A proliferação descontrolada dos animais introduzidos pelo narcotraficante ameaça ecossistemas e a segurança, levando à controversa medida de eutanásia.
A Colômbia enfrenta um dilema ambiental complexo e perigoso, com uma população crescente de hipopótamos de Pablo Escobar, que se tornou uma ameaça real aos ecossistemas e à segurança pública. Estes animais, descendentes de apenas quatro indivíduos trazidos ilegalmente pelo narcotraficante nos anos 1980, multiplicaram-se exponencialmente na bacia do rio Magdalena.
O crescimento descontrolado levou o governo colombiano a tomar uma decisão drástica, anunciada pela ministra do Meio Ambiente, Irene Vélez, em 13 de abril. O plano inclui o sacrifício de 80 animais da espécie, uma medida vista como essencial para conter os impactos negativos e proteger a biodiversidade nativa do país.
A situação é um testemunho da herança inesperada e prejudicial deixada por Escobar, transformando uma excentricidade em um grave problema ecológico. A história e os detalhes dessa crise são complexos, conforme informações divulgadas pelo g1.
A herança inusitada de Pablo Escobar
Na década de 1980, no auge de seu poder, Pablo Escobar criou um zoológico particular em sua Fazenda Nápoles, trazendo diversas espécies exóticas, incluindo quatro hipopótamos. Após sua morte em 1993, a fazenda foi abandonada e a maioria dos animais foi realocada, mas os hipopótamos ficaram soltos.
Diferente de seu habitat natural na África, onde enfrentam predadores e períodos de seca, na Colômbia eles encontraram abundância de comida e água, sem “controladores naturais” de sua população, segundo o Instituto Humboldt. Essa ausência de predadores permitiu uma rápida proliferação.
O censo mais recente do Ministério do Meio Ambiente, de 2022, estimou a população em pelo menos 169 indivíduos. Sem uma política de controle, projeta-se que esse número possa chegar a mais de 500 até 2030, e ultrapassar mil em 2035, um crescimento alarmante.
A ameaça à biodiversidade e à vida humana
Desde 2022, os hipopótamos na Colômbia são classificados como uma espécie exótica invasora, representando uma grave ameaça aos ecossistemas locais. Por serem megaherbívoros, com mais de uma tonelada, eles consomem a vegetação nativa que serviria de alimento para outras espécies e alteram a paisagem com suas pegadas.
Além disso, a grande quantidade de excrementos que produzem contamina a água, afetando comunidades e colocando em risco espécies nativas como o peixe-boi e a tartaruga de rio, conforme explicou a ministra Irene Vélez. A presença dos hipopótamos desequilibra o ambiente aquático e terrestre.
Os animais também representam um perigo direto para os humanos. Considerados um dos mais agressivos do mundo, já foram registrados ataques a pessoas e perseguições dentro de corpos d’água. Um estudo de 2021 na revista Animals revelou que 87% dos encontros entre humanos e hipopótamos em Uganda, entre 1923 e 1994, foram fatais, ressaltando a gravidade do risco. Essa estatística sublinha o perigo iminente para as comunidades ribeirinhas.
O plano do governo colombiano: eutanásia e translocação
Para lidar com a crise, o governo colombiano anunciou um plano que prevê a redução da população em pelo menos 33 hipopótamos por ano, com um investimento de 7,2 bilhões de pesos colombianos, cerca de R$ 10 milhões. O plano inclui duas estratégias principais: a translocação, que é a realocação dos animais, e a eutanásia.
A translocação envolve a tentativa de levar os animais para zoológicos e santuários em outros países. Contudo, essa opção tem se mostrado desafiadora. O governo não obteve respostas positivas de outros países, possivelmente devido à “pobreza genética e possíveis danos genéticos” desses indivíduos, como apontou a ministra Vélez em entrevista à Blu Radio. A falta de diversidade genética dificulta a aceitação dos animais.
Diante das dificuldades e do alto custo do transporte, as autoridades optaram pela eutanásia de 80 hipopótamos. A ministra assegurou que a decisão segue recomendações de especialistas em biodiversidade e será realizada de forma “ética, segura e responsável”, com um protocolo técnico. Cada eutanásia custará cerca de 50 milhões de pesos colombianos, aproximadamente R$ 70 mil, sem incluir o enterro do corpo, que é necessário por razões de saúde pública.
Polêmica e o desafio de um problema complexo
A decisão de sacrificar os animais gerou controvérsia. A senadora e ativista pelos direitos dos animais, Andrea Padilla, classificou a medida como “simplista e cruel”. Em sua conta na rede X, ela afirmou que “nunca apoiará a matança de criaturas saudáveis”, responsabilizando o Estado pela situação.
Desde o início deste século, o governo colombiano tem tentado diversas estratégias para controlar a população de hipopótamos, incluindo o abate e a castração química. No entanto, todas as tentativas anteriores se mostraram ineficazes para conter o crescimento populacional, que continua a impactar negativamente o meio ambiente.
Com o novo plano, as autoridades esperam finalmente reverter esse cenário e mitigar os danos causados por essa manada única, a única que vive de forma selvagem fora do continente africano. A situação dos hipopótamos de Pablo Escobar permanece um desafio complexo, com implicações ecológicas, sociais e éticas significativas para a Colômbia. O sucesso do novo plano é crucial para o futuro ambiental da região.