As afirmações de Donald Trump sobre cristãos perseguidos na Nigéria geram debate. Mas, qual a real extensão da violência e a precisão dos dados usados por políticos?
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem afirmado que milhares de cristãos estão sendo mortos na Nigéria, acusando grupos como o Estado Islâmico de ataques brutais direcionados a essa comunidade.
Essas declarações, que vêm ganhando força no cenário político americano, com outros ativistas e senadores ecoando a preocupação, levantam um questionamento crucial: a que ponto esses números são precisos?
Uma investigação da BBC, divulgada pelo G1, buscou verificar a origem e a confiabilidade dos dados que sustentam essas alarmantes conclusões, revelando um cenário muito mais matizado e complexo do que o inicialmente apresentado.
As Alegações de Perseguição e os Números Alarmantes
Donald Trump não é o único a levantar o alerta sobre a situação dos cristãos na Nigéria. O apresentador Bill Maher, por exemplo, chegou a descrever a situação como um "genocídio", atribuindo ao grupo Boko Haram a morte de "mais de 100 mil pessoas desde 2009" e a queima de "18 mil igrejas".
Números semelhantes foram citados pelo influente senador do Texas, Ted Cruz, que afirmou em outubro que "desde 2009, mais de 50 mil cristãos na Nigéria foram massacrados, e mais de 18 mil igrejas e 2 mil escolas cristãs foram destruídas".
Embora Cruz tenha esclarecido que se referia a "perseguição" e não a "genocídio", ele acusou as autoridades nigerianas de "ignorar e até facilitar o assassinato em massa de cristãos por jihadistas islâmicos".
Trump, ao ecoar essas declarações, chegou a descrever a Nigéria como um "país desonrado", criticando o governo por "permitir a morte de cristãos". Contudo, o governo nigeriano negou veementemente essas acusações, descrevendo-as como uma "deturpação grosseira da realidade" e afirmando que terroristas atacam "muçulmanos, cristãos e pessoas sem religião".
De Onde Vêm os Dados Controvertidos?
A fonte principal por trás de muitos desses números alarmantes, citada por políticos como Ted Cruz, é a International Society for Civil Liberties and Rule of Law (InterSociety), uma organização não governamental nigeriana.
A InterSociety afirmou em um relatório de agosto, que reúne pesquisas anteriores e dados atualizados para 2025, que grupos jihadistas mataram mais de 100 mil cristãos em 16 anos desde 2009. O mesmo documento mencionou a morte de 60 mil "muçulmanos moderados" no mesmo período.
No entanto, a BBC constatou que a metodologia da InterSociety é pouco transparente. A organização não compartilha uma lista detalhada de fontes, o que dificulta a verificação dos números. Em resposta às críticas, a InterSociety alegou ser "quase impossível reproduzir todos os nossos relatórios e suas referências desde 2010", afirmando que seleciona "estatísticas resumidas" e as soma a "achados mais recentes".
Para o ano de 2025, a InterSociety concluiu que mais de 7 mil cristãos foram mortos entre janeiro e agosto, um número amplamente difundido nas redes sociais. No entanto, a BBC, ao analisar as 70 reportagens da imprensa citadas pela organização, verificou que cerca da metade delas não mencionava a identidade religiosa das vítimas.
Em um exemplo, a InterSociety citou uma reportagem da Al Jazeera sobre um sequestro, afirmando que as vítimas eram "principalmente cristãs", o que a matéria original não mencionava. A organização explicou que faz análises adicionais e utiliza "relatos da mídia cristã" para identificar o perfil das vítimas, além de estimar mortes em cativeiro e usar depoimentos de testemunhas não públicos. A soma das mortes citadas nos relatos verificáveis pela BBC resultou em cerca de 3 mil, não 7 mil, e alguns ataques pareciam ter sido contabilizados mais de uma vez.
A Complexidade dos Conflitos e Outras Perspectivas
A violência na Nigéria é multifacetada. Além de grupos jihadistas como o Boko Haram e a Província do Estado Islâmico da África Ocidental, os pastores fulani também são frequentemente citados como responsáveis por ataques.
A InterSociety os descreve como "jihadistas", mas essa classificação é controversa. Muitos pesquisadores, como o analista de segurança nigeriano Christian Ani, rejeitam a ideia de que esses confrontos sejam puramente religiosos, afirmando que estão mais ligados a disputas por terra e água, e a elementos criminosos.
Confidence McHarry, analista sênior de segurança da SBM Intelligence, reforça que os confrontos com pastores fulani, majoritariamente muçulmanos, muitas vezes têm componentes étnicos e de disputa por recursos, embora possam ser percebidos como religiosos se locais de culto forem atacados.
Outras organizações de pesquisa apresentam números significativamente diferentes. A Acled, que monitora a violência na África Ocidental com fontes rastreáveis, indica que pouco menos de 53 mil civis, incluindo muçulmanos e cristãos, foram mortos em violência política direcionada desde 2009. Entre 2020 e setembro de 2025, a Acled registrou cerca de 21 mil civis mortos em diversos tipos de violência.
A organização identificou 384 incidentes em que cristãos foram especificamente alvo nesse período, resultando em 317 mortes, uma pequena parcela do total geral. Frans Veerman, pesquisador sênior da Open Doors, organização que pesquisa a perseguição a cristãos, citou 3.100 cristãos mortos em 12 meses (outubro de 2023 a outubro de 2024), mas também 2.320 muçulmanos mortos no mesmo período, com militantes fulani atacando ambas as comunidades.
O Cenário Político e a Narrativa Amplificada
A preocupação com a perseguição a cristãos na Nigéria tem sido amplificada por grupos políticos nos Estados Unidos e por organizações cristãs internacionais. O Indigenous People of Biafra (Ipob), grupo separatista nigeriano proibido que busca um Estado independente, e o Governo da República de Biafra no Exílio (BRGIE) afirmaram ter promovido a narrativa de "genocídio cristão" no Congresso dos EUA, através de lobby e reuniões com autoridades como o senador Ted Cruz.
A InterSociety, por sua vez, foi acusada pelas Forças Armadas nigerianas de ter ligações com o Ipob, algo que a ONG nega. Enquanto o governo nigeriano luta para conter a violência de grupos jihadistas e redes criminosas, a complexidade da situação e a diversidade das vítimas, incluindo muitos muçulmanos, sugerem que a narrativa de uma perseguição exclusivamente cristã pode não capturar toda a realidade dos conflitos no país.