Da colheita à mesa: Desvende os segredos por trás da uva-passa que divide opiniões e os desafios de sua produção no Brasil.
A uva-passa é uma presença quase obrigatória em muitos pratos natalinos, mas sua inclusão sempre gera debate. Enquanto alguns a amam no arroz, farofa ou salpicão, outros preferem vê-la bem longe de suas ceias, tornando-a a fruta mais polêmica da temporada.
Apesar de sua popularidade, a maior parte da uva-passa que chega às mesas brasileiras não é produzida aqui. O Brasil depende quase que integralmente da importação, com a Argentina sendo a principal fornecedora.
Mas, afinal, como essa fruta desidratada é feita e quais são os motivos para a baixa produção nacional? Entenda os detalhes desse processo e os desafios enfrentados, conforme informações divulgadas pelo G1.
Por que a uva-passa brasileira é rara?
A produção nacional de uva-passa é bastante limitada, o que explica a grande dependência da importação. Os principais fatores que dificultam o cultivo e a desidratação das uvas no país são o clima e os altos custos envolvidos no processo.
Segundo Reginaldo Teodoro de Souza, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), “Temos apenas pequenas produções feitas por poucas pessoas”. O clima ideal para a secagem da uva é o desértico, caracterizado por calor intenso e umidade muito baixa.
Embora o Nordeste brasileiro possua um clima seco, ele ainda apresenta mais umidade do que o ambiente desértico, o que não favorece a secagem natural. Além disso, a alternativa de secagem em fornos demanda custos elevados com energia elétrica, tornando a produção em larga escala pouco competitiva no Brasil.
Argentina: A principal fornecedora do Brasil
Os dados do Ministério da Agricultura revelam a dimensão da importação brasileira de uva-passa. De janeiro a novembro de 2024, o Brasil comprou mais de 20,7 mil toneladas da fruta, totalizando um valor de US$ 48 milhões. O órgão não dispõe de dados sobre a produção interna.
Desse montante importado, mais de 73% veio da Argentina. A proximidade geográfica e as isenções de tarifas estabelecidas pelo Mercosul, bloco do qual ambos os países fazem parte, justificam essa preferência, de acordo com a Embrapa.
A Argentina ocupa a 10ª posição entre os maiores produtores mundiais de uva-passa, sendo superada por países como Turquia, Estados Unidos, Irã, Grécia, Chile, África do Sul, Uzbequistão, Afeganistão e Austrália.
O segredo da qualidade: Colheita e valor nutricional
Para que a uva-passa chegue com a melhor qualidade à mesa do consumidor, um dos segredos está no ponto ideal de colheita. “Você precisar colher a uva madura, como se você fosse consumi-la para a mesa. Isso garante a qualidade, a doçura, o sabor. Se você colher antes, por exemplo, ela fica ácida”, explica Souza, da Embrapa.
Ele esclarece que a uva-passa mantém as mesmas propriedades e benefícios nutricionais da uva fresca. “A única diferença é que ela é desidratada, perde água”, afirma. Após o processo de secagem, a fruta fica com apenas 33% do seu peso inicial.
Métodos de secagem: Sol x Fornos e os desafios brasileiros
Existem basicamente duas formas de secar as uvas para transformá-las em passas. Uma delas é a secagem natural, expondo as uvas ao sol, de maneira semelhante à secagem do café em terreiro. A outra opção é a secagem em fornos específicos.
O Brasil, segundo Souza, da Embrapa, apresenta desvantagens para produzir em larga escala por ambos os métodos, quando comparado aos principais países produtores. Para a secagem natural, a condição climática ideal é a desértica, com alta temperatura e baixa umidade, que garante uma desidratação rápida e eficiente. Esse é o clima que faz da Turquia um dos maiores produtores globais.
No Brasil, mesmo o clima seco do Nordeste não é tão desértico, apresentando maior umidade. Na secagem ao sol, as uvas são dispostas em esteiras ou plataformas e precisam ser viradas periodicamente para que sequem por completo.
Já a secagem em fornos, embora seja uma alternativa, esbarra no alto custo da energia elétrica no Brasil, tornando-a praticamente inviável economicamente. Souza ressalta que “o que acontece é que a uva-passa importada chega bem mais barata aqui. Se a gente for colocar o custo com a secagem no preço, ela fica muito mais cara do que comprar de fora”.
Uma das vantagens da secagem em forno é que as uvas não escurecem tanto quanto as expostas ao sol. Antes de entrar nos equipamentos, as uvas são lavadas e recebem um produto para remover a oleosidade da casca, acelerando a desidratação. Em algumas fábricas, é aplicada uma substância chamada anidrido sulfuroso para fixar a cor, que evapora durante o aquecimento.
O processo de secagem em forno pode levar cerca de 90 dias. Após a desidratação, tanto as uvas secas ao sol quanto as de forno são lavadas, centrifugadas e selecionadas antes de serem embaladas para o consumo.