Um estudo recente conduzido no Reino Unido acende um sinal de alerta global, revelando um preocupante aumento de câncer em jovens adultos. A pesquisa, que acompanhou registros na Inglaterra por quase duas décadas, identificou uma alta na prevalência de diversos tipos de tumores em pessoas com idades entre 20 e 49 anos.
Os resultados sugerem que, embora fatores de risco conhecidos como tabagismo e consumo de álcool não mostrem piora, o aumento do Índice de Massa Corporal (IMC) desempenha um papel significativo nessa escalada. A descoberta levanta questões cruciais sobre as causas subjacentes e as implicações para a saúde pública em escala mundial.
No Brasil, a realidade observada em clínicas e consultórios ecoa as preocupações britânicas, com especialistas notando a chegada de pacientes cada vez mais jovens. A urgência em entender e responder a essa tendência global é amplificada pela necessidade de adaptar estratégias de prevenção e diagnóstico precoce, conforme informações divulgadas pelo g1.
Um Alerta Global: O Estudo Britânico e Suas Descobertas
Publicado em abril no renomado periódico científico BMJ Oncology, o estudo analisou a evolução de registros de câncer na Inglaterra entre os anos de 2001 e 2019. A pesquisa focou em 11 tipos de tumores com ligação conhecida a fatores comportamentais, notando um aumento de câncer em jovens adultos, com a incidência crescendo entre 1% e 3% ao ano em pessoas com menos de 50 anos.
Entre os tumores que apresentaram essa alta preocupante, destacam-se o câncer colorretal, de mama, endométrio, fígado, rim, pâncreas, oral, tireoide, mieloma múltiplo, vesícula e ovário. É importante notar que houve diferenças na prevalência entre os sexos, indicando complexidades na manifestação desses aumentos.
Os pesquisadores cruzaram esses dados com tendências de fatores de risco já conhecidos, como obesidade, tabagismo, consumo de álcool, dieta e sedentarismo. A principal conclusão foi que o aumento do IMC, ou seja, a obesidade, ajuda a explicar uma parcela relevante desse avanço nos casos de câncer.
Curiosamente, a maior parte dos fatores comportamentais analisados manteve-se estável ou até melhorou ao longo do tempo. O tabagismo diminuiu, o consumo geral de álcool não piorou, o sedentarismo recuou em vários grupos e o consumo de carne vermelha e processada diminuiu. A obesidade, por outro lado, foi o único fator com alta consistente.
Isso sugere que o aumento do câncer em adultos jovens não acompanha, de forma geral, uma piora simultânea dos principais hábitos de risco, com exceção da obesidade. Os autores do estudo concluíram que esses fatores, isoladamente, provavelmente não bastam para explicar completamente a tendência observada, indicando a presença de outras explicações ainda em aberto.
Uma observação marcante do estudo foi que, em quase todos esses tumores, o aumento também apareceu em adultos mais velhos, sugerindo que parte do fenômeno não é exclusivo das gerações mais novas. A exceção mais notável foi o câncer colorretal, que cresceu entre jovens, mas não seguiu a mesma lógica nos mais velhos.
O câncer de ovário também apresentou um padrão distinto, com queda entre mulheres mais velhas enquanto subia entre as mais jovens. Essas nuances demonstram a complexidade das tendências e a necessidade de investigações mais aprofundadas sobre cada tipo de tumor.
A Realidade Brasileira: Percepção Clínica e Desafios de Dados
Ainda que o estudo tenha se concentrado na população da Inglaterra, suas descobertas ressoam fortemente no Brasil. O médico Raphael Brandão, chefe da área de oncologia da Rede São Camilo de São Paulo, confirma que a prática clínica já vinha percebendo essa mudança no perfil dos pacientes.
“Temos visto pacientes cada vez mais jovens, mas por muito tempo isso foi tratado como exceção, casos isolados”, afirma Brandão, destacando que o artigo do BMJ Oncology valida essa percepção como uma tendência consistente. Isso traz uma implicação ainda a ser assimilada, o fato de que os protocolos de rastreamento foram desenhados com foco em populações mais velhas.
