As Táticas de Putin: Como o Presidente Russo Garante o Apoio dos Bilionários e Fortalece a Economia de Guerra

Sanções ocidentais falharam em minar a lealdade dos super-ricos, que se tornaram pilares silenciosos da estratégia do Kremlin com recompensas e punições.

As estratégias de Vladimir Putin para manter o apoio dos bilionários russos têm sido notavelmente eficazes, transformando potenciais oponentes em aliados silenciosos. Este fenômeno ocorre mesmo diante das severas sanções impostas pelo Ocidente, que visavam isolar e enfraquecer o regime.

Apesar das pressões externas, a capacidade do presidente russo de recompensar a lealdade e punir a dissidência solidificou seu controle sobre a elite econômica do país. Essa dinâmica complexa moldou o cenário político e financeiro da Rússia.

Os bilionários russos, em vez de se voltarem contra o Kremlin, foram integrados à economia de guerra, colhendo benefícios significativos. Essas informações detalhadas foram divulgadas pelo g1, em uma análise aprofundada sobre as táticas de Putin.

O Preço da Dissidência: O Caso Oleg Tinkov

O ex-banqueiro bilionário Oleg Tinkov experimentou em primeira mão as severas consequências de desafiar o Kremlin. Após criticar a guerra na Ucrânia em uma publicação no Instagram, ele foi rapidamente contatado por emissários do governo.

Seus executivos foram informados de que o Tinkoff Bank, então o segundo maior banco da Rússia, seria nacionalizado a menos que todos os laços com seu fundador fossem imediatamente cortados. Tinkov relatou ao New York Times: “Não pude discutir o preço. Era como um refém: você aceita o que lhe oferecem. Não pude negociar.”

Em uma semana, o banco foi vendido para uma empresa ligada a Vladimir Potanin, um dos empresários mais ricos da Rússia, por apenas 3% de seu valor real, conforme afirmou Tinkov. Ele perdeu quase US$ 9 bilhões (R$ 50 bilhões) e deixou o país, um exemplo claro das táticas de Putin para reprimir a oposição.

O Fim da Oligarquia e a Ascensão do Poder de Putin

A situação atual contrasta drasticamente com o período pós-União Soviética, quando os oligarcas acumulavam vasta riqueza e influência política. Boris Berezovsky, um dos mais poderosos, chegou a afirmar ter orquestrado a ascensão de Putin em 2000, um papel do qual se arrependeria.

Berezovsky, que se exilou no Reino Unido e morreu em circunstâncias misteriosas em 2013, testemunhou o declínio do poder oligárquico. Quando Putin reuniu os mais ricos da Rússia no Kremlin em 24 de fevereiro de 2022, horas após a invasão da Ucrânia, a capacidade de oposição era mínima, mesmo com a iminência de grandes perdas financeiras.

Um repórter presente descreveu os bilionários como “pálidos e privados de sono”, um sinal da submissão imposta pelas táticas de Putin. Este encontro marcou um novo capítulo na relação entre o Estado e a elite empresarial russa.

A Economia de Guerra: Lucros e Lealdade

Inicialmente, as consequências da invasão foram duras para os bilionários russos. A Forbes registrou uma queda de 117 para 83 no número de bilionários até abril de 2022, com uma perda coletiva de US$ 263 bilhões (R$ 1,4 trilhão), ou 27% de sua riqueza em média.

No entanto, os anos seguintes revelaram enormes benefícios para aqueles que se alinharam à economia de guerra de Putin. Os gastos governamentais com o conflito impulsionaram um crescimento econômico de mais de 4% ao ano em 2023 e 2024, beneficiando até mesmo os ultra-ricos não diretamente envolvidos em contratos de defesa.

Em 2024, mais da metade dos bilionários russos desempenhou algum papel no abastecimento militar ou se beneficiou da invasão, conforme Giacomo Tognini, da Forbes. Ele acrescenta: “qualquer pessoa que tenha um negócio na Rússia precisa ter uma relação com o governo”, destacando como as táticas de Putin criam dependência.

Este ano, a lista da Forbes registrou o maior número de bilionários na Rússia, 140, com um patrimônio coletivo de US$ 580 bilhões (R$ 3,2 trilhões), quase atingindo o recorde histórico pré-invasão. Este crescimento é um testemunho da eficácia das táticas de Putin de cooptação e controle.

Sanções Ocidentais: Um Tiro no Pé?

As sanções ocidentais, destinadas a empobrecer os bilionários russos e voltá-los contra o Kremlin, acabaram por falhar em seu objetivo principal. A riqueza da elite permaneceu, e a dissidência entre eles foi quase inexistente. Se algum deles considerou desertar para o Ocidente, as sanções tornaram isso inviável.

Alexander Kolyandr, do Centro de Análise Política Europeia (CEPA), afirma: “O Ocidente fez tudo o que estava ao seu alcance para garantir que os bilionários russos se unissem em torno da bandeira.” Ele observa que a falta de um plano claro para a deserção, aliada ao congelamento de ativos e confisco de bens, ajudou Putin a mobilizar esses recursos para a economia de guerra.

O êxodo de empresas estrangeiras criou um vácuo rapidamente preenchido por empresários leais ao Kremlin, que puderam adquirir ativos lucrativos a preços baixos. Alexandra Prokopenko, do Carnegie Russia Eurasia Center, argumenta que isso criou um novo “exército de leais influentes e ativos”, cujo bem-estar futuro depende da continuidade do confronto entre a Rússia e o Ocidente.

Em 2024, 11 novos bilionários surgiram na Rússia por meio desse processo, segundo Giacomo Tognini. Essas táticas de Putin, de recompensar a lealdade e punir a dissidência, têm sido fundamentais para seu controle sobre as principais figuras influentes do país, solidificando seu poder mesmo em meio a conflitos e sanções.

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