Instabilidade geopolítica e a ascensão das ‘frotas fantasmas’ expõem milhares de marinheiros a condições precárias e falta de pagamento em uma crise global.
Um fenômeno preocupante tem ganhado força nos oceanos do mundo: o aumento significativo de navios abandonados por seus proprietários. Petroleiros e outras embarcações comerciais são deixados à deriva ou em portos, transformando-se em prisões flutuantes para suas tripulações.
Essa escalada reflete uma complexa teia de fatores, que vão desde a instabilidade geopolítica global até o surgimento de enigmáticas “frotas fantasmas”. O impacto humano é devastador, deixando milhares de marinheiros em situações de extrema vulnerabilidade, sem salários, comida ou a possibilidade de voltar para casa.
A crise atingiu um pico alarmante em 2025, com um crescimento expressivo no número de casos, conforme informações divulgadas pelo G1.
O Drama Humano e a Vida a Bordo dos Navios Abandonados
A realidade de Ivan, um funcionário sênior de convés, ilustra o pesadelo vivido por muitos. Preso em um petroleiro abandonado nas águas internacionais próximas à China, ele descreveu à BBC a dura rotina de privações. “Houve falta de carne, grãos, peixe, coisas simples para a sobrevivência”, relatou o marinheiro russo, em uma tradução de sua fala.
Ele acrescentou que “isso afetou nossa saúde e o clima operacional a bordo. A tripulação estava com fome, a tripulação estava com raiva, e tentávamos sobreviver apenas dia após dia.” O navio, avaliado em cerca de US$ 50 milhões (R$ 260 milhões), estava carregado com petróleo russo e foi dado como abandonado em dezembro de 2025, após a tripulação passar meses sem receber salários.
A International Transport Workers’ Federation (ITF), uma federação sindical internacional, interveio para garantir os pagamentos atrasados e o envio de suprimentos essenciais. Este não é um caso isolado: em 2016, apenas 20 navios foram abandonados, mas em 2025, esse número saltou para 410, afetando 6.223 marinheiros mercantes, um aumento de quase um terço em relação a 2024.
Geopolítica e a Ascensão das ‘Frotas Fantasmas’
A instabilidade geopolítica global é apontada como um dos principais motores desse aumento alarmante. Conflitos em diversas regiões e os impactos persistentes da pandemia de COVID-19 desorganizaram as cadeias de suprimentos e causaram grandes flutuações nos custos de frete, levando muitas empresas à beira da falência e ao abandono de suas embarcações.
Contudo, a ITF destaca a crescente influência das “frotas fantasmas” como um fator crucial. Esses navios abandonados, em sua maioria petroleiros, são frequentemente embarcações antigas, com proprietários de identidade obscura, e muitas vezes operam em condições precárias, sem seguros adequados e com práticas perigosas.
O principal objetivo dessas frotas é operar fora da fiscalização, permitindo que países como Rússia, Irã e Venezuela exportem petróleo bruto, burlando sanções ocidentais. Após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022, a Rússia enfrentou sanções que limitaram o preço de seu petróleo, buscando então compradores como China e Índia, embora esta última tenha recentemente se comprometido a cessar as compras.
Bandeiras de Conveniência: Um Escudo para Abusos
Um elemento central para a operação dessas frotas são as Bandeiras de Conveniência (FOCs, na sigla em inglês). Usadas há mais de um século, essas bandeiras permitem que proprietários de navios contornem leis e regulamentações de seus países de origem. Nos anos 1920, por exemplo, era comum que navios americanos registrassem-se no Panamá para driblar a Lei Seca e vender álcool a bordo.
Atualmente, Panamá, Libéria e Ilhas Marshall são os principais Estados de bandeira de conveniência, representando 46,5% de todos os navios mercantes em termos de tonelagem. No entanto, a Gâmbia emergiu como um novo e surpreendente ator: de nenhum petroleiro registrado em 2023, o país passou a abrigar 35 dessas embarcações em março de 2024, atraído pelas taxas significativas oferecidas.
A ligação entre as FOCs e os navios abandonados é inegável. Em 2025, 82% dos casos de abandono, ou 337 embarcações, navegavam sob bandeiras de conveniência. A Organização Marítima Internacional (IMO) define um marinheiro como abandonado quando o armador falha em arcar com sua repatriação, deixa-o sem suporte essencial ou rompe o vínculo, incluindo a falta de pagamento de salários por dois meses. O secretário-geral da ITF, Stephen Cotton, afirmou à BBC que “o abandono não é um acidente”, ressaltando a premeditação por trás desses atos.
Desafios e Soluções para Proteger os Marinheiros
As consequências financeiras para os marinheiros são severas. Em 2025, as tripulações abandonadas tinham, juntas, US$ 25,8 milhões em salários atrasados, segundo dados da IMO e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A ITF conseguiu recuperar e devolver quase dois terços desse montante, o equivalente a US$ 16,5 milhões, um esforço crucial para aliviar a situação.
A Índia foi a nacionalidade mais afetada em 2025, com 1.125 marinheiros abandonados, representando 18% do total. Filipinos (539) e sírios (309) também registraram números elevados. Em resposta, o governo indiano tomou medidas enérgicas, colocando 86 embarcações estrangeiras em uma lista negra por abandono e violações de direitos, muitas das quais tinham proprietários impossíveis de rastrear.
Mark Dickinson, secretário-geral do sindicato Nautilus International, criticou os Estados que oferecem bandeiras de conveniência por uma “completa abdicação de responsabilidade”. Ele defende a necessidade de um “vínculo genuíno entre os proprietários dos navios e as bandeiras sob as quais eles navegam”, um requisito do direito marítimo internacional que carece de uma definição prática universal.
Para marinheiros como Ivan, a experiência serve de lição. Ele planeja ser muito mais cauteloso ao escolher futuros empregos, buscando informações sobre as condições da embarcação, pagamento e provisões, e consultando listas de navios sob sanções ou proibidos. A complexidade das “frotas fantasmas” e o papel que desempenham na cadeia de suprimentos de petróleo russo exigem uma cooperação internacional mais robusta para proteger esses trabalhadores essenciais dos riscos inerentes ao serviço marítimo.