A jornada inspiradora de Aila Maria e sua avó, que celebram a cura do pé torto congênito no Amapá após quatro anos, um marco para mais de 100 crianças tratadas gratuitamente.
A pequena Aila Maria, hoje com quatro anos, é o símbolo de uma vitória que levou tempo, mas que finalmente se concretizou. Após um tratamento intensivo para o pé torto congênito, a menina pode agora usar sapatos comuns, um sonho acalentado por sua avó, Maria de Nazaré Gomes.
Essa celebração não é apenas de Aila e sua família, mas de todo o Amapá. Ela representa a cura de mais de 100 crianças que receberam tratamento gratuito e especializado para o pé torto, uma das deficiências mais comuns entre os recém-nascidos, transformando suas vidas e de suas famílias.
A história de Aila e o sucesso do programa são resultados do trabalho incansável do ortopedista Roberto Dourado, referência no método Ponseti na rede pública do estado. Conforme informação divulgada pelo g1, o médico em breve apresentará seus resultados na prestigiada Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, berço dos estudos sobre o tema.
Uma Luta de Quatro Anos pela Cura do Pé Torto
Aila Maria nasceu com Pé Torto Congênito (PTC), uma condição que faz com que os pés fiquem virados e que exige tratamento imediato para evitar sequelas permanentes. Sua avó e mãe de criação, Maria de Nazaré, assumiu os cuidados da neta quando ela tinha apenas seis meses e, sem recursos financeiros, via-se sem esperança para a cura da doença.
A reviravolta na vida da família veio através de uma amiga que a apresentou ao doutor Roberto Dourado. Inicialmente, Maria buscava apenas um laudo médico para tentar um benefício social, mas durante a consulta, descobriu que a cura era não só possível, como gratuita, dentro da própria rede pública de saúde.
“Foi Deus que me enviou. Quando cheguei lá, ele disse: ‘vou lhe dar o laudo, mas a senhora tem que continuar o tratamento da Aila’. Eu respondi que não tinha condições, pois era muito caro. Então ele disse: ‘nós estamos fazendo de graça’. Eu aceitei na hora, porque sempre quis que ela usasse sapato”, relembra a doméstica, emocionada com a oportunidade que mudou a vida de sua neta.
Antes do tratamento inovador, Aila usava uma espécie de meia-sapato especial. Como os pés eram virados, o atrito era intenso e o material se desgastava rapidamente, causando desconforto e limitando suas brincadeiras. A possibilidade de usar um calçado comum representa muito mais do que estética, é a garantia de uma vida com mais autonomia, conforto e dignidade para a pequena Aila.
O Método Ponseti e a Dedicação Médica
O método Ponseti, amplamente reconhecido e utilizado no tratamento do pé torto congênito, consiste em uma sequência de etapas cuidadosamente planejadas. Primeiramente, há a modelagem do pé com próteses de gesso, que são trocadas gradualmente até seis vezes para corrigir a deformidade. O tratamento é concluído com uma pequena cirurgia e o uso de órteses de dupla abdução.
Estas órteses são cruciais na fase de manutenção: são usadas de forma contínua nos primeiros três meses após a cirurgia e, depois, apenas à noite até que a criança complete os quatro anos de idade. Para o ortopedista Roberto Dourado, o cuidado vai além da técnica. Ele defende que o processo seja multidisciplinar e, acima de tudo, acessível a todas as famílias.
“O paciente muitas vezes não tem condições financeiras de comprar uma receita ou não entende o processo. Por isso, temos que abraçar esse paciente. Ele é o nosso próximo, e devemos fazer por ele o que gostaríamos que fizessem conosco”, explica o médico, ressaltando a importância da empatia e do suporte integral aos pacientes e seus familiares.
É fundamental destacar que crianças com pé torto podem iniciar o tratamento já nos primeiros 15 dias de vida. O diagnóstico precoce e o acesso rápido a especialistas, como o Dr. Dourado e sua equipe, são determinantes para o sucesso da cura e para evitar sequelas permanentes, garantindo um desenvolvimento saudável e pleno.
Reconhecimento Internacional para o Amapá
A jornada para consolidar o atendimento do pé torto congênito no Amapá não foi fácil, enfrentando grandes barreiras estruturais na rede pública de saúde. Contudo, a persistência e a dedicação do Dr. Dourado e de sua equipe transformaram esses desafios em oportunidades, e o trabalho desenvolvido hoje é uma referência nacional.
Esse reconhecimento culmina em um convite de grande prestígio: o médico apresentará os resultados e a experiência amapaense na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, que é o verdadeiro berço dos estudos sobre o método Ponseti. É um feito notável que coloca o Amapá em destaque no cenário médico internacional.
“Vamos representar o Amapá. Não vamos lá chorar as dificuldades. Apesar de todos os obstáculos, conquistamos a vitória de tratar nossas crianças”, afirma o ortopedista, com orgulho visível do impacto positivo na vida de tantas famílias e da projeção que o estado alcança. Atualmente, os atendimentos são realizados em um ambulatório moderno e bem equipado no Hospital da Criança e do Adolescente (HCA), recentemente inaugurado.
A história de Aila Maria é um testemunho poderoso da esperança, da resiliência e da dedicação humana. Ela mostra que, com o tratamento adequado, acessível e humanizado, a cura do pé torto congênito é uma realidade que transforma vidas no Amapá, projetando o estado no cenário médico internacional e inspirando a todos.