Novo elo do caso Jeffrey Epstein com o Brasil: documentos revelam ‘grande grupo brasileiro’ e visitas de parceiro para recrutar modelos

Descobertas chocantes em depoimentos ao FBI e registros de viagem de Epstein apontam para conexões profundas e investigações em curso sobre tráfico humano.

Novos documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelam uma conexão intrigante entre o bilionário criminoso sexual Jeffrey Epstein e o Brasil. Entre milhares de arquivos tornados públicos, um depoimento ao FBI menciona um “grande grupo brasileiro”, levantando sérias questões sobre a extensão da rede de Epstein e seu alcance internacional.

Os documentos, que incluem anotações manuscritas de entrevistas e registros de investigações, detalham relatos de possíveis vítimas de abuso sexual e tráfico de mulheres e meninas. A divulgação dessas informações ocorre após uma determinação do Congresso americano, trazendo à tona detalhes que podem indicar um envolvimento brasileiro mais direto no escândalo.

Além da menção a um “grande grupo brasileiro”, os arquivos também fazem referência a uma modelo que “acabou de vir do Brasil” e detalham a visita de Jean-Luc Brunel, parceiro de Epstein, ao país para recrutar jovens. As revelações, conforme informações divulgadas pela BBC News Brasil, reacendem o debate sobre a necessidade de investigar a fundo essas conexões.

A misteriosa menção a um “grande grupo brasileiro”

Uma das descobertas mais impactantes nos novos documentos é a citação a um “grande grupo brasileiro” em anotações manuscritas de uma entrevista do FBI, datada de 2 de maio de 2019. O depoimento faz parte de um conjunto vasto de materiais que investigam os abusos sexuais e o tráfico de mulheres e meninas atribuídos a Jeffrey Epstein.

Os registros indicam que o conteúdo da entrevista aborda indivíduos que poderiam ter sido levados como potenciais vítimas para encontros sexuais, incluindo menores de idade. A BBC News Brasil identificou a frase “Amigos de amigos [informação tarjada]. Grande grupo brasileiro” no texto, embora grande parte do material esteja tarjada, dificultando a identificação de pessoas ou o contexto completo.

O documento também revela as preferências de Epstein, citado como “JE”. Ele teria imposto critérios rigorosos sobre as meninas que lhe eram apresentadas, afirmando que não queria “spanish or dark girls”, ou seja, “garotas latinas ou de pele escura”. Em um trecho, as anotações descrevem alguém de “pele mais escura” e “aparência amazônica”, que teria sido “trazida no final, em momento de desespero”, quando estavam “ficando sem garotas”.

Outra anotação lateral no mesmo documento descreve uma pessoa que “teria acabado de vir do Brasil” e “era modelo”. Epstein, segundo o relato, “realmente estava apaixonado por ela” e “talvez tenha falado em fazer um esboço ou pintura”. Informações adicionais sugerem que ela estaria “vivendo com a mãe aos 13, saiu de casa aos 14”, indicando a possível menoridade da jovem.

As legendas de fotos nos arquivos também mencionam uma “festa brasileira” e um “desfile brasileiro”, embora as tarjas impeçam a identificação dos locais ou dos participantes. A preferência de Epstein por menores é reforçada por um trecho onde ele “queria se certificar de que tinham menos de 18 anos porque não estava acreditando nelas”, após incidentes com garotas mais velhas.

Jean-Luc Brunel e a busca por modelos no Brasil

Além das menções diretas nos documentos recém-divulgados, o caso Epstein já tinha um elo conhecido com o Brasil através de Jean-Luc Brunel, ex-agente de modelos francês e parceiro de Epstein. Brunel, também acusado de tráfico de mulheres, foi encontrado morto na prisão em Paris em 2022, onde estava detido por acusações de assédio sexual e estupro de jovens.

