VÍDEO INÉDITO Revela a Magia Oculta dos Carros de Mutação, a Tradição Única do Carnaval de Florianópolis que Transformava SC

Conheça a engenhosidade artesanal e a força humana que davam vida a alegorias espetaculares, marcando a história do carnaval de Florianópolis antes das escolas de samba.

O carnaval de Santa Catarina sempre foi palco de inovações e tradições marcantes. Em Florianópolis, uma particularidade que por décadas roubou a cena nos desfiles foram os carros de mutação, verdadeiras obras de arte em movimento que encantavam o público com suas transformações surpreendentes.

Essas alegorias, que combinavam engenharia artesanal com a força humana, representavam o auge da criatividade carnavalesca antes da consolidação das escolas de samba. Agora, um vídeo resgata a memória e a complexidade desses veículos únicos no Brasil.

Desvendando os segredos por trás de suas engrenagens e o impacto que tiveram na cultura da folia, conforme informação divulgada pelo g1, os carros de mutação deixaram um legado inesquecível.

A Engenhosidade por Trás dos Carros de Mutação

Antes do domínio das escolas de samba, o carnaval de Florianópolis era animado pelas chamadas grandes sociedades. Conforme descrito por Alzemi Machado em sua obra “O Carnaval das Grandes Sociedades em Desterro/Florianópolis 1858-2011”, essas organizações, que surgiram em meados do século XIX, promoviam bailes e, posteriormente, desfiles com alegorias.

O primeiro carro de mutação surgiu em 18 de fevereiro de 1885, apresentado pela sociedade Bons Arcanjo. Chamado de “A Grande Flor Misteriosa”, o veículo representava uma enorme tulipa cujas pétalas se abriam e fechavam, cativando o público que acompanhava o cortejo.

Os carros de mutação eram tipos de carros alegóricos que se destacavam pelas técnicas de maquinismo. Eles utilizavam processos artesanais complexos que envolviam madeira, cabos de aço, molinetes, iluminação e, principalmente, tração humana. O pesquisador Alzemi Machado explicou que as transformações dependiam da ação direta de um operador, sem pistões ou eletricidade, tudo funcionava por tração manual.

Inicialmente, esses carros eram puxados por cavalos. Contudo, no século XX, a locomoção passou a ser realizada por automóveis ou pela força de vários foliões, demonstrando a evolução e a adaptação dessas estruturas ao longo do tempo no carnaval de Florianópolis.

Como os Carros de Mutação Brilhavam nos Desfiles de Florianópolis

Na era de ouro dos carros de mutação, os desfiles aconteciam na Praça XV de Novembro, no Centro de Florianópolis. A concentração começava na Rua Felipe Schmidt ou na Avenida Mauro Ramos, com as sociedades não apenas divertindo o público, mas também competindo por uma taça de campeã.

Era crucial realizar as mutações em pontos específicos para impressionar tanto os foliões quanto os jurados. Os locais mais importantes de exibição incluíam o Palácio do Governo do Estado, atualmente Palácio Cruz e Sousa, a Câmara de Vereadores, hoje Museu de Florianópolis, e em frente à Catedral Metropolitana, onde ficava a comissão julgadora.

Um outro ponto que, por vezes, era incluído para as mutações era a Praça Fernando Machado, onde hoje se localiza o memorial do Miramar. Essa dinâmica se manteve até o carnaval de 1976, quando os desfiles foram transferidos para a Avenida Paulo Fontes, em frente ao Mercado Público.

A inauguração da Passarela Nego Quirido em 1989 marcou uma mudança significativa, impactando o sucesso e a visibilidade dos carros de mutação no carnaval de Santa Catarina.

O Declínio de uma Tradição: Por Que os Carros de Mutação Desapareceram?

Com o surgimento das escolas de samba em Florianópolis, a partir de 1947, as grandes sociedades começaram a dividir espaço. Inicialmente, o carnaval destinava dias específicos para cada tipo de agremiação, um arranjo que perdurou até os desfiles na Avenida Paulo Fontes.

Na Passarela Nego Quirido, escolas de samba e sociedades se alternavam. No entanto, a crescente valorização das escolas de samba, impulsionada pela força e expressão do carnaval carioca na mídia, desviou os holofotes das grandes sociedades, conforme destacou o pesquisador Alzemi Machado.

As principais razões para o declínio dos carros de mutação no carnaval de Florianópolis incluem a maior valorização das escolas de samba, a mudança do ângulo de visão do público nas arquibancadas, que tornava as mutações menos impressionantes, e a percepção de que as transformações eram muito lentas.

Além disso, problemas financeiros, a dependência de dinheiro público por parte das sociedades e a falta de vínculo dessas agremiações com comunidades específicas também contribuíram para o enfraquecimento dessa tradição. Alzemi Machado explicou que as arquibancadas faziam com que o espectador ficasse acima do carro, diminuindo o impacto visual da escala.

A tecnologia artesanal dos carros de mutação, que exigia tempo para a execução das transformações manuais, começou a ser vista como ultrapassada. O pesquisador relatou que “muitas pessoas começavam a falar ‘as sociedades não estão se modernizando'”. A ausência de um pertencimento a um bairro específico, ao contrário das escolas de samba, também foi um fator relevante.

O Legado dos Carros de Mutação no Carnaval Catarinense

Após um hiato de desfiles das grandes sociedades de 1994 a 2006, os carros de mutação fizeram um breve retorno entre 2007 e 2011, com as tradicionais Tenentes do Diabo e Granadeiros da Ilha. Contudo, na opinião de Alzemi Machado, esses desfiles já não possuíam a mesma grandiosidade.

O pesquisador observou que “foi muito longe daquela variedade de carros. Desfilaram com um carro só e as mutações muito fracas, vamos dizer, do ponto de vista artístico, da criatividade”. Ele contrastou essa realidade com as mutações passadas, que chegavam a ter torres de 18 metros de altura, indicando que a tradição foi se definhando.

Apesar do declínio, a memória dos carros de mutação permanece como um capítulo fascinante e único na história do carnaval de Florianópolis e de Santa Catarina. Eles representam uma era de criatividade artesanal e espetáculo que moldou a folia da capital, deixando um legado de engenhosidade e fantasia que merece ser lembrado e celebrado.

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