Aos 82, Altair Pinheiro lança ‘Poesias Agudas’, um livro que reflete décadas de vida, desafios de saúde mental e sua profunda conexão com a natureza.
O Rio de Janeiro celebra um momento inspirador com o lançamento do primeiro livro de poemas de Altair Pinheiro, um talentoso idoso de 82 anos. Intitulado ‘Poesias Agudas’, a obra é a culminação de uma vida inteira dedicada à escrita e à observação.
Os versos de Altair não são apenas palavras no papel, mas um espelho de sua trajetória pessoal, suas reflexões sociais, suas críticas e uma profunda sensibilidade para as belezas e desafios do cotidiano. É um testemunho da resiliência humana e do poder transformador da arte.
Este lançamento, que acontece no Dia Mundial da Poesia, marca a consolidação de uma história em que a escrita sempre foi um instrumento de reflexão, resistência e expressão, conforme informações divulgadas pelo G1.
A Arte de Expressar o Inexprimível: A Jornada de Altair na Escrita
Desde a infância, Altair Pinheiro cultivou uma profunda relação com a arte, a leitura e a observação do mundo. Crescido em um lar vibrante, com pai e tio músicos, uma irmã artista plástica e irmãos ligados à biologia e contabilidade, ele estava sempre cercado por livros, jornais e música.
Apesar desse ambiente enriquecedor, Altair sentia dificuldades em se expressar verbalmente. Foi na escrita que ele encontrou um caminho para colocar para fora suas inquietações. Aos nove ou dez anos, ele já registrava seus pensamentos em pedaços de papel, muitas vezes utilizando o invólucro das antigas bisnagas de pão.
Com pedaços de madeira, ele improvisava pequenos blocos de anotação, onde as sementes de seus futuros poemas eram plantadas. Já na adolescência, por volta dos 14 ou 15 anos, seus textos começaram a ganhar uma forma mais poética, carregando um tom crítico e questionador que persiste em sua obra.
“Eu comecei a escrever muito cedo, com 9 ou 10 anos. Era uma forma de colocar para fora aquilo que eu não conseguia dizer”, revela Altair, destacando a escrita como um refúgio e uma voz para suas emoções e pensamentos mais profundos.
Superando Desafios: A Poesia como Instrumento de Cuidado e Resistência
A vida de Altair Pinheiro também é marcada por momentos de sofrimento psíquico e experiências com o antigo modelo de internação psiquiátrica. Ao longo dos anos, ele passou por diversas instituições, acompanhando de perto as transformações trazidas pela reforma psiquiátrica brasileira.
Atualmente, Altair encontra apoio e um espaço de cuidado, cultura e convivência no Instituto Municipal Nise da Silveira, localizado no Rio de Janeiro. Desde 2023, ele participa ativamente na produção de textos, em oficinas e no acompanhamento de visitantes no Espaço Travessia.
Além disso, ele é um membro engajado da oficina de escrita e expressão “Entre Linhas” e do programa de rádio “Espaço da Diferença”, ambos coordenados pelo CECO Trilhos do Engenho. Essas atividades permitem que Altair exercite diariamente sua veia artística, escrevendo, apresentando histórias e promovendo debates.
Para Altair, o cuidado em saúde mental transcende a medicação. Em sua visão, ele deve abranger a cultura, a arte, a escuta e as oportunidades de expressão. “O cuidado mental não vem só do remédio. Vem também da cultura, da arte e da possibilidade de falar e ser escutado”, afirma, ressaltando a importância de uma abordagem integral.
O Olhar Sensível para a Natureza: Inspiração para Versos Profundos
A relação de Altair com a natureza também moldou profundamente sua escrita. Criado em um terreno amplo, cercado por árvores, pássaros e plantas, ele desenvolveu um olhar atento para os pequenos detalhes da vida cotidiana. Para ele, a poesia nasce precisamente dessa capacidade de observação.
Ele se encanta com o movimento da brisa nas folhas, o orvalho sobre as pétalas das flores ou o canto dos pássaros, elementos que muitos não percebem em sua rotina. “Eu não vou ao jardim só para olhar as coisas. Eu vou para ver o bailar da brisa nas folhas, o orvalho nas flores. As pessoas não param para perceber esses detalhes”, explica.
Essa sensibilidade se traduz em muitos de seus versos, dedicados à fauna, à flora e às complexas relações humanas. Um dos exemplos mais notáveis de sua obra é o poema “O Canto do Sabiá”, inspirado nos pássaros que ouvia cantar enquanto morava em Juiz de Fora.
Esse texto foi utilizado pelo Centro de Referência de Direitos Humanos da cidade para a criação de um espetáculo musicado. A montagem, baseada em seus poemas, foi apresentada em 2013 no Fórum Mundial de Direitos Humanos, em Brasília, levando a poesia de Altair para um público internacional.
“Minha terapeuta viu um monte de rascunhos espalhados e perguntou se podia usar aqueles textos. Eles montaram um espetáculo musicado e levaram para o fórum. Foi um sucesso”, recorda Altair, demonstrando a repercussão de sua arte.
Com o lançamento de ‘Poesias Agudas’, Altair Pinheiro oferece ao mundo não apenas uma coleção de versos, mas uma perspectiva de vida forjada na observação, na superação e na crença inabalável no poder da expressão artística. Sua obra é um convite a olhar o mundo com mais sensibilidade e a encontrar voz mesmo nos momentos mais difíceis.