Estudo no Japão aposta em animes e avatares de mangá para combater a depressão, facilitando a expressão emocional e o acesso a cuidados de saúde mental.
Uma abordagem inovadora está sendo explorada no Japão para auxiliar no tratamento da depressão e outros desafios de saúde mental. Pesquisadores estão avaliando o potencial dos animes, as populares animações japonesas, como uma ferramenta terapêutica, utilizando avatares inspirados em mangás para criar um ambiente de tratamento mais acolhedor e eficaz.
A ideia surge da experiência pessoal do psiquiatra Francesco Panto, que encontrou nos animes um refúgio e inspiração durante sua adolescência na Sicília. Agora, vivendo no Japão, Panto lidera uma pesquisa que busca replicar esses benefícios para outras pessoas, especialmente aquelas que enfrentam dificuldades em procurar ajuda psicológica tradicional.
A pesquisa avalia como a “terapia baseada em personagens” pode facilitar a expressão emocional dos pacientes, melhorar a comunicação com terapeutas e, consequentemente, ampliar o acesso a cuidados de saúde mental, conforme informações divulgadas pelo g1.
A Inspiração Pessoal por Trás da Terapia com Animes
Francesco Panto, o psiquiatra por trás da iniciativa, relembra como os animes e jogos de vídeo game foram cruciais em sua própria jornada. “Usar mangá e anime me ajudou muito, foram ferramentas de apoio emocional muito importantes”, afirmou ele. Panto cresceu na Itália, onde estereótipos de gênero e autoexpressão eram muito fortes.
Ele encontrou nos protagonistas masculinos de jogos como “Final Fantasy” figuras inspiradoras. “Eles eram tão masculinos e brilhantes, mas à sua maneira”, recordou o psiquiatra. Essa vivência pessoal o motivou a explorar o potencial terapêutico dessas formas de arte japonesa para ajudar outros indivíduos a superar suas próprias lutas.
Como a Terapia Baseada em Personagens Funciona
Em março, Panto concluiu um estudo piloto de seis meses sobre essa “terapia baseada em personagens” na Universidade Municipal de Yokohama. A pesquisa envolveu 20 pessoas, com idades entre 18 e 29 anos, que apresentavam sintomas de depressão.
Os participantes receberam terapia online com um psicólogo que aparecia na tela como um avatar de anime, com a voz alterada digitalmente. Panto acredita que esse “filtro de fantasia” pode ajudar os pacientes a se sentirem mais confortáveis para discutir seus problemas, e os resultados preliminares parecem confirmar essa teoria.
A equipe de pesquisa desenvolveu seis avatares distintos, cada um baseado em um arquétipo específico de mangá japonês. Os personagens foram criados com traços de personalidade e lutas mentais específicas, como uma figura de “energia materna” empunhando um fuzil ou um príncipe emocionalmente perspicaz, permitindo que os participantes escolhessem o que mais se identificavam.
Melhorando a Comunicação e o Acesso à Saúde Mental
Um dos principais objetivos deste ensaio clínico de fase um foi determinar a viabilidade da terapia com anime e se ela poderia reduzir os sintomas da depressão. Além disso, a pesquisa monitorou dados como frequência cardíaca e sono dos participantes, buscando evidências concretas da eficácia do método.
Jesus Maya, especialista em terapia familiar da Universidade de Sevilha, que não faz parte do estudo, salientou que o uso de animes nas sessões pode ser muito benéfico. “Pode facilitar a expressão de emoções, a identificação e a comunicação entre o paciente e o terapeuta”, explicou o especialista.
Um participante de 24 anos, fã de animes, relatou que foi atraído pela descrição de um avatar que buscava “a verdadeira força”. Ele sentiu que isso o ajudaria a “chegar mais perto da resposta para os meus próprios problemas”. Embora não pudesse comentar sobre o processo terapêutico em si, ele expressou que os animes lhe deram “um entusiasmo pela vida, ao ver personagens tão vibrantes lutando para realizar seus sonhos”.
O Impacto no Japão e o Futuro da Terapia com Avatares
O projeto de pesquisa de Panto é uma das muitas iniciativas que buscam soluções para os desafios de saúde mental no Japão. O país enfrenta o fenômeno conhecido como ikizurasa, um termo que descreve aqueles que têm “dificuldade de adaptação à sociedade”, conforme explicou Mio Ishii, professora associada e líder do projeto.
Dados do Fórum Econômico Mundial, citados no g1, revelam que, em 2022, apenas 6% da população japonesa buscou terapia psicológica para problemas de saúde mental, uma taxa significativamente menor em comparação com a Europa e os Estados Unidos. “Há muitos jovens que não conseguem ir à escola ou continuar trabalhando. Portanto, nosso objetivo é oferecer a eles novas opções para superar suas dificuldades”, afirmou Ishii.
A pesquisadora espera que, com o sucesso do estudo, essa inovadora terapia baseada em animes possa ser implementada globalmente. Panto também avalia a possibilidade de aplicar a terapia utilizando inteligência artificial, sem a necessidade da intervenção de um psicólogo humano, o que poderia expandir ainda mais o acesso a esse tipo de cuidado.