Jovens da Escola Jarbas Passarinho em Belém mergulham na tradição secular dos abridores de letras, aprendendo a pintar o alfabeto que identifica barcos na Amazônia e transformando a escola em galeria viva.
Em Belém, um projeto inovador está levando estudantes da rede pública a descobrir um novo universo de letras e cores. Alunos da Escola Municipal Jarbas Passarinho, no bairro do Marco, estão imersos em uma oficina que vai muito além da sala de aula tradicional.
Eles não usam papel e caneta, mas sim tintas e pincéis, aprendendo a arte da Letra Decorativa Amazônica. Essa escrita pintada à mão, que há mais de um século embeleza as embarcações ribeirinhas, é agora transmitida por mestres experientes aos jovens.
A iniciativa, promovida pelo Instituto Letras que Flutuam com patrocínio da Riachuelo via Lei Semear, culminará na pintura de um grande mural na escola, celebrando a rica cultura visual do Norte do país, conforme informações divulgadas pelo próprio Instituto.
A Tradição Ribeirinha no Coração da Cidade
A Letra Decorativa Amazônica é um verdadeiro patrimônio visual da região. Ela surgiu por volta da década de 1930 e se consolidou nos anos 1960, quando a identificação dos barcos se tornou obrigatória, marcando a identidade de milhares de embarcações que cruzam os rios.
Em 2025, o ofício dos abridores de letras completará 100 anos, demonstrando sua longevidade e importância cultural. Levar essa tradição para a escola é uma forma de criar um diálogo entre a Amazônia das águas e a Amazônia da cidade.
A oficina artístico-educativa que os alunos do ensino fundamental participam culminará, no dia 18 de dezembro, com o início da pintura de um mural na escola. Este projeto visa transportar essa visualidade ribeirinha para o espaço urbano de Belém.
O Aprendizado Direto com os Mestres Abridores de Letras
O aprendizado é prático e imersivo. Os estudantes acompanham todo o processo de criação de um mural, desde a medição do espaço até a formação de grupos para criar propostas de layout. Eles elaboram lettering e paisagens ribeirinhas.
Entre os mestres que conduzem essa jornada está Odir Lima Abreu, uma lenda viva dos abridores de letras da Amazônia. Com 68 anos e uma trajetória consolidada em Soure, no arquipélago do Marajó, Mestre Odir é uma referência no ofício.
Ele ensina aos jovens a técnica e a filosofia por trás dessa arte. Mestre Odir, que hoje trabalha ao lado do filho Alessandro Abreu, reforça a importância da prática: “A gente aprende olhando e fazendo. Foi assim comigo e é assim que ensino hoje”, afirma.
Valorização Cultural e o Futuro da Letra Amazônica
Para Fernanda Martins, pesquisadora e presidente do Instituto Letras que Flutuam, a presença da tradição nas escolas é vital para seu reconhecimento e continuidade. Ela destaca a profundidade cultural dessa arte.
“A letra ribeirinha é tão estruturante para a Amazônia quanto a música, a dança ou a comida. Ela expressa território, memória e identidade. Quando os estudantes aprendem esse alfabeto, eles aprendem também a olhar para a Amazônia a partir de seus próprios códigos visuais”, explica Martins.
O Instituto Letras que Flutuam, resultado de mais de 20 anos de pesquisa e documentação, é o primeiro do Brasil focado exclusivamente na cultura ribeirinha e nos abridores de letras. Desde 2004, o instituto já mapeou mais de 100 mestres em diversos municípios paraenses.
Um Mural que Conta Histórias: Serviço e Impacto
A pintura do mural não é apenas um exercício artístico, mas um gesto significativo de valorização dos abridores de letras e da identidade criativa do Norte. Ele afirma que a Amazônia se escreve também em cor, traço e memória, agora visíveis na cidade.
A oficina com os mestres abridores de letras na EEEFM Jarbas Passarinho, localizada na Av. Rômulo Maiorana, 2309, bairro do Marco, em Belém, culminará na pintura do mural no dia 18 de dezembro, das 7h às 12h.
Este projeto transforma o aprendizado em paisagem urbana, conectando a tradição secular com as novas gerações. É um convite para que todos olhem para a Amazônia a partir de seus códigos visuais únicos, celebrando a riqueza cultural da região.