Carrossel Financeiro: Como Grupo Usou Jogo do Bicho e Bets para Lavar R$ 97 Milhões em Esquema Complexo Descoberto em SP

Investigação da Polícia Civil em SP revela sofisticado esquema que manipulava apostas, construtoras e importadoras para dar aparência de licitude a dinheiro ilícito.

Uma complexa rede de lavagem de dinheiro, que utilizava jogo do bicho e bets (apostas online), foi desvendada pela Polícia Civil de São Paulo. O grupo criminoso é suspeito de movimentar cerca de R$ 97 milhões, transformando recursos ilícitos em capital aparentemente legal por meio de um engenhoso sistema.

A operação, batizada de “Quebrando a Banca”, revelou como os valores obtidos de atividades ilegais eram “esquentados” através de diversas empresas e, posteriormente, injetados no mercado de apostas online, retornando aos líderes com uma fachada de legitimidade.

Os detalhes do esquema, que envolvia desde construtoras até empresas de importação e exportação, foram divulgados pela polícia e acompanhados de perto pelo g1, mostrando a dimensão e a sofisticação da organização criminosa.

O Complexo “Carrossel Financeiro” por Trás do Jogo do Bicho e Bets

Relatórios do Setor de Inteligência da polícia descrevem o funcionamento do esquema como um verdadeiro “carrossel financeiro“. Inicialmente, o grupo angariava grandes somas de dinheiro através da exploração de jogos de azar, especificamente o jogo do bicho, uma prática proibida no Brasil.

Em seguida, para ocultar a origem ilícita desses valores, os suspeitos os movimentavam por meio de negócios com uma vasta gama de empresas. Construtoras, empresas de importação e exportação, comércios variados, companhias ligadas ao comércio de peixes e agropecuárias faziam parte dessa intrincada teia.

Após essa circulação inicial, os recursos eram concentrados em uma empresa de bets com sede em Ribeirão Preto. Dali, o dinheiro retornava diretamente para o CPF do líder do grupo, completando o ciclo e ganhando uma aparência de licitude.

O delegado Ivan Luis Constâncio, da Divisão Especializada em Investigações Criminais (Deic) de Piracicaba (SP), responsável pelas investigações, explicou ao g1 que “o esquema funciona como um ‘carrossel financeiro’: os recursos ilícitos transitam por empresas como construtoras e incorporadoras. Posteriormente, o capital é injetado na empresa de apostas on-line, por meio de transferências concentradas, retornando então à cúpula da organização com aparência de licitude.”

A polícia já tem certeza de que as movimentações financeiras dos investigados são incompatíveis com as rendas declaradas, um forte indício da atividade criminosa.

Movimentações Milionárias e Estratégias de Ocultação

Para esconder a origem dos milhões, o grupo utilizava diversas táticas. Gerentes e operadores financeiros pulverizavam o dinheiro por meio de transferências e depósitos fracionados, técnica conhecida como “smurfing“. Essa prática dificulta o rastreamento dos valores, pois evita grandes movimentações que poderiam chamar a atenção.

Além disso, a quadrilha se valia de transações imobiliárias em espécie e aquisição de ativos em nome de terceiros. Um dos alvos, por exemplo, adquiriu um imóvel de cerca de R$ 800 mil, pago integralmente em dinheiro, após receber quase R$ 40 milhões de uma única pessoa investigada em Mogi Mirim (SP).

A apuração revelou que o líder da quadrilha chegou a movimentar mais de R$ 25 milhões em apenas um semestre de 2024. O delegado estima que, com a aquisição de bens pelos investigados, a movimentação total pode atingir a impressionante marca de R$ 500 milhões.

A Operação “Quebrando a Banca” e as Apreensões

A operação “Quebrando a Banca”, deflagrada em uma terça-feira (13), teve como alvos o líder da organização criminosa e, pelo menos, outros sete integrantes, além do braço empresarial que servia como destino para as transferências bancárias. Ninguém foi preso durante a ação.

Ao todo, 14 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em diversas cidades paulistas, incluindo Ribeirão Preto, Santa Rosa de Viterbo, São João da Boa Vista, Mogi Mirim e na capital. As apreensões foram significativas e revelam o alto padrão de vida dos envolvidos.

Entre os itens apreendidos estão dispositivos eletrônicos, instrumentos de apostas, grande quantidade de dinheiro em espécie, joias, relógios de luxo, um cofre, documentos e uma frota de dez veículos. Destacam-se modelos de luxo como Porsche 911, Porsche Cayenne GTS, BMW X1, caminhonetes RAM e SUVs, evidenciando o patrimônio acumulado através do jogo do bicho e bets.

Implicações Legais e Próximos Passos da Investigação

Com base nas apreensões e nos relatórios de inteligência, a polícia busca agora identificar elementos adicionais de fraude no destino do dinheiro arrecadado. Os investigados deverão responder por crimes como lavagem ou ocultação de bens, associação criminosa e exploração de jogos de azar.

Os nomes dos envolvidos não foram divulgados pelas autoridades, que continuam apurando os detalhes sobre o fluxo de entrada e saída dos valores. A investigação promete desvendar ainda mais camadas desse complexo esquema de lavagem de dinheiro, que transformava a ilegalidade em uma fortuna milionária com aparência de legalidade.

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