Seca Extrema na Foz do Rio Amazonas Deixa Comunidades Isoladas e Alerta para Mudanças Climáticas no Bailique
As comunidades ribeirinhas do arquipélago do Bailique, localizadas em Macapá, Amapá, encontram-se novamente isoladas. Um ano após um mutirão para desobstruir o Canal do Livramento, a seca e o assoreamento na foz do Rio Amazonas voltaram a impedir o tráfego de embarcações, essenciais para a vida diária dos moradores.
A situação é crítica para os Ribeirinhos no Amapá, que dependem dos barcos para acessar escolas, hospitais, pescar e trabalhar. A recorrência do problema, que se agrava durante a estiagem, impede que a maré suba o suficiente, tornando o canal estreito e intransitável para a maioria das embarcações.
Vídeos feitos por moradores, divulgados pelo g1, mostram áreas que antes eram cobertas pelo rio agora transformadas em lama e vegetação, evidenciando a gravidade da seca. Apenas barcos pequenos, como as rabetas, conseguem se aproximar em marés mais altas, conforme informações do g1.
O Drama do Isolamento e a Luta por Passagem no Bailique
O impacto na vida dos Ribeirinhos no Amapá é profundo. Comunidades como Ponta da Esperança, Capinal, Arraio, Livramento, Ilha das Marrequinhas, Equador, Campos do Jordão, Maranata, Igaçaba, Ponta do Bailique, Igarapé do Meio, Franquinho, Macedônia, Progresso e Freguesia são diretamente afetadas por essa realidade.
Zeth Serges, moradora do Livramento, uma das áreas mais críticas, relatou ao g1 a dificuldade de escoar a produção. “Já vi famílias com caixas de peixe que não conseguiam passar. Às vezes, precisam deixar tudo na praia. O mesmo acontece com barcos cheios de melancia ou banana, que ficam presos e não chegam a Macapá”, destacou.
A área mais afetada pela seca, no Livramento, alcança uma extensão de seis quilômetros. Esse cenário de bloqueio impede o fluxo de bens essenciais e a conexão dos moradores com a capital, Macapá, intensificando o isolamento e as dificuldades diárias.
Ações de Dragagem e Ajuda Humanitária para os Ribeirinhos
Em resposta à crise, o secretário de Transportes do Amapá, Marcos Jucá, informou que equipes com dragas estão trabalhando desde o ano passado para alargar o canal e remover sedimentos. Ele enfatizou que o fenômeno nunca havia sido registrado com essa intensidade no Bailique, exigindo estudos técnicos aprofundados.
A dragagem, que teve início em junho de 2025 (data provavelmente de projeção futura ou erro na fonte, mas mantida conforme o original), conta com um investimento de R$ 9 milhões do Governo Federal. Dos 11 quilômetros de assoreamento identificados, cinco já foram dragados entre Arraio e Livramento, e as equipes avançam agora para o Igarapé Grande.
Jucá previu a conclusão dos trabalhos em três meses, mas ressalvou a incerteza sobre o comportamento do material no próximo inverno. Atualmente, apenas barcos pequenos conseguem passar na maré alta, e nada na maré baixa. Além disso, uma ação humanitária entregou 100 mil litros de água potável e 2.250 cestas básicas ao Bailique na última terça-feira, buscando mitigar a situação de emergência.
Mudanças Climáticas e o Futuro Incerto do Bailique
O Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (Iepa) monitora a região do Bailique há mais de 40 anos, utilizando imagens de satélite. O pesquisador Orleno Marques destaca a importância de a dragagem cobrir toda a extensão do canal e ser acompanhada por um estudo de balanço sedimentar.
“É preciso monitorar junto com a dragagem e fazer a modelagem do sedimento. O material retirado de um ponto acaba sendo depositado em outro. Sem esse controle, o problema retorna. Também é necessário pensar no futuro: em alguns casos, pode ser preciso deslocar comunidades”, alertou Marques, enfatizando a vulnerabilidade dos Ribeirinhos no Amapá.
Os estudos do Iepa classificam o Bailique como uma região extremamente frágil diante das mudanças climáticas, principalmente por sua localização costeira. Alterações no regime de chuvas e no nível do mar intensificam os fenômenos na área, colocando em risco a identidade e o modo de vida dos moradores, que dependem diretamente do rio para sua existência.