No Brasil, por exemplo, o rastreamento de câncer colorretal pelo SUS só se inicia aos 50 anos, uma idade que pode ser tardia para a nova onda de casos em adultos jovens. A oncologia, por isso, tem voltado sua atenção para a “população AYA”, sigla em inglês para Adolescents and Young Adults.
Carlos Gil Ferreira, CEO e diretor médico da Oncoclínicas, explica que este grupo, antes numa zona de sobreposição entre pediatria e oncologia de adultos, ganhou atenção específica na última década. “O estudo do BMJ Oncology trabalha com a faixa entre 20 e 49 anos, o que é bastante abrangente, mas relevante para fins epidemiológicos”, pontua.
Ferreira aponta que o mais importante do estudo é “colocar dados robustos sobre uma percepção que já existe na prática clínica, estamos vendo mais câncer em pessoas mais jovens, especialmente em alguns tipos específicos”. Ele ressalta que a base de dados utilizada, do National Health System (NHS) do Reino Unido, confere grande peso ao achado.
É fundamental, contudo, compreender que se trata de um estudo observacional. “Ele levanta hipóteses, não prova causalidade. Não afirma que obesidade e sobrepeso causam câncer, identifica uma associação. Isso não diminui seu impacto, pelo contrário, ele confirma que a oncologia precisa ampliar o olhar. O câncer não é mais uma doença restrita à terceira idade”, explica Ferreira.
No Brasil, a ausência de um sistema de registro de câncer tão capilarizado quanto o NHS inglês limita comparações diretas. Essa lacuna, aliás, é um problema de saúde pública que precisa ser enfrentado, pois sem dados nacionais robustos e sistematizados, fica difícil formular políticas específicas para tendências como o aumento de câncer em jovens.
Ainda assim, Ferreira descreve que o Instituto Nacional do Câncer (INCA) também vem sinalizando uma tendência de crescimento em pessoas abaixo de 50 anos no Brasil, inclusive para o tipo colorretal. Não há, porém, um recorte nacional consolidado por faixa etária e tipo de câncer.
O relatório “Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil”, publicado pelo instituto, indica que o país deve registrar cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2023–2025. Esse número alarmante deve chegar a aproximadamente 781 mil casos anuais entre 2026 e 2028.
O documento do INCA também chama atenção especial para os cânceres de cólon e reto, que aparecem entre os mais incidentes tanto em homens quanto em mulheres, reforçando a necessidade de ampliar ações de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce. Embora não traga um recorte específico para adultos abaixo de 50 anos, ele dedica uma seção exclusiva a crianças e adolescentes de 0 a 19 anos.
O INCA estima cerca de 7,5 mil novos casos de câncer infantojuvenil por ano no Brasil em 2026, com detalhamento por sexo, Estado e região. Isso é um sinal de que a vigilância epidemiológica por faixa etária vem ganhando mais espaço na oncologia brasileira, mas ainda é preciso avançar para a população jovem adulta.
Outro ponto destacado pelo INCA é que parte do aumento observado em alguns tumores pode estar relacionada à ampliação do diagnóstico precoce e do rastreamento. O relatório cita especificamente o câncer de mama em mulheres abaixo de 50 anos, apontando que o maior uso de ultrassonografia e mamografia pode contribuir para identificar casos que antes passavam despercebidos.
A conclusão de Carlos Gil Ferreira é que, embora não seja possível extrapolar diretamente os dados ingleses para a realidade brasileira, “os sinais que temos apontam na mesma direção. É uma convergência que merece atenção e, sobretudo, mais investimento em registros nacionais que nos permitam dimensionar o problema com precisão”.
Obesidade e Ultraprocessados: Fatores Chave em Comum
A obesidade aparece como o principal fator comportamental capaz de ajudar a explicar parte do aumento de câncer em jovens adultos, e isso também conversa com a realidade brasileira. No país, o avanço do excesso de peso entre jovens se soma a uma mudança profunda na alimentação, marcada pelo crescimento do consumo de ultraprocessados e pelo sedentarismo.
