Alerta na Mata Atlântica: População de Onças-Pintadas no Contínuo de Paranapiacaba Despenca 50% por Perda de Habitat e Rodovias

Uma notícia preocupante abala os esforços de conservação da fauna brasileira. A população de onças-pintadas, o maior predador da América do Sul, no Contínuo de Paranapiacaba, registrou uma queda drástica de 50% em pouco mais de uma década.

Este declínio alarmante, revelado por estudos recentes, acende um sinal vermelho para a sobrevivência da espécie. A perda de habitat de qualidade e a expansão das rodovias, como a SP-250, são apontadas como as principais causas desta redução.

A situação é crítica para esses felinos majestosos que dependem de vastas áreas de floresta contínua para sobreviver, conforme informações divulgadas pelo g1.

Queda alarmante: população de onças-pintadas diminui pela metade no Contínuo de Paranapiacaba

A primeira estimativa populacional de onças-pintadas na região do Contínuo de Paranapiacaba, realizada entre 2009 e 2011, trouxe números que foram atualizados recentemente. Os dados mais recentes, coletados de 2020 a 2023, revelam uma diminuição de pelo menos 50% na população.

Beatriz de Mello Beisiegel, bióloga e analista ambiental que coordena o projeto "as onças pintadas do Contínuo de Paranapiacaba", explica que a principal razão para essa queda é a diminuição e a perda de qualidade do habitat. As rodovias, como a SP-250, desempenham um papel crucial neste cenário.

O Contínuo de Paranapiacaba é uma das maiores áreas contínuas de Mata Atlântica remanescente, abrangendo cerca de 4 mil quilômetros quadrados. Inclui parques estaduais como Intervales (PEI), Turístico do Alto Ribeira (Petar), Nascentes do Paranapanema (Penap), Carlos Botelho (PECB), a Estação Ecológica de Xitué (EEX), além de Áreas de Proteção Ambiental e grandes florestas particulares.

Rodovias e perda de habitat: desafios para a sobrevivência dos felinos

As onças-pintadas dependem de extensos corredores florestais para se deslocarem com segurança e manterem seus hábitos essenciais. Diferentemente de outras espécies, elas evitam florestas fragmentadas, utilizando apenas o contínuo florestal que se estende de Tapiraí a Miracatu, chegando até o norte do Paraná, conforme detalhado por Beatriz Beisiegel.

Em maio, um casal de onças-pintadas foi flagrado atravessando a Rodovia Sebastião Ferraz de Camargo Penteado (SP-250), entre Guapiara e Apiaí, em São Paulo. Este trecho é considerado crítico para a fauna devido ao intenso fluxo de veículos e à ausência de passagens seguras para os animais.

A bióloga alerta que a proximidade da rodovia é perigosa. Fêmeas com filhotes recém-nascidos, por exemplo, como a onça Estrela, que possivelmente teve um filhote no fim de 2024, são registradas em áreas arriscadamente próximas à SP-250, aumentando o risco de acidentes.

Monitoramento e a importância de cada indivíduo para a espécie

O monitoramento das onças-pintadas é feito por meio de armadilhas fotográficas e pela identificação de suas rosetas, as manchas únicas na pelagem de cada animal. Dar nomes aos felinos, como Escuro e Estrela, é uma estratégia para aproximar a população e incentivar a proteção.

No entanto, Beatriz Beisiegel explica que a identificação precisa requer a visualização das rosetas, o que nem sempre é possível em vídeos feitos à distância. Características como a área de circulação e comportamentos específicos também auxiliam, mas a confirmação é feita pelas manchas.

Apesar do risco de atropelamentos, a caça ainda representa a principal ameaça às onças-pintadas na região. A perda de um único indivíduo, especialmente uma fêmea em idade reprodutiva, causa um impacto significativo em uma população já pequena e vulnerável, alterando profundamente sua dinâmica.

A pesquisadora cita o caso da onça Soneca, monitorada com um colar de rastreamento, que foi morta em 2014. "Ela tinha cerca de seis anos quando foi monitorada e ainda poderia se reproduzir por muitos anos. Uma única fêmea pode gerar várias ninhadas ao longo da vida. Ao perdermos uma onça dessas, deixamos de ter futuros filhotes que ajudariam a manter a população", afirma.

As onças-pintadas do Contínuo de Paranapiacaba formam um sistema interligado, com indivíduos percorrendo grandes distâncias entre parques e reservas. "Não estamos falando de populações isoladas e numerosas, mas de um grupo pequeno, conectado e extremamente vulnerável. Por isso, a morte de cada onça faz uma diferença enorme para a sobrevivência da espécie", conclui a bióloga.

É importante ressaltar que, embora seja o principal predador terrestre das Américas, ataques de onças-pintadas a seres humanos são extremamente raros no Contínuo de Paranapiacaba. Geralmente, esses animais mantêm uma distância de fuga e só atacam se não houver rota de escape, ou se estiverem defendendo alimento, filhotes ou disputando território.

Onça-pintada vs. Onça-parda: por que a ‘pintada’ é mais vulnerável?

As diferenças entre a onça-parda e a onça-pintada vão além da aparência, impactando diretamente suas necessidades de habitat. A onça-parda, menor e pesando entre 30 e 50 quilos, tem uma das maiores distribuições geográficas entre os mamíferos terrestres das Américas e maior capacidade de adaptação a diferentes ambientes.

Já as onças-pintadas, por outro lado, são maiores, mais fortes e consideradas predadores de topo. Sua distribuição atual é mais restrita, e elas dependem de grandes áreas contínuas de floresta para sobreviver, tornando-as mais vulneráveis à fragmentação do habitat.

A relação entre as duas espécies também influencia o uso do território. Em regiões com abundância de onças-pintadas, as onças-pardas tendem a evitar áreas mais utilizadas pela espécie maior, ocupando ambientes mais elevados, como topos de morro, e caçando presas menores para reduzir a competição por alimento e espaço.

Esse cenário de coexistência saudável, no entanto, ocorre principalmente onde as populações de onças-pintadas são consideradas estáveis. Em áreas onde a espécie está reduzida, como em partes da Mata Atlântica, a dinâmica entre os felinos pode ser alterada, evidenciando ainda mais a fragilidade da população remanescente.

Tags

Compartilhe esse post