De Bauru a Brasília, o pedagogo em situação de rua Rafael Campos defende uma participação ativa na assistência social, clamando por voz direta na construção de políticas públicas.
Rafael Andrade Campos, um pedagogo de 35 anos que vive em situação de rua em Bauru, São Paulo, tornou-se um símbolo da luta por inclusão e dignidade. Ele foi o primeiro morador em situação de rua de sua cidade a participar da Conferência Nacional de Assistência Social, realizada em Brasília, além de representar Bauru na etapa estadual em Jaú.
Sua voz ressoa com uma mensagem clara: as pessoas em situação de rua não devem ser meros receptores de ajuda, mas sim protagonistas na elaboração e execução de políticas públicas que realmente atendam às suas necessidades. Rafael defende uma mudança radical na lógica assistencialista, buscando construir soluções em pé de igualdade.
A experiência de Rafael nas conferências nacional e estadual, conforme divulgado pelo g1, destaca a urgência de ouvir quem vive a realidade da vulnerabilidade para criar um sistema de assistência social mais justo e eficiente.
A Voz dos Usuários na Assistência Social
A principal proposta de Rafael é a criação de um Fórum de Usuários. Este espaço permitiria que as pessoas atendidas pela assistência social pudessem opinar diretamente sobre os serviços oferecidos, garantindo que o dinheiro público seja aplicado de forma mais inteligente e direcionada aos problemas reais.
Ele exemplifica a importância dessa escuta ativa: "Enquanto algumas pessoas discutiam colocar ar-condicionado em unidades de atendimento, a gente estava pedindo computadores. O que mais precisamos é acesso a informação para procurar emprego, estudar, resolver documentos. Ouvindo a gente, o dinheiro pode ser melhor aplicado", explica.
Rafael reforça que a luta vai além da sobrevivência. "Não queremos só sobreviver. A gente quer participar, trabalhar, estudar e ser tratado como cidadão", afirma, sublinhando a necessidade de uma participação ativa na assistência social para a plena cidadania.
Da Academia à Vulnerabilidade: A Trajetória de Rafael
A jornada de Rafael até a situação de rua começou há poucos meses, mas a vulnerabilidade já o acompanhava há anos. Ele relata que a pandemia foi um marco, com a perda do pai e o desaparecimento da mãe no ano passado. "Tudo isso mexeu muito comigo. Eu moro sozinho, não tenho pai nem mãe próximos, fiquei meio perdido e acabei entrando nessa situação de vulnerabilidade", conta.
Antes disso, sua trajetória era marcada pela formação acadêmica. Rafael é graduado em Pedagogia por uma universidade particular de Bauru, obtendo sua bolsa pelo Prouni, utilizando a nota do Enem. Além disso, sempre esteve ligado à área de humanas e comunicação, tendo tocado na Banda Municipal de Bauru e feito um curso técnico em artes gráficas no Senai.
Foi ao ser atendido pelo albergue do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac) que assistentes sociais notaram seu perfil e o incentivaram a se engajar. "Não foi um convite direto. Teve uma votação municipal e eu fui eleito. Depois, veio a estadual, outra votação, e eu passei também. Quando falaram que eu iria representar, pensei: ‘Se estão me mandando, vou me esforçar e fazer direito’", lembra. A assistente social Jaqueline Fontanezzi, do Ceac, ressalta a importância da representação: "A necessidade da população em situação de rua precisa ser dita pela própria população em situação de rua. E o Rafael tem esse perfil. Não poderia ter pessoa melhor para representar esse público".
Impacto e Experiência em Brasília
Para Rafael, a Conferência Nacional foi uma experiência transformadora, marcada pela integração entre usuários, técnicos e gestores, exatamente o que ele defende. "Eu achei muito importante, porque não eram só especialistas falando. Tinha gente que vive isso na prática. Quando ouvem a gente de verdade, tudo muda", descreve.
Ele também valoriza a troca de experiências com pessoas de diferentes realidades, incluindo comunidades ribeirinhas e pessoas neurodivergentes. Estar em Brasília representou um privilégio e uma grande responsabilidade. "Foi uma honra, mas também um compromisso. Eu pensei: ‘Já que estou aqui, preciso fazer valer essa oportunidade e representar bem quem vive isso todo dia’", explica.
Com os olhos no futuro, Rafael planeja implementar o Fórum de Usuários em Bauru e reconstruir sua própria vida. "Minha primeira meta é cumprir essa responsabilidade no município. Pessoalmente, estou focado em passar em um concurso público na área da educação", revela. Ele destaca que, apesar do bom currículo, enfrenta preconceito ao buscar vagas em escolas particulares. "Quando mando currículo e veem que estou em situação de rua, muita gente pensa: ‘Uma pessoa moradora de rua vai dar aula para meus filhos?’. Existe essa barreira. No concurso público, se eu passar na prova, não tem isso. É uma forma de quebrar o preconceito e recomeçar", finaliza, mostrando a resiliência em sua jornada por uma participação ativa na assistência social e na sociedade.