Apesar do talento do ator brasileiro como destaque, a comédia de aventura que tenta reviver o clássico de 1997 não sustenta sua própria existência, falhando em metalinguagem e orçamento.
O aguardado filme Anaconda, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (25), prometia ser uma homenagem cômica ao thriller de 1997. Estrelado por nomes como Jack Black e Paul Rudd, a produção gerou expectativa, especialmente pela participação do ator brasileiro Selton Mello.
Contudo, a realidade se mostra um tanto diferente do esperado. A tentativa de recriar a atmosfera do filme original, que para muitos se tornou um clássico “tão ruim que é bom”, tropeça em suas próprias ambições e limitações visíveis.
Mesmo com o brilho de seu elenco principal e a experiência do diretor Tom Gormican, o novo Anaconda não consegue justificar sua existência, deixando o público com mais dúvidas do que risadas, conforme informação divulgada pelo g1.
O Destaque Inegável de Selton Mello
Selton Mello é, sem dúvida, o ponto alto da nova versão de Anaconda. Com vasta experiência em comédias, o ator brasileiro entrega uma performance que transcende as expectativas para um papel secundário, roubando a cena e imprimindo um carisma único ao seu personagem.
Ele interpreta um criador de cobras que, após a perda de um amigo em um acidente, evoca uma mistura de protagonistas de clássicos nacionais como “O auto da compadecida” e “Lisbela e o prisioneiro”. Sua atuação é tão marcante que se torna o principal atrativo do filme.
Infelizmente, o talento de Mello não é suficiente para salvar a produção. Apesar de seu destaque, a trama e a execução do filme não conseguem acompanhar o nível de sua interpretação, deixando a desejar em outros aspectos cruciais.
Uma Homenagem que Tropeça
O filme tenta homenagear o Anaconda de 1997, um filme B que, ao longo dos anos, conquistou um status cult. No entanto, a escolha de um alvo tão peculiar dificulta a conexão com os protagonistas interpretados por Jack Black e Paul Rudd.
Eles vivem amigos de meia-idade com ambições cinematográficas frustradas, que viajam à Amazônia para filmar uma continuação/recomeço da aventura com a cobra gigante. A constante repetição do quanto gostam do suspense original, estrelado por Jennifer Lopez e Jon Voight, parece forçada e não gera a empatia desejada.
A premissa, que poderia ser divertida, se perde na execução. A tentativa de metalinguagem, embora presente em alguns momentos, não é suficiente para sustentar a narrativa, que em vários pontos parece não encontrar seu tom.
Metalinguagem e as Limitações Orçamentárias
O diretor e corroteirista Tom Gormican, que já havia demonstrado sensibilidade para metalinguagens em “O peso do talento” (2022), tenta aplicar essa abordagem em Anaconda. Por vezes, a trama encontra tons humanos, e o enredo dos amigos no barco na floresta com pretensões elevadas quase parece plausível.
Contudo, qualquer ambição de ir além esbarra nas evidentes limitações orçamentárias. A cobra gigante feita com computação gráfica é muito mais tosca do que se poderia justificar como parte da homenagem, e o cenário que deveria emular a Amazônia brasileira nunca convence.
A Austrália, escolhida para as filmagens devido a isenções fiscais, pode até enganar estrangeiros, mas exige muita boa vontade do público brasileiro para aceitar a representação da flora e das proporções do rio Amazonas. A escalação da atriz portuguesa Daniela Melchior para o papel de uma local, que precisa ser dublada ao falar português, também diminui a simpatia.
O Vazio Após a Saída de Mello
Com o previsível desaparecimento do personagem de Selton Mello, o novo Anaconda sofre terrivelmente. O carisma de Rudd, Black, Thandiwe Newton e Steve Zahn consegue arrancar algumas risadas, mas a ausência do ator brasileiro é sentida profundamente, deixando um vazio na narrativa.
Este sofrimento leva o público a questionar a própria existência do filme: Por que gostam tanto do Anaconda original? Por que afirmam estar no Brasil quando claramente não estão? Por que astros como Rudd e Black estão em um estúdio com explosões genéricas e uma cobra computadorizada?
Para alguns, o possível sucesso de um ator brasileiro em Hollywood pode compensar essas perguntas. Resta ao espectador decidir se essa é uma compensação válida diante das fragilidades e do caráter tosco da homenagem cinematográfica.