Revolução na Mesa Chinesa: Como a Mudança de Consumo na China por Carne Sustentável Pode Proteger a Amazônia e Redefinir o Comércio Global

Importadores chineses desafiam o mercado global ao pagar mais por carne bovina do Brasil com selo de sustentabilidade, indicando um novo caminho para a preservação ambiental.

Uma iniciativa surpreendente, vinda do coração da China, promete redefinir a relação entre o comércio global de commodities e a conservação de um dos biomas mais vitais do planeta, a Amazônia. Liderada por importadores, a mudança de consumo na China pode ser um divisor de águas para a sustentabilidade.

A Associação da Indústria de Carnes de Tianjin, responsável por uma parcela significativa das importações chinesas de carne bovina brasileira, comprometeu-se a adquirir 50 mil toneladas de carne certificada e livre de desmatamento. Este movimento desafia a antiga crença de que a China prioriza apenas o preço.

Essa ação pode ser um sinal precoce de que a China, uma das maiores forças do comércio global, está disposta a investir mais em cadeias de suprimento sustentáveis. A informação foi divulgada pela Reuters, conforme apurado pelo g1.

O Compromisso de Tianjin e o Selo “Beef on Track”

Xing Yanling, líder da Associação da Indústria de Carnes de Tianjin, compartilhou sua experiência na Amazônia brasileira, descrevendo a sensação inesquecível de estar “envolvida por dezenas de milhares de tons de verde”. Sua visita não foi um turismo comum, mas sim o prelúdio de um importante compromisso.

A associação que Xing lidera representa cerca de 40% das compras chinesas de carne bovina do Brasil. Sob sua direção, os membros se comprometeram a importar 50 mil toneladas de carne bovina brasileira certificada e livre de desmatamento até o fim do ano, um volume que representa cerca de 4,5% do total esperado para este ano.

Essa iniciativa é um desafio direto à percepção de que a China, a maior importadora mundial de carne bovina e soja, se preocupa exclusivamente com o preço. A disposição em pagar mais por um produto sustentável pode marcar uma nova era no comércio internacional.

A Estratégia Chinesa e a Consciência Ambiental

A iniciativa de Tianjin acontece em um momento em que o governo chinês demonstra uma intenção crescente de atuar sobre o impacto ambiental de seu comércio, ao mesmo tempo em que busca proteger sua indústria nacional. Essa mudança de consumo na China está alinhada a uma política mais ampla.

Desde 2019, a China alterou sua lei florestal para proibir o comércio de madeira ilegal. Em 2023, assinou um compromisso conjunto com o Brasil para combater o desmatamento ilegal impulsionado pelo comércio. A COFCO, empresa estatal chinesa, também se comprometeu a eliminar o desmatamento de sua cadeia de suprimentos.

Andre Vasconcelos, chefe de engajamento global da Trase, plataforma que monitora cadeias de suprimento, afirma que a cadeia da carne bovina está mais preparada para ações concretas. Isso ocorre porque a carne não é tão essencial à dieta chinesa quanto commodities como a soja.

Vasconcelos complementa que há uma crescente consciência de que a carne bovina, especialmente a brasileira, é a mercadoria mais associada ao desmatamento entre os produtos agrícolas importados pela China. Dados do MapBiomas, organização brasileira, mostram que cerca de 90% da área desmatada na Amazônia é transformada em pasto para gado.

Xing Yanling observa que alguns consumidores chineses estão cientes desse impacto e se tornam mais exigentes à medida que suas rendas aumentam. “Não se trata apenas de ‘o barato sai caro’”, disse. “Isso significa que a carne bovina livre de desmatamento, sustentável, segura e rastreável terá um mercado mais forte no futuro.”

Detalhes da Certificação e Impacto Potencial

A carne bovina sustentável será comercializada com o selo “Beef on Track”, desenvolvido pela ONG brasileira Imaflora. Este selo prevê quatro níveis de conformidade, baseados no grau de rastreabilidade da carne e na comprovação de que as fazendas foram legalmente regularizadas.

Os importadores de Tianjin estão dispostos a pagar um preço até 10% maior pela carne bovina de frigoríficos que comprovem a ausência de ligação com o desmatamento, legal ou ilegal, e com o trabalho escravo. Essa disposição em pagar mais é um forte indicador da mudança de consumo na China.

Se essa iniciativa ganhar escala, o impacto poderá ser significativo para proteger a Amazônia. A China compra mais de 10% da carne bovina exportada pelo Brasil, segundo dados do governo e da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC).

Desafios e Oportunidades no Cenário Atual

Apesar do potencial, há desafios. O sistema de rastreabilidade brasileiro é frágil, com documentos de transporte de gado que podem ser fraudados para ocultar irregularidades, uma prática conhecida como “lavagem de gado”. Melhorias nesse sistema podem levar anos.

A ABIEC, que reúne exportadores de carne bovina, demonstrou insatisfação com a iniciativa liderada por Xing, segundo fontes próximas à associação. A preocupação é que a demanda por carne bovina sustentável se torne um obstáculo adicional em um mercado já restrito.

Em comunicado, a ABIEC afirmou que “apoia iniciativas focadas em certificação, mas avalia que novos selos devem estar alinhados aos sistemas já existentes, evitando sobreposições e exigências que careçam de infraestrutura pública para implementação, o que poderia criar barreiras à produção”.

Outro obstáculo é a imposição de cotas de importação de carne bovina pela China neste ano, visando proteger sua indústria nacional. O Brasil deve atingir o limite de 1,1 milhão de toneladas até o fim do próximo mês, o que pode atrasar os planos de Tianjin, pois importações após esse limite estarão sujeitas a um imposto chinês de 55%.

Contudo, a rastreabilidade também oferece valor agregado. Xing mostrou a autoridades brasileiras como a China adiciona códigos QR a ovos, permitindo rastrear o produto até a origem, e que consumidores pagam até o dobro por esses ovos. Essa é uma evidência clara da mudança de consumo na China.

A Imaflora argumenta que a certificação “Beef on Track” pode criar oportunidades, em vez de obstáculos, como ocorreu nos setores de madeira e café. Marina Guyot, gerente de políticas da Imaflora, ressalta que a certificação busca reconhecer e valorizar o que as empresas já fazem para cumprir seus compromissos de sustentabilidade e rastreabilidade, contribuindo para proteger a Amazônia.

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