A oficialização do título celebra décadas de cantoria, repentismo e literatura popular que moldaram a identidade da cidade, com poetas icônicos e projetos inovadores.
São José do Egito, no Sertão do Pajeú, foi oficialmente reconhecida como a ‘Capital Pernambucana da Poesia’. Este título não apenas formaliza uma tradição, mas também celebra uma identidade cultural profundamente enraizada na cantoria, no repentismo e na literatura popular.
A cidade, já conhecida nacionalmente como a Terra da Poesia, tem seus versos e rimas intrinsecamente ligados ao cotidiano de seus moradores, manifestando-se em monumentos, espaços públicos e diversas expressões culturais.
Esta reportagem detalha como a poesia se entrelaça na vida da comunidade, desde as ruas até as salas de aula, e como um legado familiar de repentistas e cantadores foi fundamental para consolidar a fama poética do município, conforme informação divulgada pelo g1.
A Poesia no Cotidiano e na Educação
A presença da poesia é palpável em São José do Egito. Um dos pontos mais emblemáticos é o Beco de Laura, no centro histórico, onde mais de 50 versos de poetas locais adornam as paredes. Este espaço se transformou em um importante ponto cultural e turístico, atraindo visitantes e moradores interessados na rica tradição poética da cidade.
Além de embelezar as ruas, a poesia popular também chegou às salas de aula. Desde 2014, ela faz parte da grade curricular da rede municipal de ensino, sendo ofertada para estudantes a partir do sexto ano do ensino fundamental.
O historiador Danilo Leite destacou a importância dessa iniciativa para a manutenção da tradição poética entre as novas gerações. Em entrevista à TV Asa Branca, ele afirmou que foi “um acontecimento importantíssimo para essa manutenção da poesia, foi exatamente a instalação da disciplina na grade curricular. É a primeira cidade a ter essa disciplina”.
Os Pioneiros e a Linhagem Poética
A história da poesia em São José do Egito está intrinsecamente ligada a nomes de destaque da cantoria nordestina. Um dos grandes pioneiros foi o repentista Antônio Marinho do Nascimento, que viveu entre 1887 e 1940. Ele é considerado um dos responsáveis por projetar o nome da cidade no cenário da poesia popular.
Seu bisneto, também chamado Antônio Marinho do Nascimento, ressaltou em entrevista à TV Asa Branca que o bisavô foi o primeiro cantador a associar o município à tradição poética. “Foi o primeiro repentista que fez com que outras terras começassem a associar São José com a poesia”, afirmou.
A tradição continuou nas gerações seguintes da família. O avô de Antônio Marinho (bisneto), Lourival Batista, conhecido como Louro do Pajeú, também se tornou um dos maiores nomes da cantoria nordestina, consolidando ainda mais a reputação poética do município.
A conexão entre as duas linhagens de cantadores se fortaleceu quando Louro do Pajeú se casou com Helena Marinho, filha primogênita de Antônio Marinho. Essa união foi crucial para a perpetuação do legado, como explicou o bisneto Antônio Marinho.
“Helena era filha de Marinho e se casou com Louro. A partir disso nasce a nossa família trazendo a cantoria e a poesia dos dois lados. De um lado Helena com Marinho, do outro lado Louro. E aí vêm os filhos, os netos e as novas gerações”, contou ele.
O Legado de Louro do Pajeú e o Instituto
A casa onde Louro do Pajeú viveu com Helena Marinho tornou-se um importante ponto de encontro para poetas de toda a região. O local era palco de apresentações e encontros culturais, reunindo cantadores e admiradores.
O médico veterinário Antônio José de Lima, genro de Louro do Pajeú, recorda que a residência recebia visitantes de diversas partes do Nordeste, todos ansiosos por conhecer o poeta. “Tanto Louro como Dona Helena eram pessoas muito solícitas e acolhiam todo mundo. Uma pessoa vinha de longe para conhecer Lourival Batista ou cantar com ele e era muito bem recebida. Essa casa ficava pequena para caber o povo”, disse ele à TV Asa Branca.
Atualmente, o espaço onde esses encontros históricos aconteciam continua de pé e sob os cuidados da família. Ele abriga o Instituto Lourival Batista, uma instituição dedicada à preservação da memória da cantoria e da poesia popular. O instituto reúne objetos pessoais, fotografias e registros históricos, além de promover encontros culturais e projetos para valorizar a poesia.
Preservando a Tradição para o Futuro
A Secretaria de Cultura do município de São José do Egito continua empenhada em fortalecer essa rica tradição poética. Festivais de violeiros e diversos projetos culturais são constantemente realizados na cidade.
Essas iniciativas visam garantir que a poesia, considerada uma das mais importantes do Sertão nordestino, continue viva e inspirando novas gerações, reafirmando o título de ‘Capital Pernambucana da Poesia’ com orgulho e responsabilidade.