Mais de 50 anos de reinado: as rainhas que fazem história à frente das baterias
O posto de rainha de bateria na Sapucaí é um dos mais cobiçados do carnaval, mas sustentar essa coroa por uma década ou mais é para pouquíssimas. Quatro mulheres se destacam por sua longevidade e impacto, atravessando gerações e modas para se tornarem referências absolutas. Elas somam, juntas, mais de 50 anos à frente das baterias, um feito que não vale nota, mas que faz a avenida parar.
Essas figuras emblemáticas, Bianca Monteiro da Portela, Evelyn Bastos da Mangueira, Sabrina Sato da Vila Isabel e Viviane Araújo do Salgueiro, personificam a paixão e a identidade do carnaval do Rio. Elas representam a força, a tradição e a evolução do samba, sendo aplaudidas por sua entrega e conexão com suas escolas e com o público.
As rainhas compartilham suas trajetórias, a importância da identidade e a complexidade da competição, revelando o que significa reinar na Sapucaí, conforme informações divulgadas pelo G1.
Trajetórias de Paixão e Identidade no Samba
Bianca Monteiro, rainha da Portela, conhece cada detalhe do chão azul e branco. Foram 16 anos como passista antes de assumir a frente da bateria em 2017, ano em que a escola conquistou o título. “Eu peguei uma Portela muito desacreditada. Quando estreei, joguei isso para o universo. E o universo me deu esse presente”, lembra Bianca.
Para ela, ser rainha de bateria vai muito além da fantasia. “A rainha é mensageira. Ela fala por uma comunidade inteira. Para quem vem da comunidade, isso tem um peso muito maior”, explica, enfatizando a responsabilidade e o orgulho de representar sua escola.
No Morro da Mangueira, Evelyn Bastos nasceu e cresceu. Filha de rainha, ela carrega no corpo e no samba a identidade da escola. “É o retrato da mulher negra que sobe e desce o morro todos os dias, que vive sua rotina, mas que no carnaval coloca a coroa e reina no maior palco a céu aberto do mundo”, descreve Evelyn.
A conexão de Evelyn com a bateria é uma experiência física e energética. “Quero que o público sinta alguma coisa quando me vê. Arrepio, emoção, felicidade. O meu corpo manifesta o som de mais de 250 ritmistas”, revela, transmitindo a intensidade de sua performance na Sapucaí.
De Penápolis ao Salgueiro: A Adoção pelo Samba
Sabrina Sato, da Vila Isabel, cresceu em Penápolis, São Paulo, assistindo ao carnaval pela televisão. Sem raízes sambistas na família, ela encontrou na Vila um lar. “Eu me sinto uma filha adotiva da Vila. Pisei naquele chão com muito respeito. O samba não tem preconceito, e a minha história prova isso”, afirma.
De ascendência japonesa, Sabrina se sente plenamente abraçada pela escola. “A bateria é o coração da escola. A rainha está ali para colorir ainda mais esse coração”, compara, mostrando sua profunda ligação com o ritmo e a comunidade da Vila Isabel.
Conhecida como a “rainha das rainhas”, Viviane Araújo ostenta um apelido que nasceu na bateria do Salgueiro e nunca mais a deixou. Mesmo não sendo da comunidade, ela construiu uma relação de pertencimento baseada em respeito. “É entender o lugar que você ocupa. Respeitar quem é dali e saber que você também é respeitada”, pontua Viviane.
Aos 50 anos, Viviane enfrenta comentários sobre a idade com a mesma firmeza que encara a avenida. “Tem gente que diz que já está na hora de parar. Eu vou parar quando eu quiser”, declara, reafirmando sua autonomia e paixão pelo carnaval e pelo Salgueiro.
Muito Além da Estética: A Essência da Rainha
Nenhuma dessas rainhas é julgada oficialmente. A fantasia da rainha não entra no quesito fantasia, mas poucas figuras mobilizam tanto o público quanto elas. Para as quatro, o segredo reside na conexão direta com a bateria e com quem as assiste na Sapucaí.
“Não é sobre perfeição. É sobre segurança. Ser rainha é estar segura do seu corpo e do seu lugar”, diz Bianca, ressaltando a importância da autoconfiança. A pressão estética é real e intensificada pelas redes sociais, mas não define o posto.
“A perfeição é subjetiva. O que é perfeito pra mim pode não ser pra você”, resume Evelyn, abordando a diversidade de belezas. Sabrina compara a função a de um atleta sob pressão. “Você não pode ouvir tudo. Tem que seguir o coração, lembrar do que é importante e respeitar quem veio antes”, aconselha.
União e Respeito: A Pluralidade no Coração da Sapucaí
Na competição, cada rainha de bateria defende sua escola com garra. Fora dela, prevalece a admiração e a troca. “A gente quer ganhar pela nossa escola, mas se admira de verdade. Cada uma tem seu jeito, sua identidade”, afirma Viviane, destacando o respeito mútuo.
Sabrina concorda, enfatizando a beleza da diversidade. “O mais bonito do carnaval é que nenhuma rainha é igual à outra. Isso é beleza na pluralidade”, pontua. Bianca resume o espírito coletivo: “Cada uma tem sua identidade. O gostoso do samba é isso.”
Evelyn completa, reforçando a importância do apoio entre elas. “Eu aprendi que não posso avançar sozinha. A gente precisa aplaudir umas às outras para ser digna de aplauso também”, finaliza, mostrando a união que transcende a rivalidade na Sapucaí.