Projeto de lei, nomeado em homenagem a uma das vítimas, busca promover a conscientização e criar uma rede de apoio essencial para mulheres em situação de risco na cidade mineira
A cidade de Bom Repouso, em Minas Gerais, vivenciou um início de ano trágico, com o registro de dois feminicídios em apenas dez dias, um choque para a comunidade de 12,6 mil habitantes. Diante dessa realidade alarmante, a Câmara Municipal se mobilizou para votar uma nova legislação.
Nesta quinta-feira, 22 de fevereiro, os vereadores avaliarão um projeto de lei crucial, que visa intensificar a conscientização sobre a violência contra a mulher e oferecer um suporte mais robusto às vítimas. A iniciativa emerge como uma resposta direta à urgência de proteger vidas.
A proposta, carregada de simbolismo e esperança, recebeu o nome de “Patrícia Vive”, uma homenagem a Patrícia Cezar Nogueira, uma das mulheres brutalmente assassinadas no município, conforme informação divulgada pelo g1.
A Proposta “Patrícia Vive” e Suas Diretrizes
O projeto de lei “Patrícia Vive” estabelece uma política municipal fundamentada em cinco diretrizes essenciais, buscando uma abordagem abrangente para o enfrentamento da violência contra a mulher. Entre os pontos principais, está a promoção da conscientização da população sobre a violência contra a mulher e o feminicídio, educando a comunidade sobre a gravidade desses crimes.
Outro objetivo fundamental é incentivar a denúncia e auxiliar as mulheres a romperem o ciclo de violência, oferecendo caminhos seguros para que busquem ajuda. A lei também contribuirá para o fortalecimento da rede de apoio e acolhimento de mulheres em situação de risco, garantindo que elas não se sintam sozinhas.
Adicionalmente, a iniciativa visa estimular ações integradas de prevenção e enfrentamento à violência doméstica, articulando esforços entre diferentes setores da sociedade. Por fim, a legislação busca preservar a memória de Patrícia como um símbolo de luta e proteção à vida das mulheres, transformando sua tragédia em um legado de mudança.
O Desafio da Denúncia e o Medo do Julgamento
A psicanalista Ludmila Mariano, responsável pela elaboração do projeto, enfatiza que a lei, caso aprovada, terá como meta primordial criar um ambiente onde as mulheres se sintam seguras para denunciar agressões e perseguições. Ela destaca a barreira do medo e do julgamento social que muitas vítimas enfrentam.
“Muitas vezes a mulher que está em situação de violência, não busca ajuda porque tem medo do julgamento das pessoas, ela se sente culpada, tem vergonha. A gente vem de uma sociedade muito machista, muito patriarcal, que fala que essa mulher está lá porque ela quer, ela está lá porque ela gosta de apanhar”, afirma a psicanalista. Essa percepção social dificulta a busca por auxílio.
Mariano explica que a dependência emocional e financeira do agressor é uma realidade para muitas vítimas, complicando a decisão de sair do relacionamento abusivo. “Muitas vezes tem um vínculo afetivo muito grande, a mulher é ameaçada, sofre chantagem, ama esse agressor, tem uma dependência emocional dele, então, não é uma coisa simples”, descreve ela.
A psicanalista ainda ressalta outras formas de coação, como ameaças aos filhos ou a guarda deles, e a falta de recursos financeiros que impedem a mulher de recomeçar. “Essa lei “Patrícia Vive” vai dar voz a muitas mulheres, a gente vai poder ouvir as mulheres e elas vão ter um lugar, um local onde elas possam correr e pedir ajuda”, conclui, evidenciando a importância do suporte.
Dois Casos de Feminicídio que Chocaram a Cidade
Os dois feminicídios que impulsionaram a criação da lei ocorreram nos dez primeiros dias de 2026, deixando a população de Bom Repouso em luto e alerta. Ambos os crimes tiveram como suspeitos homens que não aceitavam o fim dos relacionamentos, um padrão trágico em casos de violência contra a mulher.
O primeiro assassinato vitimou Bruna Aline Rodrigues de Souza na madrugada do Réveillon. Ela foi morta dentro de uma casa onde cuidava de crianças, incluindo seus dois filhos. O ex-marido, de 21 anos, é o principal suspeito e permanece foragido, intensificando a sensação de impunidade e insegurança.
O segundo crime ocorreu em 10 de janeiro, tirando a vida de Patrícia Cezar Nogueira, de 29 anos. Ela estava trabalhando em uma lavoura de morangos quando foi atacada durante o intervalo, sendo baleada com dois tiros na cabeça. O suspeito, Dionata da Silva Schmitt, de 30 anos, era seu ex-namorado e não aceitava o término.
Dionata da Silva Schmitt foi preso um dia após o crime, e um homem suspeito de ajudá-lo na fuga também foi detido. Um detalhe crucial é que Patrícia possuía uma medida protetiva contra o suspeito, evidenciando a falha em protegê-la mesmo com instrumentos legais em vigor, sublinhando a urgência de leis mais eficazes.