Relatório interno da estatal expõe que o Banco Master não cumpria exigências e recebeu o investimento milionário após mudanças estratégicas na política de aplicações financeiras da companhia.
Uma auditoria interna da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) revelou que a estatal alterou suas próprias regras para permitir um aporte de R$ 200 milhões no Banco Master, instituição que era considerada inelegível pelos critérios vigentes na época. A investigação aponta para uma série de irregularidades e um processo conduzido de forma sigilosa.
Os achados da auditoria indicam que as negociações com o Banco Master começaram antes do que foi oficialmente informado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e que a diretoria financeira ignorou alertas internos sobre a situação do banco, culminando em um prejuízo significativo para a Cedae.
As conclusões desse relatório, obtido pela Globonews e conforme informações divulgadas pelo g1, foram encaminhadas aos órgãos de controle do Estado e ao Ministério Público, evidenciando a gravidade das descobertas.
As Regras Alteradas e a Inelegibilidade do Banco Master
A auditoria da Cedae reconstruiu a cronologia dos fatos e concluiu que o Banco Master não atendia aos critérios da política de investimentos da companhia. Em março de 2023, a Cedae havia aprovado sua Política de Aplicações Financeiras, que exigia uma classificação mínima de risco de ‘A-‘ e avaliações de, no mínimo, duas agências independentes.
No entanto, em julho de 2023, o Banco Master apresentou uma classificação de risco ‘BBB-‘ emitida por apenas uma agência, a Fitch, em novembro de 2021. Segundo os auditores, este perfil tornava o banco imediatamente inelegível. O relatório afirma que “o procedimento padrão de governança exigiria a desqualificação imediata da instituição”.
Em vez de interromper o processo, a diretoria financeira da Cedae iniciou alterações na política de investimentos. Em setembro do mesmo ano, uma nova versão da norma foi aprovada, reduzindo as exigências de agências de rating e criando uma nova faixa de risco que abrangia exatamente o perfil ‘BBB-‘, que era o do Banco Master.
Os auditores destacam que “apenas dois meses antes, os mesmos documentos atestavam a inelegibilidade do Banco Master frente à política vigente”, ressaltando a conveniência das mudanças para o aporte em questão.
Negociações Secretas e Reuniões Anteriores à Informação Oficial
Outro ponto crítico da auditoria da Cedae é a identificação de que as negociações com o Banco Master começaram mais cedo do que o oficialmente declarado. Registros do sistema de catracas da sede da Cedae revelam uma reunião em 17 de maio de 2023 entre representantes do Banco Master e a Diretoria Financeira e de Relação com Investidores (DFI), tendo o então diretor financeiro Antonio Carlos dos Santos como anfitrião.
Essa data é mais de um mês anterior à que a administração da Cedae havia informado à CVM como sendo o primeiro contato formal, 27 de junho de 2023. Para os auditores, esses registros contradizem a versão oficial, indicando que as tratativas já estavam em andamento.
A investigação também apontou uma viagem do diretor financeiro e assessores a São Paulo em junho de 2023 para uma reunião com um sócio e co-CEO do Banco Master, com o objetivo de discutir produtos financeiros e oportunidades de investimento. A auditoria concluiu que as negociações foram “concentradas na Diretoria Financeira e em um grupo restrito de assessores”, sem o compartilhamento adequado de informações com outros setores da companhia.
Ignorando Alertas e o Calote do Banco Master
A auditoria da Cedae também examinou a condução do investimento após a aplicação dos recursos. A partir de 2025, diferentes áreas da companhia começaram a emitir alertas sobre a deterioração da situação financeira do Banco Master, recomendando medidas para reduzir a exposição da estatal.
O relatório indica que a diretoria financeira demorou a reagir ao agravamento do cenário. Quando a Cedae decidiu buscar a recuperação integral dos recursos, em setembro de 2025, o banco já enfrentava sérios problemas de liquidez e começou a propor pagamentos parcelados.
Em novembro de 2025, uma das parcelas previstas para a devolução dos recursos não foi paga. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, materializando a perda financeira para a Cedae, que acumulou um prejuízo superior a R$ 222 milhões, conforme noticiado pelo blog de Octavio Guedes.
O Jantar em Nova York e as Implicações Temporais
A primeira reunião identificada pela auditoria da Cedae, em 17 de maio de 2023, ocorreu apenas seis dias após um jantar em Nova York entre o governador Cláudio Castro e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Este episódio foi revelado em uma investigação da Polícia Federal, que encontrou conversas de Vorcaro com o então governador.
A Polícia Federal constatou que Vorcaro custeou um jantar para Castro e sua comitiva em um restaurante famoso por carnes folheadas a ouro. Embora a auditoria da Cedae “não estabeleça qualquer relação entre o jantar e as negociações que resultaram no investimento da estatal no Banco Master”, a proximidade das datas levanta questões sobre o contexto em que as operações financeiras foram iniciadas.
O Que Dizem os Envolvidos
Antonio Carlos dos Santos, ex-diretor financeiro da Cedae, por meio de nota, “repudia de forma veemente todas as falsas alegações de omissão de dados e demais informações ao Conselho de Administração na CEDAE”. Ele destaca que o atual presidente, Rafael Rolim, e seu chefe de gabinete, Jorge Luiz Ferreira Briard, integravam o colegiado e aprovaram formalmente os parâmetros das novas políticas de investimentos.
Santos ainda afirma que todos os conselheiros, diretores e auditores recebiam relatórios mensais de todas as aplicações financeiras, e que a Cedae foi a única empresa a realizar resgates, interrompidos apenas pela liquidação do Banco Master. Ele manifesta tranquilidade em relação aos seus atos e confia que a verdade prevalecerá.
A Cedae, por sua vez, informou em nota que o relatório de auditoria, determinado pelo presidente Rafael Rolim e endossado pela Diretoria Executiva, “comprova que toda a negociação e execução dos investimentos foi conduzida pela Diretoria Financeira da Cedae, sem o compartilhamento das informações com as demais diretorias e órgãos da empresa”. A companhia recomendou o compartilhamento do documento com o Governo do Estado e órgãos de controle, como TCE, MPRJ e CVM.