Uma década de corridas por aplicativos em Fortaleza: motoristas celebram, mas enfrentam queda de lucros e custos operacionais crescentes.
Há dez anos, Fortaleza testemunhava a chegada de um novo serviço que revolucionaria a mobilidade urbana: as corridas por aplicativos. O que começou como uma promessa de flexibilidade para motoristas e praticidade para passageiros, hoje se consolida como um pilar do transporte na capital cearense, mas não sem controvérsias e desafios.
Enquanto as plataformas digitais, como Uber e 99, celebram a marca de uma década de operação, a categoria de motoristas de aplicativo em Fortaleza levanta a voz. Suas principais reivindicações giram em torno da desvalorização das tarifas e da consequente queda nos ganhos líquidos, contrastando com o aumento constante dos custos de manutenção veicular.
Este cenário de transformação e desafios é o foco de uma série de reportagens do g1, que detalha como o serviço evoluiu, impactando tanto a vida dos profissionais do volante quanto a rotina dos passageiros na cidade, conforme informação divulgada pelo g1.
A década no volante: A realidade dos motoristas
Desde a chegada da Uber em 29 de abril de 2016, seguida pela 99 no ano seguinte, e posteriormente pelas modalidades de moto, o serviço de corridas por aplicativos se enraizou em Fortaleza. No entanto, o entusiasmo inicial dos motoristas de aplicativo deu lugar a uma preocupação crescente com a rentabilidade e os ganhos.
Romário Fernandes, um dos pioneiros que iniciou no serviço em maio de 2016, relata uma mudança drástica. Ele foi um dos muitos que buscaram nos aplicativos uma saída em um momento de necessidade financeira, após ser demitido de um emprego de seis anos. “Eu peguei o dinheiro das minhas contas, da minha rescisão contratual naquele período, e acabei financiando um carro, e estou até hoje. Não imaginava que estaria aí há 10 anos já trabalhando nas plataformas digitais”, compartilhou o motorista.
Ele vivenciou todas as transformações das plataformas e, hoje, o serviço é sua principal fonte de renda, conciliando as corridas por aplicativo com a faculdade de Direito. Apesar da flexibilidade de horários, Romário não nega a desvalorização da renda. O lucro líquido mensal que podia chegar a R$ 5,1 mil há uma década, hoje se estabiliza em torno de R$ 1.947, exigindo uma carga horária significativamente maior para manter os ganhos motoristas aplicativo.
“Hoje, infelizmente, para o motorista de aplicativo, os ganhos diminuíram bastante, a carga horária aumentou, que hoje é a nossa maior dificuldade depois desses 10 anos trabalhando como motorista de aplicativo”, lamentou Romário, ressaltando que a tarifa mínima, de R$ 4,50 em 2016, hoje é de R$ 5,80, um aumento irrisório frente à escalada dos preços de combustível, pneus e manutenção veicular.
As plataformas e a busca pelo equilíbrio
As empresas de aplicativo, por sua vez, defendem que buscam um equilíbrio delicado. Fabrício Ribeiro, diretor de Operações da 99, explicou que elevar demais as tarifas para aumentar os ganhos dos motoristas pode reduzir o volume de corridas, tornando os profissionais mais ociosos e, paradoxalmente, diminuindo seus ganhos líquidos.
“É um tópico que está sempre vivo a questão dos ganhos motoristas. E, obviamente, com um equilíbrio delicado, porque, de um lado, se a gente sobe demais, se a gente sobe os ganhos a partir de um certo ponto, o volume de corridas cai porque o passageiro não está disposto a pagar”, comentou Ribeiro. Ele também afirmou que os ganhos médios por quilômetro em Fortaleza são ligeiramente superiores à média nacional, buscando sempre o ponto que maximize a ocupação do motorista com o máximo de ganho possível por corrida.
A Uber, procurada pela reportagem do g1 para comentar as reclamações dos motoristas de aplicativo em Fortaleza, não disponibilizou nenhum representante para entrevista, deixando em aberto sua posição sobre o tema e as estratégias para os ganhos da categoria.
