Pesquisas revelam que comunidades cariocas enfrentam temperaturas até 6°C mais altas devido ao adensamento urbano e à escassez de árvores, intensificando o sofrimento dos moradores.
O verão carioca tem sido sinônimo de calor intenso, mas para os moradores de favelas, a situação é ainda mais crítica. A combinação de moradias adensadas, ruas estreitas e, principalmente, a falta de arborização, cria verdadeiras ilhas de calor que elevam as temperaturas a patamares alarmantes, tornando o cotidiano insuportável.
Essa realidade impacta diretamente a saúde e o bem-estar de milhões de pessoas que vivem em condições de vulnerabilidade. O desconforto térmico agrava problemas de infraestrutura e expõe uma profunda desigualdade climática na cidade.
A intensificação do calor extremo nessas áreas é um problema grave, conforme informações divulgadas pelo g1, com base em estudos e relatos de quem vive essa realidade.
As Ilhas de Calor na Maré e o Impacto no Cotidiano
No Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, pesquisadores da Redes da Maré identificaram ilhas de calor onde as temperaturas podem ser até 6°C mais altas do que em regiões próximas, como o Aeroporto do Galeão, a apenas seis quilômetros de distância. Este fenômeno é sentido de forma aguda pelos residentes.
Márcio Rodrigo da Silva, mototaxista na Maré, descreve a situação: “Você vai lá na minha laje de quarto andar, tá pegando fogo, o chão tá queimando”. Essa sensação térmica extrema é uma constante, resultado da pouca sombra e da proximidade das construções.
O levantamento, realizado ao longo de seis meses em 2023, mapeou três principais ilhas de calor dentro do Complexo: Nova Maré, Baixa do Sapateiro e Conjunto Bento Ribeiro Dantas. Em 2026, a organização planeja instalar 25 medidores de temperatura e qualidade do ar dentro das casas para documentar os impactos climáticos.
Rian de Queiroz, coordenador de projetos da Redes da Maré, explica que as características urbanas das favelas contribuem para o agravamento do calor. “As favelas são resultado de políticas excludentes. No contexto de crise climática, isso se materializa muito no adensamento de construção, ruas mais estreitas, verticalização muito grande, criando cânions urbanos que condicionam a circulação de ar.”
Ele acrescenta que os materiais de construção dessas áreas geralmente concentram calor e não o refletem, somando-se à falta de arborização e à ausência de áreas verdes ou de lazer abertas que poderiam favorecer a circulação do ar.
A Realidade dos Dados: A Falta de Árvores nas Favelas Brasileiras
Os dados do IBGE reforçam a gravidade da situação em todo o país. Seis em cada dez pessoas que vivem em favelas moram em trechos sem nenhuma arborização. Fora desses territórios, a realidade é diferente, com 69% da população vivendo em áreas com árvores próximas.
Em números absolutos, 64,6% dos moradores de favelas e comunidades urbanas no Brasil, o que representa cerca de 10,4 milhões de pessoas, vivem em áreas completamente desprovidas de árvores. Essa carência de vegetação tem um impacto direto na rotina dos moradores.
Diana de Souza, coordenadora de projetos, destaca as dificuldades: “Dificulta o caminhar, o trabalho na rua. Há pouca sombra. Com isso a gente vai tendo o que é chamado de estresse térmico, ficando mais cansado e mais irritado devido ao alto calor.”
As Consequências Além do Calor: Saúde e Infraestrutura
Além das altíssimas temperaturas, a população das favelas enfrenta outros problemas que se intensificam com o calor. A falta de arborização e o estresse térmico são acompanhados por quedas frequentes de energia e escassez de água, especialmente durante os meses mais quentes do ano.
O professor Raniery Soares relata que esses problemas já fazem parte da rotina anual. “Todo verão é a mesma coisa. A gente já aguarda. No período de dezembro a janeiro a gente vai ter problema de falta de luz, por conta do calor recorrente que chega a 40, 42 graus dentro das favelas.”
A combinação de calor extremo, estresse térmico, falta de água e energia precária cria um cenário de grande vulnerabilidade, afetando a saúde física e mental dos moradores e dificultando atividades básicas do dia a dia.
Invisibilidade e Buscas por Soluções para a Injustiça Climática
A ausência de dados oficiais sobre as condições climáticas nas favelas contribui para a invisibilidade do problema. Rian de Queiroz aponta essa lacuna: “Não temos estações meteorológicas aqui na Maré e nem em outros territórios periféricos. Não sendo visto é como se não existisse.”
A Redes da Maré trabalha ativamente na produção desses dados para dar visibilidade às “injustiças climáticas” e cobrar ações. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima, por sua vez, afirma realizar o plantio de árvores nativas da Mata Atlântica em áreas com as maiores favelas do Rio para mitigar o calor.
A Secretaria Municipal de Habitação também reportou o plantio de quase 1,3 mil árvores em comunidades ao longo de dois anos. No entanto, o desafio da falta de arborização e suas consequências para o calor extremo nas favelas ainda exige um esforço muito maior e políticas públicas mais eficazes e abrangentes.