Luto e Resistência: Serralheiro de Minas Gerais Constrói Cruz Para o Túmulo do Pai Após Morte Por Alegado Erro Médico em Hospital de João Pinheiro

A história de Samuel de Brito, um serralheiro de João Pinheiro, Minas Gerais, é marcada por um profundo luto e uma busca incessante por respostas. Ele enfrentou a dolorosa tarefa de construir a cruz para o túmulo de seu pai, Manuel Cardoso de Brito, de 68 anos, que faleceu na véspera do Natal após uma cirurgia que, segundo a família, teve complicações decorrentes de um suposto erro médico.

O caso, que está sob apuração da Secretaria de Saúde de João Pinheiro, chocou a comunidade local e reacendeu o debate sobre a segurança em procedimentos médicos. A família de Samuel questiona a conduta do hospital e a comunicação com os pacientes, especialmente após a descoberta de um corpo estranho no corpo de Manuel.

A tragédia familiar, conforme informações divulgadas pelo g1, revela não apenas a perda de um ente querido, mas também um padrão preocupante de incidentes envolvendo a mesma unidade hospitalar, levantando a indignação e a necessidade de justiça por parte dos familiares.

Um Natal Sem Brilho e a Descoberta do Erro

Manuel Cardoso de Brito, um idoso que se recuperava de um AVC, foi internado em 5 de dezembro com uma úlcera gástrica. Ele passou por uma cirurgia de urgência, que, de acordo com a equipe médica, havia transcorrido sem intercorrências. Após dois dias na UTI, foi transferido para o quarto.

Durante a internação, Samuel, o filho, notou que o pai estava com dificuldade para se alimentar. A cuidadora de Manuel também relatou sinais de dor e sonolência excessiva, levando Samuel a pedir que ela questionasse o quadro clínico do pai na próxima visita do médico.

Foi então que, em 11 de dezembro, uma tomografia foi realizada. Segundo o relato dos familiares, profissionais do hospital agiram de forma apressada, levando Manuel para uma nova cirurgia sem explicar os motivos ou solicitar autorização formal da família.

“Eles voltaram e buscaram ele pra fazer a cirurgia, aí nessa cirurgia eles não comunicaram e nem deixaram a cuidadora que estava com ele acompanhar. Não chegou a pedir ela pra ir, nem para comunicar a família”, contou o serralheiro, evidenciando a falta de comunicação.

A Segunda Cirurgia Sem Autorização e a Morte

Após a segunda cirurgia, Manuel retornou à UTI, onde permaneceu por 13 dias. Infelizmente, ele não resistiu e veio a óbito. Na certidão de óbito, a causa da morte foi registrada como natural, apontando choque séptico e úlcera gástrica perfurada.

Entretanto, Samuel e o advogado da família, Iuri Evangelista Furtado, contestam essa versão. O filho acredita firmemente que seu pai poderia ter sobrevivido se não fosse o suposto erro médico e a necessidade da segunda intervenção cirúrgica.

“Eu fiquei sem chão. Se isso não tivesse acontecido com ele, eu garanto que meu pai tinha passado o Natal e mais um Ano Novo com a gente”, lamentou Samuel, expressando a profunda dor e a sensação de injustiça que o assola.

Samuel relata que, após a segunda cirurgia, foi chamado ao hospital. O médico responsável teria dito que precisaram fazer o procedimento porque o pai estava com pus e que “esqueceram um dreno dentro dele”. Naquele momento, Samuel não associou a palavra “dreno” a um instrumento cirúrgico, afirmando que a equipe não deu detalhes sobre o objeto retirado.

Um Histórico de Falhas e a Busca por Justiça

A dor pela perda do pai ganhou um novo contorno quando Samuel descobriu outro episódio envolvendo sua família no mesmo hospital. Sua mãe, quando criança, também passou por uma cirurgia de retirada de vesícula na unidade, e, segundo uma tia, um dreno foi esquecido dentro dela por quase dois meses.

“Quando eu era mais pequeno, minha mãe teve uma cirurgia no mesmo hospital, muito tempo atrás, mas eu nunca imaginava isso. Ela foi tirar uma vesícula e nisso eles deixaram um dreno na barriga dela e ficou quase dois meses”, relatou Samuel, chocado com a semelhança dos casos.

Diante dos fatos, a família e o advogado iniciaram as medidas legais. Além de acompanhar as apurações da Polícia Civil, foram requisitados todos os prontuários, laudos, exames e registros clínicos e administrativos do Hospital Municipal, em busca da verdade.

“A família não busca vingança, mas sim verdade, justiça e respeito à memória do senhor Manuel, bem como a proteção de outras vidas para que fatos semelhantes jamais se repitam”, afirmou o advogado, ressaltando o compromisso com a prevenção de novas tragédias.

A Resposta da Prefeitura e o Compromisso com a Verdade

A Prefeitura de João Pinheiro, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, emitiu um comunicado sobre o falecimento de Manuel Cardoso de Brito. A nota informa que o paciente deu entrada em estado grave, com quadro infeccioso já instalado e histórico de saúde debilitado.

A prefeitura esclareceu que, durante o segundo procedimento, não foi constatada perfuração de alça intestinal e que as suturas do procedimento anterior estavam íntegras. Informou também que a família foi comunicada da necessidade de reabordagem cirúrgica e, posteriormente, sobre a retirada do corpo estranho.

A administração municipal destacou que, ao tomar conhecimento dos fatos, a Direção Administrativa e Técnica do Hospital adotou providências cabíveis, incluindo a notificação de evento adverso, a apuração das barreiras de segurança e o reforço dos protocolos. A ANVISA também foi notificada para instauração de sindicância e apuração rigorosa dos fatos.

Apesar das explicações, a família de Samuel de Brito segue em busca de respostas e justiça, esperando que a verdade prevaleça e que a memória de Manuel seja honrada. A construção da cruz do túmulo pelo próprio filho é um símbolo pungente de amor, dor e a persistência na busca por um erro médico que não se repita.

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