Documentos da Justiça dos Estados Unidos indicaram que Brunel recrutava garotas para Epstein, prometendo-lhes contratos no mundo da moda e as transportando da França para os EUA. Reportagens do jornal britânico The Guardian e da Agência Pública, publicadas em 2019, relataram que Brunel esteve no Brasil naquele ano com o objetivo de “encontrar novas modelos para levar aos Estados Unidos”.

O The Guardian mencionou que, em uma visita a um apartamento de Brunel em Miami, uma jovem brasileira que se identificou como modelo para a agência MC2, cofundada por Brunel e financiada por Epstein, atendeu à porta. A reportagem da Agência Pública, por sua vez, divulgou uma foto de Brunel em 2019 na Mega Model Brasília, com uma legenda que indicava um “casting para levar os nossos modelos para Nova Iorque”.

A presença de Brunel no Brasil, especificamente em agências de modelos, reforça a hipótese de que a rede de recrutamento de Epstein tinha ramificações no país. Sua visita, à época, gerou preocupações e levantou alertas sobre a vulnerabilidade de jovens que sonham com uma carreira internacional na moda.

A defesa da agência Mega Model Brasília

Em resposta às reportagens e às menções nos documentos, Nivaldo Leite, diretor da Mega Model Brasília, afirmou à BBC News Brasil que Jean-Luc Brunel “apenas foi na agência fazer uma visita e conhecer nossa estrutura”. Ele garantiu que nenhum modelo da agência viajou ou manteve contato com Brunel após a visita, enfatizando que ele próprio cuida dos agenciamentos internacionais.

A Mega Model Brasil, em nota enviada à BBC, declarou que “jamais manteve qualquer relação comercial, parceria ou vínculo com Jean-Luc Brunel ou Jeffrey Epstein”. A agência argumenta que sua menção nos documentos liberados pelo FBI, na verdade, comprova seu “rigoroso sistema de ética e proteção”, pois eles teriam se recusado a assinar contratos com a MC2, agência de Brunel.

Segundo a Mega Model, Brunel teria utilizado a Mega Partners, braço de parcerias da agência brasileira, como um exemplo de “perda de negócios” e rejeição por parte do mercado em um processo judicial na Flórida. Um e-mail de 17 de outubro de 2014, anexado ao processo, mostraria que a Mega Model havia interrompido qualquer contato com a MC2 Models devido às denúncias de tráfico sexual e condutas ilícitas contra Brunel e Epstein.

A agência reitera seu compromisso com a integridade do mercado da moda, buscando esclarecer os fatos e refutar interpretações que consideram descontextualizadas. A nota da Mega Model busca posicionar a empresa como uma entidade que ativamente se protegeu e protegeu seus agenciados das suspeitas que pairavam sobre os envolvidos no esquema.

Investigações no Brasil e destinos de viagem de Epstein

Diante das novas revelações, a BBC News Brasil questionou o governo brasileiro sobre possíveis iniciativas para identificar brasileiros envolvidos no caso Epstein. O Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Itamaraty direcionaram a demanda à Polícia Federal, que, por sua vez, informou que “não se manifesta sobre investigação em curso”.

Apesar da cautela das autoridades federais, o Ministério Público Federal (MPF) já está investigando uma possível conexão do Brasil com a rede de Jeffrey Epstein. Essa investigação é crucial para determinar a extensão do envolvimento de cidadãos brasileiros, seja como vítimas ou como facilitadores, no esquema criminoso.

Os arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça americano também incluem uma montagem que lista o Brasil como um dos destinos de viagem de Epstein. Essa informação, somada às menções no depoimento ao FBI e à visita de Jean-Luc Brunel, fortalece a hipótese de que o país era parte da rota ou do interesse do bilionário e sua rede de tráfico sexual.

A complexidade e a gravidade do caso exigem uma investigação aprofundada, com colaboração internacional, para que todas as conexões sejam desvendadas e a justiça seja feita para as vítimas. As novas evidências reforçam a necessidade de vigilância e proteção contra redes de tráfico humano que operam globalmente.

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