Astrônomos observam nascer dois gigantes gasosos semelhantes aos de nosso sistema, oferecendo um vislumbre sem precedentes dos primórdios cósmicos e da fascinante formação planetária.
Uma equipe internacional de astrônomos alcançou um marco histórico, observando pela segunda vez na história a formação simultânea de dois planetas ao redor de uma estrela jovem. Este evento raro proporciona uma janela única para entender os primeiros estágios da criação de sistemas planetários.
A estrela em questão, batizada de WISPIT 2, possui um vasto disco de gás e poeira onde novos mundos estão emergindo. A estrutura deste sistema é tão similar aos modelos científicos do nosso próprio Sistema Solar em sua fase inicial que os pesquisadores o descreveram como a “melhor vista que temos, até agora, do nosso próprio passado”.
Essa fascinante revelação, que nos ajuda a compreender como era o Sistema Solar há 4,5 bilhões de anos, foi publicada recentemente na revista científica “The Astrophysical Journal Letters”, conforme informação divulgada pelo G1.
Um Vislumbre Direto do Passado do Nosso Sistema Solar
O sistema WISPIT 2 se destaca por sua semelhança com o que se acredita ter sido o nosso Sistema Solar primordial. Ao redor da estrela, um enorme redemoinho de material está se aglomerando, formando planetas. Esta observação é crucial para testar e refinar as teorias sobre a formação planetária.
“O WISPIT 2 é a melhor vista que temos, até agora, do nosso próprio passado”, afirmou Chloe Lawlor, doutoranda da Universidade de Galway, na Irlanda, e autora principal do estudo. Ela ressalta a importância de estudar sistemas tão jovens para compreender a evolução cósmica.
A complexidade do disco ao redor de WISPIT 2, com anéis e lacunas bem definidos, sugere uma intensa atividade de formação. Diferente do único caso anterior de observação direta de dois planetas nascendo, o sistema PDS 70, WISPIT 2 apresenta uma estrutura muito mais ampla e detalhada.
A Rara Observação de Planetas Gêmeos de Júpiter
A descoberta dos dois planetas em WISPIT 2 é um evento de extrema raridade na astronomia. Apenas uma vez antes, no sistema PDS 70, cientistas haviam conseguido flagrar dois mundos nascendo simultaneamente, mas o novo sistema oferece uma visão ainda mais rica e promissora.
“O WISPIT 2 proporciona-nos um laboratório perfeito para observar não apenas a formação de um planeta individual, mas também a de um sistema planetário completo“, declarou Christian Ginski, coautor do estudo e pesquisador da Universidade de Galway. Essa visão abrangente é fundamental para a ciência.
O primeiro planeta, chamado WISPIT 2b, já havia sido identificado no ano anterior. Com uma massa quase cinco vezes maior que a de Júpiter, ele orbita a estrela a uma distância equivalente a aproximadamente 60 vezes a separação entre a Terra e o Sol.
A confirmação do segundo planeta, WISPIT 2c, veio após a detecção de indícios próximos à estrela. A equipe utilizou instrumentos avançados do Observatório Europeu do Sul (ESO), como o SPHERE, acoplado ao Very Large Telescope (VLT), para uma imagem direta.
O GRAVITY+, ligado ao Interferômetro do VLT, foi essencial para confirmar a natureza planetária do objeto. WISPIT 2c se revelou duas vezes mais massivo que WISPIT 2b e orbita a estrela quatro vezes mais próximo. Ambos são gigantes gasosos, semelhantes a Júpiter e Saturno no nosso Sistema Solar.
“O nosso estudo utilizou a recente atualização GRAVITY+, sem a qual não teríamos conseguido obter uma detecção tão clara de um planeta tão próximo da sua estrela”, explicou Guillaume Bourdarot, pesquisador do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, na Alemanha, e coautor do trabalho.
A Hipótese de um Terceiro Planeta em Formação
A formação de planetas começa com o agrupamento de poeira e gás em um disco protoplanetário. À medida que essas partículas se aglomeram, elas atraem mais matéria por gravidade, crescendo em um protoplaneta. Esse processo cria lacunas e anéis no disco, que são visíveis aos telescópios.
No sistema WISPIT 2, os astrônomos identificaram dois espaços vazios, cada um ocupado por um planeta em formação, cercados por anéis de poeira bem definidos. Essa configuração é um manual vivo de como os mundos se organizam em um sistema planetário.
Além dos locais onde WISPIT 2b e WISPIT 2c foram encontrados, uma terceira lacuna foi observada no disco, ainda mais distante da estrela e com dimensões menores. Essa descoberta aponta para a possível existência de um novo mundo.
“Suspeitamos que exista um terceiro planeta em formação nesse espaço”, disse Lawlor. Ela acrescentou que, “possivelmente com a massa de Saturno, dado que o espaço é mais estreito e menos profundo”, indicando uma massa menor para este potencial novo gigante.
A equipe de pesquisa planeja investigar essa região com maior detalhe. Com a ajuda do futuro Extremely Large Telescope (ELT) do ESO, que está sendo construído no deserto chileno do Atacama, os cientistas esperam obter imagens diretas desse provável terceiro planeta, aprofundando ainda mais nossa compreensão sobre a formação do Sistema Solar.