Banir adolescentes de redes sociais, como a Austrália fez, é eficaz? Especialistas debatem solução para crise de saúde mental juvenil

Austrália pioneira: a proibição de redes sociais para menores de 16 anos busca frear crise de saúde mental, mas levanta questionamentos sobre sua real eficácia e consequências inesperadas.

A Austrália deu um passo inédito ao implementar uma proibição nacional para que crianças e adolescentes, especificamente menores de 16 anos, utilizem redes sociais. A medida, que entrou em vigor em dezembro de 2025, foi apresentada como uma resposta direta à crescente crise de saúde mental entre os jovens, gerando um intenso debate global.

A decisão australiana foi impulsionada por discussões públicas acaloradas e pela influência de obras como “A Geração Ansiosa”, do psicólogo social Jonathan Haidt, que correlaciona o uso de smartphones e plataformas digitais com o aumento de doenças mentais na adolescência.

No entanto, a eficácia de banir adolescentes de redes sociais como estratégia para proteger sua saúde mental é amplamente questionada por especialistas, que apontam para a complexidade do problema e os potenciais riscos da clandestinidade digital, conforme informações divulgadas pelo G1.

A polêmica medida australiana e a forte aprovação da população

A proibição de que menores de 16 anos acessem plataformas como TikTok, Facebook, Snapchat, Reddit, X e Instagram foi aprovada pelo Parlamento australiano em novembro de 2024. A iniciativa contou com um apoio massivo da população, com 77% dos australianos a favor, segundo pesquisa de opinião.

As multas para as empresas que não bloquearem o acesso de jovens, estipuladas em 49,5 milhões de dólares australianos, foram endossadas por 87% dos entrevistados. Curiosamente, usuários e pais não serão punidos por eventuais violações, focando a responsabilidade nas plataformas digitais.

Apesar do respaldo público, as empresas de tecnologia não receberam bem a notícia. Um porta-voz do TikTok, por exemplo, expressou preocupação, afirmando que “é muito provável que a proibição leve os jovens a cantos mais sombrios da internet, onde não existem diretrizes comunitárias, ferramentas de segurança ou proteções”.

O objetivo principal de banir adolescentes de redes sociais é protegê-los do cyberbullying, da desinformação e do conteúdo ilegal. Contudo, a eficácia dessa medida como um antídoto para a deterioração da saúde mental juvenil ainda é alvo de grande ceticismo entre especialistas.

Correlação ou causalidade? Especialistas questionam a ligação direta entre redes sociais e saúde mental

Marilyn Campbell, professora da Universidade de Tecnologia de Queensland e pesquisadora de cyberbullying, alerta para a escassez de estudos que comprovem uma conexão causal entre o uso de redes sociais e a deterioração da saúde psicológica dos jovens.

“Sabemos que há uma alta correlação entre o surgimento de novas tecnologias e o aumento da deterioração da saúde mental dos jovens”, explica Campbell, “mas ainda não sabemos por quê”. A distinção entre correlação, onde dois fenômenos se movem na mesma direção, e causalidade, onde um provoca o outro, é crucial neste debate.

Um estudo de 2023, que analisou o uso de redes sociais em 72 países, não encontrou “nenhuma evidência que sugira que a penetração global das redes sociais esteja associada a danos psicológicos generalizados”.

Campbell critica a proibição como uma “solução simples e agradável” para um problema complexo, que ignora outras influências como a desigualdade social, a ansiedade climática e a violência de gênero. Para ela, em vez de banir adolescentes de redes sociais, os governos deveriam “reformar o sistema de saúde mental”, investindo em mais assistentes e psicólogos escolares, medidas que demandam recursos financeiros.

Além da proibição: outras abordagens e o cenário internacional

A professora Marilyn Campbell adverte que banir adolescentes de redes sociais pode ter o efeito reverso, empurrando os jovens para o uso clandestino, assim como ocorreu com a Lei Seca nos Estados Unidos. Ela enfatiza a importância de preparar os jovens para viver em um “mundo tecnologicamente saturado”, sem isolá-los dele.

Além disso, para grupos como jovens com autismo ou aqueles explorando sua identidade sexual e de gênero, as redes sociais podem oferecer um espaço vital para conexão e identificação com pares, que talvez não encontrem em seus ambientes físicos.

Globalmente, a discussão ressoa. Na Alemanha, 77% dos entrevistados em 2024 apoiam uma proibição semelhante à australiana. Nos EUA, vários estados limitam o acesso e exigem consentimento parental para menores de 13 anos. A Suécia avalia proibir smartphones em escolas, e o Reino Unido implementou verificação de idade para conteúdo impróprio.

No Brasil, o uso de celulares em salas de aula foi proibido neste ano letivo. O cirurgião-geral dos EUA, Vivek Murthy, sugeriu rótulos de advertência nas plataformas, reconhecendo tanto os “sintomas de depressão e ansiedade” em adolescentes que passam mais de três horas diárias nas redes, quanto os aspectos positivos de “comunidade e conexão”.

Para Campbell, a solução não está em proibir, mas em educar e projetar aplicativos de rede social que incentivem uma interação mais segura e construtiva para os jovens, preparando-os para o ambiente digital.

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