A rotina secreta dos Pelznickels de Guabiruba, SC: como é ser o Papai Noel com chifres que usa roupa de 14 kg e assusta para levar alegria

Em Guabiruba, Santa Catarina, uma tradição natalina singular e misteriosa ganha vida com os Pelznickels, figuras que misturam o assustador e o acolhedor. Conhecidos como o “Papai Noel do mato”, esses personagens, cobertos por folhas e trapos, carregam máscaras imponentes e chifres, perpetuando costumes trazidos por imigrantes germânicos.

A rotina desses guardiões do Natal é intensa, exigindo dedicação de jovens como Clamir Guilherme Böll, de 23 anos. Ele troca a mecânica pela identidade do Pelznickel em dezembro, vivenciando uma experiência que cativa e, por vezes, amedronta, mas sempre com o objetivo de espalhar a alegria natalina.

A força dessa tradição, que envolve fantasias pesadas e um compromisso comunitário profundo, é um dos destaques revelados na reportagem do g1.

A imersão desde a infância na tradição dos Pelznickels

Clamir Guilherme Böll, morador de Guabiruba, tem uma ligação profunda com a figura do Pelznickel desde muito cedo. Sua jornada começou aos 7 anos, quando, de forma lúdica, criou sua primeira “roupinha” improvisada para assustar as crianças, usando uma máscara do Batman e folhas.

Apesar da curiosidade, o medo da imagem assustadora do personagem era presente. “Desde muito novo ele sempre esteve presente na minha vida. Com uns sete anos, eu fiz minha primeira ‘roupinha’: usei uma máscara do Batman, a roupa preta, algumas folhas e até o cinto da minha mãe para sair assustando as crianças. O primeiro ano foi bem difícil, porque eu ainda tinha muito medo”, conta Clamir.

Em 2015, aos 13 anos, ele foi oficialmente convidado por um primo para integrar a Sociedade do Pelznickel. Essa entrada marcou o início de uma nova fase, onde o receio inicial deu lugar à paixão por manter viva a cultura local. A tradição tem o poder de unir as pessoas, transformando a casa de Clamir em ponto de encontro para a família nesta época do ano.

O peso da tradição: uma fantasia de 14 kg e dedicação

A confecção das roupas dos Pelznickels é um processo que também reflete a evolução da tradição. Antigamente, os personagens utilizavam materiais improvisados, como galhos de árvores e latas de tinta, para criar seus visuais intimidadores.

Hoje, a fantasia de Clamir é feita com barba-de-velho, uma planta típica da região, exigindo cerca de oito sacos dela. O resultado é uma vestimenta que chega a pesar até 14 quilos, um desafio físico para quem a veste por horas.

O esforço, no entanto, é recompensador. Clamir relata que, apesar do cansaço e da rigidez no pescoço, a experiência de ser um Pelznickel é enriquecedora. “Na sociedade conheci pessoas que hoje são meus melhores amigos e começamos a fazer as roupas juntos”, afirma ele, destacando o senso de comunidade e amizade que a tradição fortalece.

O Pelznickel que acolhe e emociona

Embora o visual dos Pelznickels seja conhecido por assustar, Clamir garante que o objetivo principal é levar alegria e carinho. Seu método de comunicação é peculiar: ele prefere se esconder na mata, observando, para então se aproximar de quem mais precisa.

Clamir explica que, ao perceber pessoas com dificuldades, deficiência ou idosos, ele faz questão de se aproximar para oferecer uma mensagem de afeto. “Quero levar o Natal para quem não está tendo um Natal tão bom. Não tem sensação melhor do que ver o brilho nos olhos das pessoas”, revela, mostrando a faceta acolhedora por trás da máscara.

Essa abordagem demonstra uma evolução no papel do Pelznickel, que, embora mantenha a aura misteriosa, prioriza a conexão humana e a disseminação do espírito natalino, provando que o “Papai Noel do mato” pode ser tanto temido quanto amado em Guabiruba.

Origens e evolução do Papai Noel do mato

O Pelznickel surgiu na cultura germânica como um companheiro, ou contraponto, de São Nicolau. Enquanto o santo era responsável por recompensar as crianças bem-comportadas, o Pelznickel visitava aquelas que não se comportaram, com o intuito de assustar e induzir à reflexão sobre suas atitudes.

O nome tem origem no alemão, onde “Pelz” significa “pelagem” ou “pelo”, e “Nickel” é um diminutivo de Nicolau. Outra interpretação sugere que “Pelzen” significa “bater”, indicando o “Nicolau que bate”, um aspecto mais disciplinador da figura.

Hoje, os Pelznickels percorrem as ruas de Guabiruba arrastando correntes e carregando sinos, mas esses elementos são apenas simbólicos. “Antigamente eram usados para assustar de verdade. Hoje, permanecem como símbolo do caráter disciplinador, sem qualquer intenção de castigo”, explica Jocimar Fischer, vice-presidente da Sociedade do Pelznickel.

É importante destacar que não há hierarquia entre os Pelznickels, e os termos “Pelznickel” e “Papai Noel do mato” são sinônimos. Além disso, os chifres, que hoje são uma característica marcante, nem sempre estiveram presentes, com registros da década de 1950 mostrando a figura sem eles, evidenciando a adaptação e a riqueza histórica dessa fascinante tradição.

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