Sorocaba e Jundiaí Chocam: 44 Imóveis Vazios para Cada Família Sem-Teto Escancaram a Crise da Moradia Digna e a Especulação Imobiliária

Apesar do recorde de casas desocupadas nas cidades, especialistas alertam que a especulação imobiliária e a falta de políticas públicas efetivas aprofundam o déficit habitacional e a desigualdade social.

O cenário habitacional em Sorocaba e Jundiaí revela uma contradição alarmante: enquanto milhares de famílias lutam por um lar, um número ainda maior de imóveis permanece desocupado. Essa discrepância levanta sérias questões sobre o direito à moradia digna e as dinâmicas do mercado imobiliário brasileiro.

A situação é um reflexo de desafios complexos, onde a ausência de um teto seguro e salubre impacta diretamente a saúde e o bem-estar de uma parcela significativa da população. A discussão se torna ainda mais relevante em um contexto onde o direito à moradia é uma garantia constitucional.

Este panorama preocupante, que aponta para 44 imóveis vazios para cada família sem-teto, é o resultado de um levantamento exclusivo divulgado pelo g1, que integra uma série especial sobre a Campanha da Fraternidade 2026, focada no direito à moradia.

Por que Sobram Casas e Faltam Moradias?

O direito à moradia digna, previsto no artigo 6º da Constituição Federal, vai além de simplesmente ter um teto. Ele engloba condições de dignidade humana, segurança e salubridade. Não ter uma habitação adequada representa insegurança para a saúde e o bem-estar, além de gerar exclusão social.

A doutora em geografia humana e professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em Sorocaba, Rosalina Burgos, enfatiza que a questão habitacional deve ser vista em uma perspectiva macro social. Ela defende que a política habitacional precisa estar atrelada a outras secretarias e políticas setoriais para ser eficaz.

“Se ela não estiver diretamente atrelada às outras secretarias, às outras políticas de outros setores, ela não vai funcionar”, afirma Burgos. Segundo a professora, a política habitacional muitas vezes prioriza interesses privados em detrimento da oferta para as classes populares, que são as mais afetadas pelo déficit habitacional.

Especulação Imobiliária e a Cidade Espraiada

Para Rosalina Burgos, o cerne do problema não é a falta de casas, mas sim a especulação imobiliária. Muitos imóveis são mantidos vazios como forma de investimento, aguardando a valorização para gerar lucro futuro. “Por que tantas unidades vazias? Porque isso é especulação. É a possibilidade futura de lucro”, explica.

Essa prática, conforme a especialista, visa a ocupação de territórios ainda não explorados, impulsionando processos de valorização crescente. Isso resulta em uma cidade cada vez mais espraiada, extensa e segregada, com a formação de condomínios de médio e alto padrão que puxam a infraestrutura para regiões mais distantes.

A consequência é um aumento da segregação social e urbana, onde as classes populares são empurradas para áreas periféricas, enquanto os imóveis bem localizados permanecem desocupados, contribuindo para o agravamento do déficit habitacional.

A Solução para o Déficit Habitacional: Ocupar e Reformar

A arquiteta e urbanista Sandra Lanças, pesquisadora do Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Habitação de Interesse Social do Estado de São Paulo (CCD HIS SP), aponta que manter imóveis vazios, especialmente em áreas centrais, gera insegurança, desvalorização e desperdício de infraestrutura já existente, como redes de água e esgoto.

A solução, de acordo com Lanças, reside na reforma desses prédios para oferecer moradia. Isso beneficiaria trabalhadores e jovens, reduzindo deslocamentos e aproveitando a estrutura já pronta. “Não faltam imóveis já construídos que poderiam ser utilizados de alguma maneira social. […] Isso seria um ciclo virtuoso”, conclui a pesquisadora.

A construção civil, segundo Sandra, precisa “aprender a reciclar espaços”, o que traria ganhos ecológicos e econômicos significativos. “Não haveria necessidade de tantas construções novas, materiais novos e etc. A construção civil precisa aprender a reciclar espaços, e isto livra muito tempo, dinheiro e energia para ser investido em outras melhorias para a sociedade.”

Impacto nos Jovens e Ações Práticas

Sandra Lanças também destaca o impacto da dinâmica atual do mercado imobiliário na população jovem. Eles são afetados pela dificuldade em conquistar a independência e ter sua própria moradia, pois os preços exorbitantes dos apartamentos, mesmo os menores, tornam o acesso inviável para muitos, com salários que não acompanham a realidade.

O Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Habitação de Interesse Social do Estado de São Paulo (CCD HIS SP) está desenvolvendo um sistema para auxiliar órgãos públicos e empresas na identificação das demandas habitacionais, visando decisões mais assertivas no setor até 2029.

Em Sorocaba, a Prefeitura informou que mais de 101 mil pessoas se cadastraram no programa habitacional “Casa Nova Sorocaba”, evidenciando a alta demanda. Contudo, apenas dois empreendimentos de interesse social estão em “estágios avançados”, com prazos de entrega para 2026 e 2028, um período longo para quem busca uma moradia digna imediatamente.

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