De um simples funcionário escolar a um aclamado vencedor do Oscar, a trajetória de Pavel Talankin inspira ao expor a propaganda de guerra de Putin e os riscos da verdade.
Pavel Talankin, conhecido por amigos como Pasha, era um coordenador de eventos e videomaker em uma escola primária na remota Karabash, uma das regiões mais poluídas da Rússia. Sua vida discreta mudou radicalmente quando se viu forçado a documentar a máquina de propaganda de guerra do presidente Vladimir Putin.
Em menos de dois anos, esse homem, que nunca havia saído da Rússia antes de se exilar em 2024, transformou-se em um herói improvável e, mais recentemente, em um vencedor do Oscar. Sua história é contada no documentário “Mr Nobody Against Putin”, da BBC.
No último domingo, dia 15 de março de 2026, Pasha foi premiado com a estatueta de Melhor Documentário, um reconhecimento global de sua coragem e de sua luta pela verdade, conforme informações divulgadas pelo G1.
A Ascensão de um “Zé Ninguém” ao Pódio de Hollywood
Antes de sua vitória no Oscar, Pavel Talankin já desfrutava de uma nova fama, tirando selfies com grandes nomes de Hollywood, incluindo Leonardo DiCaprio e Ethan Hawke. Ele se exilou no verão de 2024, deixando sua casa nas montanhas dos Montes Urais por questões de segurança, após se opor discretamente à máquina de guerra do Kremlin.
Em Los Angeles, antes da cerimônia, Pasha demonstrou seu humor sardônico ao ser questionado sobre a experiência com as celebridades. “Eles são apenas pessoas normais como todos nós”, disse ele. Sua principal preocupação com o Oscar, antes da vitória, era o peso da estatueta. “Quanto ela pesa?”, perguntou, revelando uma curiosidade genuína sobre as falsificações chinesas de plástico que não pesam nada.
A estatueta pesa 3,86 kg, um detalhe que ilustra o tipo de humor que o diretor David Borenstein, que colaborou com Pasha, descreve como uma forma de lidar com as adversidades. “Pasha obviamente usou o humor como uma forma de lidar com o que estava acontecendo ao redor dele”, disse Borenstein, acrescentando que o humor é uma ferramenta comum para enfrentar o autoritarismo.
O Documentário que Desvendou a Propaganda de Guerra Russa
O documentário da BBC acompanha a história de Pasha a partir da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em 2022. Seu trabalho na escola, que antes envolvia filmar videoclipes e cerimônias de formatura, foi subitamente alterado por ordens do Kremlin, que introduziram mais patriotismo, militarização e dever na vida escolar, incluindo cerimônias de hasteamento da bandeira.
Pasha recebeu instruções para filmar e enviar provas de que a escola estava obedecendo ao novo currículo. Ele percebeu que isso o tornava “uma espécie de fiscal dos professores”, forçando-os a seguir as diretrizes do governo. Foi nesse momento que ele decidiu se rebelar, assumindo um grande risco pessoal.
Ele começou a enviar suas filmagens para David Borenstein, na Dinamarca, utilizando servidores criptografados. “Naqueles segundos eu fui movido pela raiva”, recordou Talankin. “Eu realmente não me importava. Pensei: que qualquer pessoa faça isso, que qualquer pessoa mostre esse filme, que qualquer pessoa o edite. O principal é que ele exista, para mostrar o que está acontecendo.”
Borenstein enfatizou a importância do filme: “Nós achávamos muito importante que o mundo visse que Vladimir Putin obviamente não tem intenção de parar apenas na Ucrânia… Ele está dizendo às crianças da Rússia todos os dias que elas precisam se preparar para um futuro de guerra e de império.” O filme mostra soldados do grupo mercenário Wagner ensinando crianças a identificar minas e manusear armas, além de professores doutrinando alunos sobre a “desnazificação” da Ucrânia.
Atos de Resistência e o Preço da Coragem
O documentário também registra os atos de resistência de Pasha. Com um espírito brincalhão, ele transformou os símbolos pró-guerra “Z” nas janelas da escola em “X” e removeu a bandeira russa enquanto tocava alto o hino nacional dos Estados Unidos cantado por Lady Gaga. Ele enfrentou o regime, mas se recusa a aceitar que é corajoso.
“Não”, disse ele, “isso é apenas normal”. No entanto, David Borenstein discorda. “Eu o descreveria como alguém muito corajoso, alguém que sente emoções de forma muito, muito intensa, alguém que realmente se importa profundamente com a verdade e alguém que realmente, realmente, realmente ama seu aniversário.”
Para os cineastas fora da Rússia, proteger Pasha e as pessoas no filme de represálias era a prioridade máxima. Borenstein explicou que tinham uma longa lista de protocolos de segurança, pois sabiam dos riscos. “Líamos notícias sobre professores, sobre pessoas na Rússia que receberam longas penas de prisão, não por trabalharem com estrangeiros, mas simplesmente por desrespeitar a bandeira russa, que é uma coisinha pequena que ele fez no filme.”
“Estávamos com medo. Ele não estava com medo”, afirmou Borenstein.
O Exílio e a Esperança de um Retorno
No final, a situação de Pasha se tornou insustentável. Ao ver um carro da polícia perto de seu apartamento, percebeu que era hora de fugir. No filme, um produtor que fala russo o orienta: “Antes de atravessar a fronteira, você deve apagar nosso aplicativo de mensagens seguro.” Ele também o instruiu a ser cuidadoso com as filmagens e a manter a calma.
Pavel Talankin deixou sua terra natal e sua mãe, e agora vive em um local não divulgado na Europa. Apesar da distância, ele mantém a esperança de um retorno. “Quando o regime cair, eu planejo voltar e ser útil”, declarou.
Por enquanto, seu foco é garantir que o filme “Mr Nobody Against Putin” seja visto pelo maior número de pessoas possível. Ele sabe que o documentário já chegou a Karabash, sua cidade natal, onde foi gravado e compartilhado digitalmente após sua estreia no Sundance Film Festival.
Talankin espera que o filme mostre aos russos “que pensam de forma semelhante a mim que não estão sozinhos”. O custo pessoal de sua luta é imenso. Durante um encontro em Santa Monica, ele compartilhou uma notícia devastadora: “Hoje descobri que um dos meus alunos morreu.” Nikita, de 19 anos, foi morto na Ucrânia. “Eu o conhecia. É um rapaz bondoso e ele nunca teria ido sem a propaganda”, lamentou Pasha, evidenciando a tragédia humana por trás da propaganda de guerra.