Unidos pela Língua, Separados pela Desigualdade: Países Lusófonos Revelam Abismos Chocantes na Saúde e Expectativa de Vida.

Encontro no Rio de Janeiro expõe como, apesar dos laços culturais, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) enfrenta disparidades alarmantes nos cuidados.

O Rio de Janeiro foi palco, entre os dias 13 e 15 de maio, do 2º Summit Integração de Cuidados de Saúde nos Países de Língua Portuguesa. O evento reuniu representantes das nove nações que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP, que incluem Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Apesar de estarem unidos pela língua e por profundos laços históricos e culturais, a realidade apresentada no encontro revelou um cenário de grandes desigualdades na saúde entre essas nações. Os dados expostos chocaram os participantes ao ilustrar os vastos abismos existentes no acesso e na qualidade dos cuidados.

O paradoxo de estarem unidos pela língua, separados pela desigualdade, foi o tema central, evidenciando a urgência de ações conjuntas. Conforme informações divulgadas pelo g1, a reunião destacou a necessidade de políticas públicas eficazes para mitigar essas disparidades e promover a equidade.

O Abismo da Desigualdade na Saúde Entre Países Lusófonos

As diferenças nas condições de saúde dentro da CPLP são alarmantes e preocupam especialistas. Um dos exemplos mais gritantes é a expectativa de vida, que varia em 18 anos entre Portugal, onde a média é de 82,5 anos, e Moçambique, com apenas 62 anos. Esta é uma disparidade que reflete a urgência de intervenções eficazes na região.

A mortalidade materna na Guiné-Bissau é 34 vezes superior à de Portugal, um dado que sublinha a fragilidade dos sistemas de saúde em algumas das nações lusófonas. Além disso, as despesas em saúde per capita podem variar em até cem vezes dentro da própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, indicando enormes lacunas no investimento e acesso.

Ann Lindstrand, pediatra sueca e representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Cabo Verde, apresentou esses dados preocupantes durante o summit. Ela ressaltou que o cenário global é ainda mais crítico, com a disparidade na expectativa de vida entre as nações alcançando 33 anos, e a mortalidade de crianças menores de 5 anos sendo 13 vezes maior nos países mais pobres do mundo.

No Brasil, a desigualdade também é latente e se manifesta de forma regional e racial: um homem negro em Alagoas tem uma expectativa de vida estimada em 66,7 anos, enquanto uma mulher branca em Santa Catarina pode viver, em média, 80,9 anos. Esses dados são fruto de uma parceria entre o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social e o Cedeplar/UFMG, revelando a complexidade do problema.

Determinantes Sociais: Além das Escolhas Pessoais na Saúde

Por trás desse panorama de disparidades, estão os chamados determinantes sociais de saúde, que transcendem as escolhas individuais. Eles abrangem as condições em que os indivíduos nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem, formando um vasto guarda-chuva socioeconômico e cultural que molda a existência de cada um.

Aspectos como educação, moradia, trabalho, saneamento básico, segurança alimentar, riscos ambientais e o próprio acesso aos serviços de saúde são cruciais para a qualidade de vida. Quando essas variáveis falham, os resultados são severos: populações de menor rendimento representam o maior volume de atendimentos hospitalares e exibem a maior taxa de mortalidade.

Condições habitacionais precárias aumentam a incidência de doenças respiratórias e problemas de saúde mental, enquanto o desemprego e a precarização laboral sobrecarregam os serviços de emergência. A médica Ann Lindstrand criticou a ineficiência dos sistemas de saúde, que são, segundo ela, “um modelo de atrasos: para que o paciente chegue aos cuidados iniciais e os receba, e depois, numa etapa posterior e mais complexa, para ter acesso aos cuidados de referência”.

A OMS sintetiza esse dilema com uma pergunta provocadora: “Por que deveria o setor de saúde apenas curar as pessoas para devolvê-las às condições que as adoeceram inicialmente?”. Esta questão reforça a necessidade de uma abordagem mais ampla e preventiva, que ataque as raízes da desigualdade na saúde e não apenas seus sintomas.

Fatores de Risco Modificáveis e a Resposta Estrutural Necessária

É fundamental que os países com laços culturais estreitos, como os lusófonos, compartilhem informações e boas práticas, mas, acima de tudo, que formulem políticas públicas robustas para reduzir a desigualdade e promover a equidade em saúde. Os fatores de risco modificáveis são amplamente conhecidos, mas exigem uma resposta estrutural e coordenada.

Entre esses fatores, destacam-se a alimentação inadequada, com dietas pobres em vegetais e ricas em ultraprocessados, associadas à mortalidade cardiovascular. O sedentarismo contribui significativamente para a obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardíacas, enquanto o tabagismo e o consumo de álcool são responsáveis por um número expressivo de mortes e casos de câncer, impactando a saúde pública.

A poluição atmosférica tem um impacto direto no desencadeamento de doenças respiratórias e cardiovasculares. As alterações climáticas, por sua vez, acarretam ondas de calor, eventos extremos e a redistribuição de vetores de doenças infecciosas, agravando ainda mais o cenário da saúde pública em diversas regiões do mundo.

Estima-se que 24% das mortes globais estejam ligadas a questões ambientais, e o custo anual da poluição atinja a casa dos 820 bilhões de dólares. Esses dados reforçam a necessidade de uma visão integrada que considere não apenas os sistemas de saúde, mas também os amplos determinantes sociais e ambientais que impactam a vida e o bem-estar das populações lusófonas e do mundo.

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