No Brasil, cerca de 60% da população vive com sobrepeso, segundo dados do Vigitel, sistema de vigilância por inquérito telefônico do Ministério da Saúde, divulgados em janeiro de 2026 com base no IMC. Na Inglaterra, onde o estudo foi conduzido, o dado mais recente da Health Survey for England (HSE) aponta uma prevalência de 66% em 2024.
“O Brasil vive uma epidemia silenciosa de obesidade, especialmente entre adultos jovens. É muito difícil dissociar obesidade de alimentação baseada em ultraprocessados e de sedentarismo, fatores que geralmente caminham juntos e se potencializam mutuamente”, afirma o oncologista Carlos Gil Ferreira.
Ele lembra que há uma base biológica para essa relação. “Pacientes com obesidade e sobrepeso apresentam níveis elevados de insulina em circulação. A insulina é um potente hormônio indutor de crescimento e está relacionada, em alguns estudos, à inflamação crônica. A inflamação crônica, por sua vez, é um mecanismo já associado ao desenvolvimento de pelo menos 13 tipos de câncer”, detalha Ferreira.
Ferreira acrescenta que o problema é agravado pelo contexto recente. “Quando somamos obesidade crescente, alimentação de baixa qualidade e sedentarismo que se aprofundou no período pós-pandemia, temos um cenário preocupante. Isso ressoa diretamente com o que observamos na prática clínica, tanto no setor público quanto no privado”, alerta o especialista.
Para o médico Raphael Brandão, a obesidade funciona como um indicador de um problema mais amplo. No Brasil, segundo ele, ela costuma vir associada a um padrão alimentar baseado em ultraprocessados, cujos impactos vão além da questão calórica e do simples excesso de peso.
“O professor Carlos Monteiro, da USP, foi quem cunhou a classificação nova de alimentos ultraprocessados, e os dados dele mostram que estamos numa transição alimentar acelerada: não estamos só ficando mais obesos, estamos mudando radicalmente o que comemos”, explica Brandão, ressaltando a gravidade dessa transformação.
A diferença importa porque o ultraprocessado tem um efeito que parece ser independente do peso corporal. Brandão cita outro estudo, publicado no periódico científico BMJ em 2018, que mostrou associação entre consumo de ultraprocessados e câncer ajustada para IMC, sugerindo que os efeitos negativos podem ir além da obesidade em si.
Segundo Brandão, pesquisas também vêm apontando possíveis mecanismos biológicos por trás disso, como alterações na microbiota intestinal e efeitos de aditivos alimentares sobre o metabolismo. Embora as evidências em humanos ainda estejam em desenvolvimento, ele afirma que os sinais vêm se acumulando.
“Quando o estudo britânico diz que a obesidade pesa mais, no Brasil eu leria como: obesidade somada a uma exposição alimentar qualitativamente diferente, com efeitos combinados que ainda estamos aprendendo a separar”, conclui Raphael Brandão, sublinhando a complexidade do problema.
Prevenção e Alerta: Ações Urgentes e Evitando o Alarmismo
Carlos Gil Ferreira alerta que os dados não podem ser lidos sem contexto. “Há risco de esse debate virar alarmismo, e ele precisa ser evitado. Câncer nesses tipos e nessa faixa etária ainda é raro, o que o estudo mostra é que esses cânceres podem estar se tornando menos raros. A distinção parece sutil, mas é fundamental para uma comunicação responsável”, afirma.
Para ele, a mensagem que realmente importa é a prevenção. Em caso de sintomas persistentes, como sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal, perda de peso sem explicação, dores persistentes, fadiga excessiva ou aparecimento de nódulos, a orientação é procurar atendimento médico e não tentar interpretar sinais sozinho.
Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores são as chances de cura, em qualquer idade. O especialista acrescenta que o Brasil ainda precisa construir uma estratégia mais específica para lidar com o aumento de câncer em jovens adultos, adaptando seus sistemas de saúde para essa nova realidade.
“O estudo britânico é um ponto de partida importante, mas, no contexto brasileiro, ele reforça a necessidade de mais dados, mais investimento em registros nacionais e políticas públicas voltadas a essa faixa etária. Somente assim poderemos enfrentar esse desafio de forma eficaz”, finaliza Ferreira.