Em um cenário de crescente tensão no Oriente Médio, um novo ponto estratégico emerge como foco de preocupação para a economia global: o Estreito de Bab el-Mandeb. Localizado entre o Iêmen, Djibuti e Eritreia, no Mar Vermelho, este estreito, conhecido como o “portão das lágrimas”, agora está sob ameaça de bloqueio pelo Irã, através de seus aliados Houthis no Iêmen.
A possível interrupção desta rota marítima é particularmente alarmante, pois o Estreito de Bab el-Mandeb já se tornou uma alternativa crucial para o escoamento de petróleo e outras cargas, diante do fechamento do Estreito de Ormuz. Este desenvolvimento pode agravar significativamente a crise energética e o comércio mundial.
As ameaças vêm em meio a um contexto de conflito e pressões políticas, com os Estados Unidos emitindo um alerta sobre a possibilidade de ataques. As informações foram divulgadas pela BBC, com dados da agência semioficial iraniana Tasnim e da Reuters.
Por que o Estreito de Bab el-Mandeb é tão importante?
O Estreito de Bab el-Mandeb é um corredor marítimo de suma importância para o comércio internacional. Ele conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, por extensão, ao Oceano Índico, controlando o tráfego marítimo em direção ao vital Canal de Suez. Sua relevância aumentou exponencialmente desde a abertura do Canal de Suez em 1869, estabelecendo a rota marítima mais curta entre a Europa e a Ásia.
Esta passagem transporta aproximadamente 12% do petróleo comercializado por via marítima no mundo. Além disso, segundo a Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos, cerca de 4,5 milhões de barris de petróleo com origem no Oriente Médio e na Ásia, e com destino ao Ocidente, transitam diariamente por suas águas. Remessas globais de gás natural liquefeito (GNL) também dependem deste estreito, tornando-o uma artéria vital para o fornecimento global de energia.
Com o fechamento do Estreito de Ormuz, o Estreito de Bab el-Mandeb ganhou ainda mais destaque, sendo utilizado pela Arábia Saudita para o escoamento de petróleo proveniente do porto de Yanbu. Uma parte significativa das exportações russas de petróleo com destino à Ásia também passa por esta rota. Sua interrupção teria, portanto, efeitos imediatos e severos nos preços mundiais destes recursos.
Ameaças iranianas e a prontidão dos Houthis
A agência semioficial iraniana Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, informou na quinta-feira (26) que os Houthis, um grupo armado do Iêmen apoiado pelo Irã, estariam prontos para assumir o controle do Estreito de Bab el-Mandeb. Eles se consideram parte das “forças de resistência” na região.
Uma fonte militar iraniana declarou à agência: “Se houver necessidade de controlar o Estreito de Bab el-Mandeb para punir ainda mais o inimigo, os heróis do Ansar Allah do Iêmen estão totalmente preparados para desempenhar um papel fundamental”, acrescentando que os Houthis já provaram que fechar a rota “é uma tarefa fácil para eles”.
A agência Tasnim já havia publicado uma advertência anterior, citando uma fonte que dizia: “Se os americanos quiserem pensar em uma solução para o Estreito de Ormuz com medidas imprudentes, devem ter cuidado para não adicionar outro estreito aos seus problemas”, em referência à movimentação de tropas americanas na região. No sábado (28/03), os Houthis lançaram um ataque com mísseis contra Israel, confirmando a capacidade do grupo de agir militarmente.
Impacto econômico de um possível bloqueio
A situação no Estreito de Ormuz já causou um impacto financeiro considerável. A interrupção do transporte marítimo no Golfo fez os preços do petróleo Brent saltarem de cerca de US$ 70 (aproximadamente R$ 350) por barril antes do início da crise para mais de US$ 100 (aproximadamente R$ 500). O comércio global de uma ampla gama de produtos, de bens de consumo a matérias-primas agrícolas, também está sendo afetado.
Um eventual bloqueio do Estreito de Bab el-Mandeb agravaria drasticamente esta crise. A interrupção de mais uma rota marítima vital poderia elevar ainda mais os preços do petróleo e do gás, intensificando o impacto econômico do conflito com o Irã. Além disso, causaria atrasos e aumento de custos em cadeias de suprimentos globais, afetando indústrias e consumidores em todo o mundo.
Histórico de incidentes e a volta das ameaças
O Estreito de Bab el-Mandeb, que em árabe significa “o portão das lágrimas” ou “o portão da dor”, tem um histórico de perigos, desde correntes e ventos a pirataria e conflitos. Entre 2023 e 2025, o grupo houthi atacou navios comerciais no estreito em resposta à guerra de Israel contra o Hamas em Gaza, forçando muitas empresas a desviar rotas pelo sul da África.
Esses ataques cessaram após um cessar-fogo mediado pelos EUA entre Israel e o Hamas em outubro de 2025. No entanto, com a escalada atual das tensões entre EUA, Israel e Irã, o grupo volta a ameaçar fechar o estreito, desta vez em um contexto ainda mais preocupante. Os Estados Unidos já emitiram um alerta sobre a possibilidade de ataques, reforçando a seriedade da situação.