Zelensky alerta: ceder a Putin é um erro fatal para o mundo. Presidente da Ucrânia defende pressão militar e econômica intensa para deter a Rússia, revelando estratégia à BBC.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, fez um alerta contundente sobre o conflito com a Rússia, afirmando que o presidente Vladimir Putin já deu início à Terceira Guerra Mundial. Em entrevista ao correspondente da BBC Jeremy Bowen, em Kiev, dias antes do quarto aniversário da guerra, Zelensky enfatizou a necessidade urgente de uma resposta militar e econômica intensa para forçar Putin a recuar.
A posição de Zelensky é clara: qualquer acordo de cessar-fogo que implique a retirada de áreas estratégicas exigidas por Putin seria inaceitável. Ele argumenta que tais concessões não apenas enfraqueceriam a Ucrânia, mas também dividiriam a sociedade, entregando centenas de milhares de cidadãos ucranianos.
Para o líder ucraniano, satisfazer as demandas de Putin agora seria apenas uma pausa temporária, permitindo que a Rússia se recupere e, em um ou dois anos, retome a agressão com ainda mais força. Essa visão foi detalhada conforme informação divulgada pelo G1.
A visão de Zelensky: Terceira Guerra Mundial já começou
Volodymyr Zelensky expressou sua convicção de que Putin já iniciou a Terceira Guerra Mundial. Segundo ele, o cerne da questão não é se a guerra começou, mas sim “quanto território ele conseguirá tomar e como detê-lo”.
O presidente ucraniano ressalta que a Rússia busca impor “um modo de vida diferente e mudar as vidas que as pessoas escolheram para si”. Esta é a base de sua recusa em ceder qualquer território.
Quando questionado sobre a exigência russa de entregar 20% da região oriental de Donetsk, além de territórios em Kherson e Zaporizhzhia, Zelensky foi enfático. Ele não vê isso como mera terra, mas como um “abandono, enfraquecendo nossas posições, abandonando centenas de milhares de nossos cidadãos que vivem ali”.
Ele acredita que tal “retirada” teria o efeito devastador de “dividir nossa sociedade”, prejudicando a unidade nacional em um momento crítico. Para Zelensky, a única forma de parar Putin é com uma “pressão militar e econômica intensa”.
O Dilema das Concessões Territoriais e a Visão de Vitória
A ideia de que concessões territoriais poderiam satisfazer Putin e levar a um cessar-fogo é prontamente refutada por Zelensky. Ele argumenta que isso “provavelmente o satisfaria por um tempo”, mas seria apenas uma “pausa”.
Nessa pausa, o líder ucraniano estima que Putin poderia se recuperar em “não mais do que um ou dois anos”, e a partir daí, “que ele desejaria continuar [a guerra] é um fato”. A questão, para Zelensky, não é se Putin pararia, mas “para onde iria depois?”
Sobre a possibilidade de a Ucrânia perder a guerra, uma visão compartilhada por alguns analistas e até pelo ex-presidente dos EUA Donald Trump, Zelensky é categórico. “Vamos perder? Claro que não, porque estamos lutando pela independência da Ucrânia”, afirmou.
Para Zelensky, a vitória significa restaurar a vida normal dos ucranianos e pôr fim às mortes. Contudo, ele amplia essa visão, afirmando que “deter Putin hoje e impedir que ele ocupe a Ucrânia é uma vitória para o mundo inteiro. Porque Putin não vai parar na Ucrânia”.
Embora recuperar todo o território, retornando às fronteiras de 1991, seja o objetivo final e a “justiça”, Zelensky reconhece que isso não é possível no momento. “Fazer isso hoje significaria perder um número enorme de pessoas, milhões”, e a Ucrânia não possui “armas suficientes”.
Pressão Internacional e o Papel de Donald Trump
O cenário internacional, especialmente a postura dos Estados Unidos, tem sido um ponto de atenção. Donald Trump, que já afirmou que “a Ucrânia precisa se sentar à mesa rapidamente”, tem exercido mais pressão sobre Kiev do que sobre Moscou.
Diplomatas ocidentais indicam que Trump concorda com Putin sobre a necessidade de concessões territoriais ucranianas como chave para um cessar-fogo. Essa perspectiva gerou o que um diplomata descreveu como um “linchamento diplomático” público de Zelensky por Trump e seu vice, J.D. Vance, na Casa Branca.
Desde então, Trump suspendeu grande parte dos envios de ajuda militar à Ucrânia, embora os EUA continuem a fornecer inteligência vital e países europeus comprem armas americanas para repassar a Kiev. As declarações contraditórias de Trump, incluindo acusações de que Zelensky é um ditador que iniciou a guerra, foram motivo de riso para o presidente ucraniano.
Zelensky refutou as acusações, declarando: “Eu não sou um ditador e não comecei a guerra, é isso”. Questionado sobre a confiabilidade de Trump em manter a palavra sobre garantias de segurança, Zelensky destacou que as garantias precisam ser aprovadas pelo Congresso, pois “presidentes mudam, mas instituições permanecem”.
Eleições e a Busca por Armas: Desafios Internos e Externos
Outra exigência americana, que ecoa argumentos russos, é a realização de eleições gerais na Ucrânia até o verão. Zelensky, cujo mandato estaria previsto para 2024 mas foi adiado pela lei marcial, pondera sobre a questão.
Ele listou diversos problemas para a realização de eleições em um país em guerra, com milhões de refugiados e partes ocupadas pela Rússia. Contudo, afirmou: “Se essa for uma condição para acabar com a guerra, vamos fazê-lo”.
Zelensky desafiou os parceiros a decidirem: “querem se livrar de mim ou querem realizar eleições? Se querem realizar eleições, então realizem essas eleições de forma honesta. Realizem-nas de maneira que o povo ucraniano as reconheça, antes de tudo. E vocês mesmos devem reconhecer que são eleições legítimas”.
Apesar de ter enfrentado um escândalo de corrupção que levou à saída de um conselheiro, Zelensky mantém altos índices de aprovação. Ele também irritou aliados com suas constantes demandas por mais e melhores equipamentos militares.
Atualmente, o item mais urgente em sua lista é a autorização para fabricar armas americanas sob licença, como os mísseis de defesa aérea Patriot. “Infelizmente, nossos parceiros ainda não nos concedem licenças para produzir sistemas por conta própria, por exemplo, sistemas Patriot, ou mesmo mísseis para os sistemas que já temos. Até agora, não obtivemos sucesso nisso”, lamentou.
Ao final da entrevista, Zelensky expressou que não se trata de se preparar para uma guerra ainda mais longa em uma única trilha. Ele vê a situação como um jogo de xadrez com muitos líderes, não apenas com a Rússia, exigindo “muitos passos paralelos, muitas direções paralelas”.
Ele acredita que “uma dessas vias paralelas trará sucesso”, e para a Ucrânia, “sucesso é deter Putin”. Mesmo reconhecendo que Putin não encerrará a guerra a menos que esteja sob “pressão massiva”, Zelensky mantém a esperança. “Ele não quer, mas não querer não significa que não fará. Deus abençoe. Deus abençoe, teremos sucesso. Obrigado”, concluiu.