O apoio da categoria e a evolução da segurança
Diante dos desafios, a organização se faz presente. Evans Sousa, presidente da Associação de Motoristas de Aplicativo do Ceará (AMAP-CE) e também motorista há quase dez anos, destaca a importância da entidade. A associação luta por melhores repasses, sugerindo que o valor justo para o aplicativo seria entre 20% e 25% do valor da corrida, em contraste com os atuais 30% a 60% retidos pelas plataformas.
Além da luta por melhores ganhos, a AMAP-CE se destaca por elaborar diversas ações de apoio aos profissionais. “Nós temos a ‘Ação Motora’, que nós levamos todo tipo de serviço, desde o corte de cabelo, unha, maquiagem, atualização de documentos”, explicou Evans. Há também o “Super Girls”, um projeto exclusivo para mulheres, e o “Pit Stop”, um dia de lazer gratuito em um clube para motoristas e suas famílias.
O projeto “Tamo Junto” é um dos mais impactantes, segundo Evans. Ele visa ajudar motoristas de aplicativo que passaram por acidentes ou necessidades urgentes. “A gente faz uma arrecadação, e diante de um valor que é arrecadado, a gente consegue contribuir com o dobro do valor para ajudar esse motorista”, complementou o presidente da associação, mostrando o forte senso de comunidade entre os profissionais.
Um ponto positivo, mesmo em meio às dificuldades financeiras, é a evolução das medidas de segurança. Romário Fernandes, que já foi vítima de um sequestro por criminosos que usaram seu carro para uma série de assaltos, elogia as melhorias. “Anteriormente, a gente aceitava a corrida sem sequer saber o destino que ia; ali favorecia muito para que os motoristas fossem assaltados”, lembrou.
Hoje, as ferramentas das plataformas, especialmente o uso de inteligência artificial e algoritmos, melhoraram consideravelmente. O motorista de aplicativo consegue ver o destino da corrida, a nota do passageiro, a quantidade de viagens realizadas por ele e o preço da corrida antes de aceitar. “Antigamente, a gente não tinha essas informações”, disse Romário, destacando como esses recursos aumentaram a segurança no dia a dia dos profissionais.
Apps como pilar da mobilidade, mas com desafios
Apesar das reclamações dos motoristas de aplicativo, o serviço se consolidou como a principal forma de locomoção para muitos fortalezenses. Dados mostram uma queda drástica no uso de ônibus na última década, passando de 1,15 milhão de passageiros por dia em 2015 para cerca de 520 mil atualmente, evidenciando a migração para os aplicativos.
O casal Fernanda Araújo e Vinicius Fioravante, por exemplo, utiliza exclusivamente os apps para seus deslocamentos diários. “Atualmente eu uso aplicativos de transporte para basicamente tudo que eu vou fazer na minha vida. Para trabalho eu uso aplicativo de transporte, academia, às vezes para o mercado. Para tudo que eu puder usar, eu estou usando”, disse a fiscal ambiental Fernanda.
Fernanda, que antes usava transporte público, optou pelos aplicativos há seis anos. Ela e Vinicius, um desenvolvedor web que trabalha em home office mas usa muito os apps, ponderam que, apesar do custo individual, a praticidade e o custo-benefício geral compensam no orçamento familiar. “Normalmente, o que tem o melhor custo benefício é usar o aplicativo de moto. Só que, por questão de segurança, a gente acaba optando pelo carro”, explicou Fernanda.
Vinicius, por sua vez, aponta para a necessidade de mais segurança nas corridas por aplicativo em Fortaleza. Ele sugere que o código de confirmação de viagem, atualmente opcional em algumas corridas, deveria ser obrigatório em todas. “Com o código de confirmação isso seria evitado”, destacou, reforçando a importância de medidas que protejam tanto passageiros quanto motoristas de aplicativo de possíveis enganos ou riscos, garantindo uma melhor experiência para todos.