Em entrevista à TV americana, Netanyahu detalha falhas na previsão da crise em Ormuz e debate apoio dos EUA a Israel, Irã e Hezbollah.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, concedeu sua primeira entrevista à televisão americana desde o início do conflito, que já se estende por 11 semanas. No programa “60 Minutes”, da CBS, o premiê fez declarações surpreendentes sobre a percepção inicial de Israel em relação à crise em Ormuz e o futuro da assistência financeira dos Estados Unidos ao seu país.
Netanyahu abordou temas cruciais como a escalada militar na região do Golfo, os planos para neutralizar o programa nuclear iraniano e a complexa dinâmica com grupos aliados de Teerã, como o Hezbollah. Suas falas lançam luz sobre os desafios e as estratégias em curso no Oriente Médio, oferecendo uma perspectiva interna sobre as decisões de Israel.
As revelações do líder israelense, conforme informações divulgadas pelo g1, também incluíram a proposta de uma redução gradual no apoio financeiro que os EUA destinam a Israel, um ponto que gerou grande repercussão e levantou questões sobre a autonomia e as prioridades do Estado judeu.
A Crise em Ormuz e a Compreensão Tardia do Risco
Durante a entrevista, Netanyahu admitiu que Israel não previu a dimensão da crise envolvendo o Estreito de Ormuz no começo da guerra contra o Irã. Ele explicou que o impacto estratégico da região foi compreendido à medida que os combates avançavam, indicando uma adaptação nas análises militares.
Questionado sobre uma reportagem do The New York Times que sugeria a crença de integrantes do governo israelense de que o Irã estaria enfraquecido demais para bloquear o Estreito, Netanyahu afirmou que “o problema de Ormuz foi compreendido durante a guerra”.
O premiê reconheceu as limitações das análises pré-conflito, declarando: “Não afirmo ter previsão perfeita, e ninguém tinha previsão perfeita. Nem os iranianos”. Ele destacou o grande risco para o Irã ao tentar bloquear a passagem, um risco que, segundo ele, foi entendido com o tempo.
O Estreito de Ormuz é uma rota marítima vital para o transporte global de petróleo e gás. A escalada militar na região gerou temores nos mercados internacionais sobre um possível bloqueio, o que pressionou os preços globais de energia e intensificou as tensões no Golfo.
Planos para o Programa Nuclear Iraniano e a Luta Contra Aliados
Netanyahu afirmou que a guerra “não acabou” e que Israel considera essenciais novas ações contra o programa nuclear iraniano, suas instalações de enriquecimento de urânio e grupos aliados de Teerã. Ele ressaltou que Israel e os Estados Unidos continuam avaliando como neutralizar essa ameaça.
“Ainda há material nuclear que precisa ser retirado do Irã. Ainda existem instalações de enriquecimento que precisam ser desmanteladas”, disse o premiê. Sobre como o urânio altamente enriquecido poderia ser removido, ele respondeu enfaticamente: “Você entra e tira”.
O líder israelense evitou detalhar se uma eventual operação envolveria forças especiais israelenses ou americanas. Contudo, ele mencionou que o então presidente dos EUA, Donald Trump, havia demonstrado disposição para agir, afirmando: “Trump me disse: ‘Eu quero entrar lá’. Acho que isso pode ser feito fisicamente”.
Netanyahu também indicou que o conflito pode se estender a outras frentes, mesmo com um possível acordo entre Washington e Teerã. Israel pretende continuar combatendo o Hezbollah no Líbano, resistindo às tentativas iranianas de vincular um cessar-fogo no Golfo ao fim das operações contra o grupo.
Ele expressou a crença de que um eventual enfraquecimento ou a queda do regime iraniano poderia levar ao colapso de toda a rede de aliados de Teerã na região, incluindo Hezbollah, Hamas e Houthis, o que representaria uma mudança significativa no equilíbrio de poder.
Apoio Financeiro Americano e a Imagem de Israel no Mundo
Um dos pontos mais notáveis da entrevista foi a defesa de Netanyahu por uma redução gradual da ajuda financeira dos Estados Unidos a Israel. Atualmente, Washington envia cerca de US$ 3,8 bilhões anuais em assistência militar ao país.
“Quero reduzir a zero o apoio financeiro americano”, declarou Netanyahu, propondo que esse processo ocorra ao longo da próxima década. A medida, se implementada, representaria uma profunda alteração na relação de dependência financeira entre os dois países.
A entrevista também abordou o desgaste da imagem internacional de Israel desde o início da guerra, especialmente após a ofensiva em Gaza. Netanyahu atribuiu essa deterioração principalmente ao impacto das redes sociais, argumentando que Israel “não foi bem” na “guerra de propaganda”.
Ele acusou países de manipularem plataformas digitais para prejudicar a imagem israelense. Uma pesquisa do Pew Research Center, mencionada na entrevista, aponta que 60% dos adultos americanos têm atualmente uma visão desfavorável de Israel, um aumento de quase 20 pontos percentuais em apenas quatro anos.
Apesar das intensas operações militares em Gaza, Netanyahu reconheceu que Israel ainda não alcançou um de seus principais objetivos estratégicos: o desarmamento do Hamas. A declaração sublinha a complexidade e os desafios persistentes do conflito na região.
Por fim, Netanyahu comentou a melhora nas relações entre Israel e países árabes, com alguns governos demonstrando maior interesse em aprofundar alianças estratégicas após o conflito. As conversas, segundo ele, envolvem áreas como energia, inteligência artificial e tecnologia, abrindo novas perspectivas de cooperação regional.
O premiê também acusou a China de fornecer componentes usados na fabricação de mísseis iranianos, embora não tenha apresentado provas detalhadas ou especificado quais equipamentos teriam sido enviados, levantando questões sobre o papel de outros atores globais no cenário de tensões.