Com ‘Jessé’, a voz singular de Teresa Cristina desvenda a maestria composicional de Zeca Pagodinho, mergulhando em um repertório autoral pouco explorado do mestre do samba.
A cantora Teresa Cristina presenteia o público com o lançamento de seu novo álbum, intitulado ‘Jessé – As canções de Zeca Pagodinho’. O trabalho, que chegou ao mercado em 17 de janeiro, propõe uma imersão profunda na obra autoral de um dos maiores ícones do samba brasileiro, Zeca Pagodinho, cujo talento como compositor muitas vezes é ofuscado por sua aclamada performance como intérprete.
Com sua interpretação visceral e autêntica, Teresa Cristina se afasta dos grandes sucessos e joga luz sobre sambas que, com o tempo, acabaram ficando menos conhecidos. Ela demonstra um conhecimento aprofundado do cancioneiro carioca, característica que se reflete na escolha cuidadosa das faixas.
O álbum, que já recebeu quatro estrelas na crítica do jornalista Mauro Ferreira, conforme informação divulgada pelo g1, é um convite para redescobrir a riqueza poética e melódica do Zeca Pagodinho autoral, interpretado por uma das vozes mais respeitadas do samba contemporâneo.
A Essência de Zeca Pagodinho sob Nova Voz
Teresa Cristina abre o disco com o canto a capella dos versos “Eu sou verso e sou reverso / Sou partícula do universo / Sou prazer, também sou dor / Eu sou causa, sou efeito / Eu sou torto e sou direito / Enfim, eu sou como eu sou”. Estes são trechos do partido alto “Pisa como eu pisei”, parceria de Zeca com Aluísio Machado e Beto Sem Braço, de 1988.
Essa escolha de abertura funciona como uma verdadeira carta de princípios da cantora, que, embora não prima pela técnica vocal exemplar, é uma intérprete de verdade. Ela coloca a alma na voz, compreendendo e transmitindo o sentido e o sentimento de cada verso que canta, uma marca registrada de seu trabalho.
O álbum foi gravado com a produção musical de Pretinho da Serrinha, e sua capa é um espelho da natureza do cancioneiro e da alma de Jessé Gomes da Silva Filho, o nome de batismo de Zeca. Elementos como o filtro de barro, que remete ao subúrbio carioca, e a imagem de São Jorge/Ogum, que evoca a devoção de Pagodinho, são símbolos marcantes.
O figurino azul e branco de Teresa Cristina na capa é uma clara homenagem à Portela, escola de samba que ambos, compositor e intérprete, carregam no coração. Essa conexão com a Portela é fundamental para entender a profundidade da escolha do repertório.
Mergulho nas Raridades e Parcerias Inesquecíveis
Teresa Cristina realça o DNA melódico e poético da velha guarda portelense que inspira a criação de “Falsa alegria”, de 1992. Essa parceria de Zeca com Monarco, um ícone do samba, foi lançada em um álbum de Zeca de menor visibilidade, “Um dos poetas do samba”.
Do mesmo período, a cantora traz à tona “Lente de contato”, de 1990, composta por Jorge Simas, Wanderson Martins e Zeca Pagodinho. Esse resgate se alinha perfeitamente com a discografia de Teresa, que já dedicou álbuns inteiros a mestres como Cartola, Noel Rosa e Paulinho da Viola, além de shows focados em Candeia e Zé Ketti.
Ela demonstra saber exatamente onde pisa ao cantar “Vem pra ser meu refrão”, de 1989, parceria de Zeca com Arlindo Cruz. Essa canção, até então gravada apenas por Reinaldo, ganha nova vida em sua voz. Outra joia é “Voo de paz”, de 1986, um samba lírico de Zeca com Jorge Aragão que ele próprio nunca gravou. Teresa alça voo alto ao dar voz à tristeza que balança na melodia.
Jorge Aragão também é parceiro de Zeca em “Testemunha ocular”, de 1987, e no grande samba “Mutirão de amor”, de 1983. Este último, composto pela dupla com Sombrinha, foi eternizado por Alcione em seu álbum “Almas & corações”.
A Tradição em Primeiro Plano
É importante ressaltar que Teresa Cristina não reinventa a roda nas dez faixas do álbum “Jessé – As canções de Zeca Pagodinho”. Os sambas são apresentados com a base tradicional do gênero, uma decisão acertada que mantém o foco principal do songbook: evidenciar as melodias e letras do Zeca Pagodinho autoral.
O álbum reúne doze sambas em dez faixas, graças à inclusão de dois medleys. Um deles une os temperos dos partidos altos “Jiló com pimenta”, de 1983, e “Já mandei botar dendê”, de 1995. Ambas as iguarias foram condimentadas por Zeca com seu parceiro e amigo de fé Arlindo Cruz, com quem Jessé também fez “Meu poeta”, de 2011, um samba mais dolente e lírico.
Fé, Ritmo e Ineditismo
A décima faixa do álbum, ainda a ser lançada futuramente, promete um presente especial: uma música inédita de Zeca Pagodinho com Beto Sem Braço, intitulada “Na pedreira de Xangô”. Este samba de batuque evoca os tambores do Candomblé, adicionando uma dimensão espiritual e rítmica ao trabalho.
“Na pedreira de Xangô” será unida, em um medley costurado pela fé religiosa, a “São José de Madureira”, de 1984. Este samba, parceria de Zeca com Arlindo Cruz, foi lançado por Beth Carvalho, a cantora antenada que apresentou Zeca Pagodinho ao Brasil em seu álbum “Suor no rosto”, de 1983.
Com este lançamento, Teresa Cristina não apenas celebra a maestria composicional de Zeca Pagodinho, mas também reforça seu próprio legado como uma cantora que sabe pisar com firmeza no chão que a consagrou, desde 1998, como uma das grandes vozes do samba.