Como Peru transformou um dos desertos mais áridos do mundo em um centro de produção de alimentos | G1

“`json
{
"title": "Peru transforma deserto mais árido do mundo em potência agrícola, mas enfrenta dilema hídrico crucial",
"subtitle": "De um dos lugares mais áridos do planeta, o país emergiu como gigante exportador de mirtilo e outros produtos, mas o sucesso levanta sérias questões sobre a sustentabilidade hídrica e social em suas regiões costeiras.",
"content_html": "<p>O Peru, um país com vasta extensão de deserto costeiro, surpreendeu o mundo ao se transformar em um pujante centro de produção e exportação de alimentos. Em poucas décadas, o que antes era considerado improdutivo se tornou um motor econômico, impulsionado por reformas e inovações tecnológicas.</p><p>Essa transformação notável, porém, não veio sem desafios. Enquanto a indústria agroexportadora prospera, surgem debates acalorados sobre o uso intensivo de água e seus impactos na população e no meio ambiente.</p><p>A história dessa metamorfose, seus benefícios e suas consequências são detalhados em informações divulgadas pelo G1, que aborda o fenômeno da agroexportação peruana.</p><h2>A Revolução Agrícola no Deserto Peruano</h2><p>O pontapé inicial para o desenvolvimento da <b>indústria agroexportadora peruana</b> ocorreu na década de 1990, sob o governo do então presidente Alberto Fujimori. Naquele período, o país buscava reanimar sua economia, que havia sido severamente afetada por anos de crise e hiperinflação.</p><p>Conforme explicou César Huaroto, economista da Universidade Peruana de Ciências Aplicadas, à BBC Mundo, foram realizadas reformas profundas para <b>reduzir barreiras tarifárias</b>, promover o investimento estrangeiro e diminuir os custos administrativos para as empresas. O objetivo era impulsionar setores com potencial exportador.</p><p>Inicialmente, o foco estava na mineração, mas, no final do século, uma elite empresarial emergente percebeu o vasto potencial do setor de exportação agrícola. A agricultura em grande escala, no entanto, enfrentava obstáculos tradicionais, como a baixa fertilidade dos solos amazônicos e a complexa geografia andina.</p><h3>Inovação e Expansão: A Chave para o Sucesso</h3><p>A solução para os desafios agrícolas veio com o <b>investimento privado</b> e a inovação. Ana Sabogal, especialista em ecologia vegetal da Pontifícia Universidade Católica do Peru, destacou que grandes agricultores, menos avessos ao risco, facilitaram inovações técnicas cruciais.</p><p>Entre essas inovações, a <b>irrigação por gotejamento</b> e o desenvolvimento de ambiciosos projetos hídricos foram fundamentais. Essas tecnologias permitiram o cultivo em áreas desérticas, onde a agricultura era antes impensável, explorando as condições climáticas únicas, descritas como uma "estufa natural".</p><p>Huaroto ressaltou que, embora a região não tivesse água, com o recurso ela se tornou "muito fértil". Somado a inovações genéticas, como as que permitiram o cultivo local do <b>mirtilo</b>, o Peru incorporou grandes extensões de seu deserto costeiro à superfície cultivável, expandindo-a em cerca de 30%, segundo Sabogal.</p><p>Esse crescimento resultou em um "aumento surpreendente e enorme da agroindústria", segundo a especialista. Hoje, regiões como Ica e Piura, no norte do país, são importantes centros de <b>produção agrícola</b>, e a agroexportação se consolidou como um dos motores da economia peruana.</p><h3>O Impacto Ambivalente do Boom Agroexportador</h3><p>O impacto econômico e ambiental dessa expansão tem sido significativo e, ao mesmo tempo, ambivalente. A Associação de Exportadores (ADEX) indicou que as exportações agrícolas representaram <b>4,6% do Produto Interno Bruto (PIB) peruano em 2024</b>, um salto considerável em comparação com os 1,3% registrados em 2020.</p><p>Defensores do modelo destacam os benefícios econômicos, como o aumento de empregos qualificados e a melhoria da renda média dos trabalhadores, especialmente em áreas onde a informalidade predominava. César Huaroto, em seu estudo sobre o boom agroexportador, confirmou que a indústria "atuou como motor da economia local".</p><p>No entanto, esses benefícios não são distribuídos igualmente. Pequenos agricultores independentes enfrentam dificuldades crescentes para encontrar trabalhadores, devido aos salários mais altos oferecidos pelas grandes empresas, e também para acessar a água necessária para suas plantações.</p><p>A <b>agroexportação</b> parece estar alterando as formas tradicionais de trabalho no campo e reestruturando a propriedade em vastas áreas do Peru. Muitos pequenos proprietários, percebendo que suas terras já não são rentáveis, estão vendendo para grandes empresas, embora, paradoxalmente, alguns se mostrem satisfeitos pela indústria gerar empregos para seus familiares.</p><h3>A Crise da Água: O Calcanhar de Aquiles do Modelo Peruano</h3><p>Nos últimos anos, os benefícios da <b>produção de alimentos</b> para exportação têm sido crescentemente questionados, com a água sendo o principal alvo das críticas. Huaroto ressalta que, "em um contexto de escassez hídrica, em que uma parcela significativa da população do Peru não tem água encanada em casa, o debate em torno da indústria de exportação agrícola está cada vez mais intenso".</p><p>Em regiões áridas como Ica, onde praticamente não chove, a maior parte da água é obtida do subsolo. Enquanto muitos assentamentos humanos dependem de caminhões-pipa, grandes áreas de cultivo destinadas à exportação têm acesso garantido ao abastecimento por meio de poços próprios e prioridade na água de irrigação transposta da vizinha Huancavelica.</p><p>A ativista local Rosario Huayanca relatou à BBC que "em Ica está acontecendo uma disputa por água, porque não há para todos". Ela aponta que, embora seja proibido escavar novos poços, as grandes exportadoras frequentemente negam acesso aos fiscais da Autoridade Nacional de Água (ANA), alegando propriedade privada.</p><p>A ANA estabeleceu em 2011 um "processo rigoroso de vigilância e fiscalização" do aquífero subterrâneo de Ica, diante do "iminente problema de superexploração de águas subterrâneas". Contudo, o problema persiste, com pequenos agricultores relatando que, antes, bastava cavar cinco metros para encontrar água, mas agora são necessários até 100 metros de profundidade.</p><p>Os pequenos agricultores reclamam de pagar caro pela água, enquanto as grandes propriedades contam com reservatórios e sistemas de irrigação tecnologicamente avançados. Até mesmo a produção de uvas para o famoso pisco é questionada, com críticos argumentando que "se exporta a uva e seus derivados, está exportando água", como pontuou Ana Sabogal.</p><p>O desafio para Ica e para todo o <b>Peru agroexportador</b> é tornar o agronegócio sustentável a longo prazo, atendendo às necessidades da população. Huayanca adverte que "sem água, a economia vai entrar em colapso", e Sabogal conclui que a situação atual "não é sustentável a longo prazo", necessitando garantir água para a população e os ecossistemas.</p>"
}
“`

Tags

Compartilhe esse post