Dawa Sherpa, considerado falecido por sua família, relata à BBC os dois dias e meio de isolamento e a força mental para retornar das gélidas alturas do Everest.
A história de Dawa Sherpa, um guia experiente de 57 anos, desafia a lógica e a esperança. Dado como morto após desaparecer durante a descida do Everest, ele emergiu da montanha em um feito de sobrevivência que chocou e emocionou o mundo.
Sua família em Katmandu, capital do Nepal, já havia iniciado os ritos fúnebres, acreditando que ele não voltaria. No entanto, o que parecia ser o fim se transformou em um verdadeiro milagre, impulsionado por sua resiliência e a descoberta inesperada de chocolate e gelo.
Dawa Sherpa foi encontrado descendo em direção ao acampamento-base, uma visão que trouxe alívio e incredulidade. Ele foi resgatado de helicóptero e levado a um hospital, onde concedeu uma entrevista exclusiva à BBC, revelando os detalhes de sua provação, conforme informações divulgadas pelo g1.
O Desaparecimento e a Desesperança
A situação crítica começou quando o oxigênio de Dawa Sherpa acabou durante a descida do Everest. Sem suprimentos essenciais, ele foi obrigado a ficar para trás, uma decisão que selaria seu destino, ao que parecia. O escalador Chris Thrall foi a última pessoa a vê-lo, sentado sobre sua mochila perto do Acampamento 3, a cerca de 7.500 metros de altitude, um local onde já havia descansado inúmeras vezes.
Thrall, um ex-militar britânico, seguiu descendo e encontrou outro membro do grupo em estado grave de congelamento, desviando sua atenção. Ao olhar para trás, Dawa Sherpa parecia imóvel, sem descer, o que alimentou a crença de seu falecimento. A notícia rapidamente se espalhou, e a comunidade sherpa, juntamente com sua família, lamentava a perda.
Sua esposa, Damu Sherpa, expressou a profunda dor e a perda de esperança quando a empresa da expedição informou que o resgate era impossível. A família, resignada, iniciou os ritos fúnebres, um doloroso adeus a um homem que, secretamente, lutava pela vida nas encostas geladas do Everest.
Chocolate, Gelo e a Fenda
Dawa Sherpa contou à BBC os momentos mais sombrios de sua luta pela sobrevivência. “Quando o oxigênio acabou, eu não conseguia andar”, explicou. Os dois primeiros dias foram de total privação. “Não comi nada nos dois primeiros dias. Depois, comecei a mastigar gelo. Meus dentes doíam. Eu mastigava com força”, relatou, usando o gelo como sua única fonte de hidratação.
Em um lampejo de esperança, ele encontrou chocolates nos bolsos de suas roupas, uma pequena reserva que se tornou vital. Com o chocolate, conseguiu alguma energia e até mesmo beber um pouco de gelo derretido. Enquanto descia lentamente a montanha, um acidente o levou a cair em uma fenda, onde ficou preso por dois dias e meio, sem conseguir encontrar uma saída.
A reviravolta veio com uma avalanche, que arrastou neve para dentro da fenda. “Ao pisar na neve, fiquei de pé e olhei para cima… senti que poderia sair dali”, descreveu Dawa Sherpa, sentindo a primeira onda de esperança em dias de desespero. Com muito esforço, ele conseguiu sair, encontrando cordas que o auxiliaram na perigosa descida do Everest.
O Milagre do Resgate
Mesmo após escapar da fenda, a jornada de Dawa Sherpa estava longe de terminar. Uma nova avalanche quase o impediu de seguir, mas sua determinação era inabalável. “Consegui atravessar a neve e desci. Caminhei a noite toda. Então, me aproximei do acampamento-base”, narrou ele, descrevendo a exaustiva travessia noturna.
Foi ali que, após quase uma semana de isolamento, ele avistou as primeiras pessoas. “Uns rapazes estavam subindo para recolher o lixo. Eu os encontrei, e eles me carregaram montanha abaixo”, contou Dawa Sherpa, marcando o fim de sua incrível jornada de sobrevivência. O diretor-executivo da 8K Expeditions, Pemba Sherpa, classificou o feito como um “verdadeiro autorresgate”, um “milagre” contra todas as probabilidades.
A notícia de que Dawa Sherpa estava vivo causou comoção e alegria. Chris Thrall, que o havia dado como perdido, descreveu a sensação de vê-lo chegar ao vilarejo como “inacreditável” e “indescritível”, um misto de alívio e choque. A temporada de escalada deste ano no Everest registrou cinco mortes, e mais de 300 pessoas já perderam a vida na montanha desde o início dos registros, destacando a gravidade da façanha de Dawa.
Reencontro e Lições
No hospital HAMS, em Katmandu, Dawa Sherpa recebe tratamento integral para desidratação, congelamento e uma fratura. Seu estado é estável e a desidratação melhora significativamente, um testemunho de sua força. O reencontro com a família foi carregado de emoção. Sua esposa, Damu Sherpa, não conseguia acreditar que ele havia voltado vivo, expressando seu espanto.
“Eu me pergunto quanto tempo ele sobreviveu sem comida e sem mantimentos… Não consigo entender como meu marido conseguiu comer e beber em uma altitude dessas. Espero que ninguém tenha que passar por isso”, afirmou Damu Sherpa, pedindo que o governo nepalês garanta que incidentes semelhantes não ocorram novamente. A filha, Mhendo Lhamo Sherpa, confirmou: “Ele me reconheceu… está bem e fala. Estamos felizes”.
A história de Dawa Sherpa se tornou um símbolo de resiliência e da capacidade humana de superar desafios extremos. Em uma temporada que viu mais de mil pessoas chegarem ao topo do Everest, a mais movimentada da história, a sobrevivência deste guia, alimentado por chocolate e gelo, se destaca como uma das mais extraordinárias narrativas de superação na montanha mais alta do mundo.