sítio.

A polícia acredita que a atuação dos suspeitos após o suposto crime dificultou os trabalhos. O delegado Traesel explicou que “houve um tempo para a preparação do pós-crime, e isso nos prejudicou bastante”. Ele destacou que a simulação de um acidente na Serra Gaúcha, utilizando inteligência artificial para simular a voz de Silvana, despistou a polícia em momentos cruciais.

Além disso, a falta de câmeras de segurança com maior tempo de gravação no entorno das residências da família Aguiar também impactou a investigação. “A gente fez buscas nas câmeras do entorno, mas algumas gravavam apenas 24 horas, 48 horas, e ali já havia transcorrido três, quatro dias. Isso nos prejudicou”, complementou Traesel.

Ainda é um mistério como as mortes teriam ocorrido

Mesmo sem os corpos, a polícia trata o caso como um feminicídio e um duplo homicídio triplamente qualificado, considerando remota a chance de que a família Aguiar esteja viva. Outra questão sem resposta é a forma como as mortes ocorreram.

As investigações descartam o uso de armas de fogo ou armas brancas. O delegado Anderson Spier, titular da 1ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana, explicou que “essa constatação não é possível, pela ausência dos corpos, saber exatamente qual foi o instrumento empregado para efetivar a morte”.

No entanto, a perícia encontrou sangue na residência de Silvana, que foi identificado como pertencente a ela e a seu pai, Isail. A quantidade era pequena, o que é incompatível com mortes por arma branca ou de fogo. Os policiais levantam a hipótese de que as mortes podem ter sido causadas por asfixia.

“A hipótese que mais se ajusta nesse caso seria de uma asfixia, provavelmente por esganadura”, afirmou Spier. Ele descreveu o autor como forte e alto, e as vítimas como de estatura média, incluindo dois idosos, o que tornaria fácil o sufocamento. A ausência de sinais de luta corporal nas residências reforça a ideia de uma “morte de uma maneira silenciosa”.

O Volkswagen Fox vermelho, peça-chave que sumiu

O Volkswagen Fox vermelho é considerado uma peça central na trama do desaparecimento da família Aguiar. Segundo o inquérito, este veículo teria sido usado por Cristiano Domingues Francisco para ir às casas das vítimas, cometer os crimes e, posteriormente, transportar e ocultar os corpos. No entanto, assim como os corpos, o Fox vermelho nunca foi encontrado.

O delegado Anderson Spier destacou a importância do veículo. “Realizamos diversas e variadas de inteligências para tentar localizar esse veículo. Efetivamente, ele não foi localizado. Podemos dizer que foi o veículo utilizado para a retirada dos corpos”, disse. A ligação do carro com Cristiano foi confirmada por fotos encontradas em uma nuvem de documentos do PM.

A polícia especula que o carro pode ter sido descartado, desmanchado, ou até mesmo submerso junto com os corpos. “Acreditamos que ele pode ter descartado, picado, entregue para alguém, desmanchado, escondido, ou até pode ter sido consumido junto com os corpos. É uma possibilidade que existe”, concluiu Spier, ressaltando que a importância do Fox na execução do crime levou ao seu descarte cuidadoso.

O planejamento detalhado e os outros indiciados no caso Aguiar

A cronologia dos fatos indica que Silvana foi morta entre a noite e a madrugada de 24 de janeiro em sua casa. Câmeras flagraram um Volkswagen Fox vermelho na residência, e um celular vinculado a Cristiano se conectou à rede Wi-Fi do local. A polícia concluiu que Cristiano e Silvana estavam no local no mesmo momento, e que ela foi morta ali.

As investigações apontam que Cristiano utilizou inteligência artificial para simular a voz de Silvana, atraindo seu pai, Isail, para a casa dela no dia 25. Minutos depois da chegada de Isail, apenas Cristiano deixou o local. Em seguida, ele teria usado a voz simulada novamente para atrair a mãe, Dalmira, à casa dela, onde o casal foi visto pela última vez.

O delegado Diego Traesel enfatizou o planejamento do crime. “Foi um crime tão bem planejado. Percebemos que essa montagem teatral para a atração dos idosos, ele já foi criada no dia 21, dias antes do fato”, revelou. Cristiano teria preparado um telefone específico para o crime e o pós-crime, desaparecendo com seu telefone verdadeiro dias depois sob pretexto de um acidente.

Além do PM Cristiano, outras cinco pessoas foram indiciadas por crimes como fraude processual, ocultação de cadáver, furto qualificado, associação criminosa e falso testemunho. Entre eles estão a esposa, o irmão, a mãe e a sogra de Cristiano, além de um amigo. A polícia solicitou a prisão preventiva de três desses suspeitos, mas o pedido foi negado pelo Tribunal de Justiça.

O inquérito da Polícia Civil, com 20 mil páginas e mais de 10TB de documentos, é fruto de uma vasta investigação. Foram apreendidos 16 celulares, 17 nuvens de documentos, cinco DVRs, 13 pendrives, cinco computadores e quatro HDs. A motivação do crime seria a disputa pela guarda do filho de Cristiano com Silvana, além de questões financeiras ligadas ao patrimônio da família Aguiar.

Apesar da ausência dos corpos, o delegado Anderson Spier reforça a robustez das provas. “Eu sei que se criou esse mito de que sem a presença dos corpos não há materialidade, mas, na verdade, a gente já tem um vasto conteúdo que aponta no sentido de que a materialidade pode ser provada de forma indireta”, concluiu, citando a prisão preventiva do autor como prova da materialidade indireta.

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