Superávit chinês atinge patamar inédito, impulsionado pela diversificação e apesar das políticas de Trump, mas gera preocupações internacionais
A balança comercial da China encerrou o ano de 2025 com um superávit recorde, atingindo quase US$ 1,2 trilhão. Este feito notável ocorreu mesmo diante do impacto das tarifas impostas pela administração Trump, que retornou à Casa Branca no ano anterior, e em meio a intensas fricções comerciais e geopolíticas.
O resultado extraordinário foi impulsionado por uma estratégia agressiva de Pequim para diversificar seus mercados de exportação, focando em regiões como o Sudeste Asiático, África e América Latina. Essa mudança estratégica permitiu que a economia chinesa resistisse à pressão americana, minimizando os efeitos das barreiras comerciais.
Apesar do sucesso em números, o cenário para 2026 apresenta complexos desafios. A China precisará abordar preocupações crescentes de diversas capitais globais sobre suas práticas comerciais, a capacidade ociosa de sua indústria e a dependência excessiva de produtos chineses essenciais, conforme informação divulgada pelo g1.
Recorde Histórico e a Estratégia de Diversificação
Os dados alfandegários revelados na quarta-feira, 14 de janeiro de 2026, confirmaram que o superávit comercial anual da potência industrial atingiu precisamente US$ 1,189 trilhão. Este valor é equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) de uma das 20 maiores economias do mundo, como a Arábia Saudita, e superou a marca de um trilhão de dólares pela primeira vez em novembro de 2025.
Apesar da retração nas exportações para os Estados Unidos, que caíram 20% em dólares em 2025, e nas importações da maior economia do mundo, que recuaram 14,6%, as fábricas chinesas demonstraram resiliência. Elas conseguiram conquistar espaço significativo em outros mercados, evidenciando uma bem-sucedida estratégia de diversificação.
As exportações para a África, por exemplo, saltaram 25,8%. Para o bloco da ASEAN, que engloba países do Sudeste Asiático, o aumento foi de 13,4%, enquanto os embarques destinados à União Europeia cresceram 8,4%. Wang Jun, vice-ministro da administração aduaneira chinesa, afirmou em coletiva de imprensa que, “Com parceiros comerciais mais diversificados, a capacidade da China de resistir a riscos foi significativamente aprimorada.”
Competitividade e Desafios Internos e Externos
A economia chinesa continua a ser “extraordinariamente competitiva”, conforme análise de Fred Neumann, economista-chefe para a Ásia do HSBC. Ele explica que, “Embora isso reflita ganhos de produtividade e a crescente sofisticação tecnológica dos fabricantes chineses, também se deve à fraca demanda interna e à consequente capacidade ociosa.”
Essa dinâmica gera uma pressão para que a China exporte produtos cada vez mais baratos, o que, por sua vez, pode intensificar as tensões comerciais com parceiros globais. Neumann ressalta que, “O aumento dos superávits comerciais chineses pode elevar as tensões com os parceiros comerciais, especialmente aqueles que dependem das exportações de produtos manufaturados.”
Um dos grandes desafios para os formuladores de políticas em Pequim é determinar por quanto tempo a economia de US$ 19 trilhões conseguirá equilibrar a queda do mercado imobiliário e a demanda interna enfraquecida, utilizando as exportações como principal motor de crescimento.
O Impacto das Tarifas e a Resposta de Pequim
As exportações da segunda maior economia do mundo cresceram 6,6% em valor em dezembro, em comparação com o mesmo período do ano anterior, superando a previsão de 3,0%. As importações também surpreenderam, aumentando 5,7%, acima da expectativa de 0,9%. Este forte desempenho nas exportações tem sido crucial para mitigar a fraca demanda interna, segundo Zhiwei Zhang, economista-chefe da Pinpoint Asset Management.
Os superávits comerciais mensais da China ultrapassaram US$ 100 bilhões sete vezes em 2025, um aumento considerável em relação a apenas uma vez em 2024. Este dado demonstra que as ações de Trump tiveram um impacto limitado no comércio da China com o resto do mundo, mesmo com as restrições às remessas destinadas aos EUA.
A China também demonstrou sua influência geopolítica, com as exportações de terras raras em 2025 atingindo seu nível mais alto desde 2014, mesmo com restrições a partir de abril. Além disso, o país adquiriu um volume recorde de soja, impulsionado por remessas da América do Sul, evitando as safras americanas devido às tensões comerciais persistentes.
Perspectivas para 2026 e a Reconfiguração do Comércio
Economistas preveem que a China continuará a ganhar participação no mercado global em 2026, impulsionada pela criação de centros de produção no exterior por empresas chinesas. Essa estratégia visa garantir acesso a tarifas mais baixas nos Estados Unidos e na União Europeia, além de atender à forte demanda por chips e componentes eletrônicos.
Pequim, no entanto, parece reconhecer a necessidade de moderar suas exportações industriais para manter o sucesso e lidar com a imagem de exportações excessivas. Como exemplo, o governo britânico eliminou incentivos fiscais para exportação no setor de energia solar, um ponto de atrito com a UE.
O desafio imposto por Trump à China também não deve desaparecer tão cedo. A ameaça de imposição de uma tarifa de 25% a países que fazem negócios com o Irã, por exemplo, ressalta o potencial para o aumento das tensões comerciais entre os EUA e a China, de acordo com Zichun Huang, economista para a China da Capital Economics.